sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Raimunda




Raimunda era uma mulher infeliz, muito infeliz. Obrigada a passar os dias reclusa, trancafiada em seu pequeno quarto sem janelas, longe dos olhares curiosos dos vizinhos e parentes. A única pessoa com quem tinha contato era sua mãe. Diariamente, Dona Jurema levava-lhe as refeições e passava alguns minutos na companhia dela, em silêncio. Não havia espelhos no quarto. Raimunda sabia o porquê. Nascera com um defeito congênito, um defeito que fazia dela um ser bizarro, diferente, uma anomalia ambulante: tinha cara de bunda e bunda de cara. Isso mesmo, por alguma razão que só Deus - ou o Diabo - sabiam, seu corpo havia se formado com essa estranha inversão. Só essa. O resto estava todo em seu devido, anatômico e fisiológico lugar. Ou quase. Em seu rosto ou, melhor dizendo, em sua bunda que ficava no lugar onde deveria estar o rosto, havia aquilo de que toda bunda é dotada: um ânus. É. Raimunda não tinha só cara de bunda, tinha cara de cu.
O parto de Raimunda deu um tremendo trabalho à Dona Sebastiana, a parteira. Trabalho e um baita susto. Por pouco, ela não caiu desacordada sobre o ventre da paciente quando viu brotar de suas entranhas aquela coisinha miúda, sem cabelos e provida de um rechonchudo par de glúteos no lugar onde deveriam estar olhos, boca e nariz. Saiu desabalada porta afora quando, ao procurar a origem daquele choro agudo, deu de cara com aquele rostinho angelical, de bochechas coradas e olhinhos azuis. Dir-se-ia um lindo rosto se acaso não estivesse situado em local tão impróprio. A carreira da parteira terminou em tragédia sob as rodas da carreta carregada de cuecas e calcinhas, contudo, tão desventuroso destino mostrou-se oportuno àquele pequenino ser humano recém-vindo ao mundo dos humanos humanos e desumanos: preservar-se-ia o segredo. Sabe-se lá por quantas mãos de especialistas-cientistas-curiosos Raimunda não teria de passar caso seu caso fosse dado ao conhecimento geral. Mas isso não aconteceu, Dona Jurema guardou muito bem guardada, trancou muito bem trancada a razão de seu infortúnio: Raimunda, a bela menina com cara de bunda.
Raimunda cresceu. Aos dez anos, quando começou a fazer suas necessidades defecatório-fisiológicas sozinha, tinha enorme dificuldade em acertar o vaso sanitário. Acabava sempre cagando no chão do banheiro e na tampa do vaso. Se estivesse com diarréia, então... era merda para todo lado. Com o tempo e a prática, foi-se adaptando ao mundo que não havia sido projetado para ela.
O tempo passou, Raimunda chegou à maioridade, imersa na solidão melancólica de seu quarto, cujo mobiliário era modesto como sua vida: uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma estante com alguns livros e um aparelho de televisão com imagem em preto e branco, sua única janela para o mundo. Gostava de novelas e filmes românticos. Apaixonou-se um sem número de vezes por um sem número de atores. Numa fria noite de inverno, descobriu seu especial interesse por homens narigudos, enquanto assistia ao filme Cyrano de Bergerac, protagonizado por Gérard Depardieu. Era romântica, sonhadora, amava a vida com ardor, ainda que não soubesse o que era a vida além daquelas quatro paredes.
Certo dia, Raimunda sentiu um forte cheiro de perfume e ouviu uma voz masculina advinda de outro cômodo da casa. Pelo teor da conversa e os risos abafados, parecia que mamãe tinha arranjado um namorado. Sairiam para jantar. Raimunda esperou. Quando ouviu a batida surda da porta principal da casa e o subseqüente silêncio, tratou de movimentar a maçaneta. A porta abriu! Sua mãe, provavelmente sob o efeito do frenesi causado pela expectativa de estar novamente com um homem, havia esquecido de trancar a porta do quarto. Finalmente, após longos dezoito anos, Raimunda saberia como eram as coisas do lado de fora de sua prisão. Foi andando de costas, de modo a ver por onde andava. Conheceu o quarto de sua mãe, a pequena cozinha, o banheiro, a sala. Voltou à cozinha, vira algo que lhe chamara a atenção. A porta! Havia uma chave no interior da fechadura. Girou a chave, a maçaneta e... ar puro, finalmente! O frescor da atmosfera noturna atingiu em cheio seu rosto. Quedou-se vários minutos respirando aquele bendito ar. Por que sua mãe a havia privado disso por tanto tempo? Ensaiou um primeiro passo porta à fora e recuou, o medo do desconhecido a atingiu em cheio. Como um animal que permanece muito tempo enjaulado, foi tomada do receio de abandonar a segurança de sua cela. Sabia que era arriscado sair porquanto sabia que era uma mulher diferente, suas mãos, seus olhos e o monitor do televisor desligado lhe mostraram o que sua mãe tanto esforçou-se por lhe ocultar. Mas o desejo de liberdade, a curiosidade, a vontade de ver ao vivo e a cores tudo aquilo que assistira em cores neutras na tela do pequeno eletrodoméstico falaram mais alto. Hesitantemente, deu alguns passos no quintal de sua casa. Chegou ao portão que dava para a via pública. Estacou. Era o passo mais difícil. Respirou fundo. Puxou o trinco. Escancarou o portão. Estava na rua. Estava livre.
Caminhou devagar, deslumbrando-se com cada casa, cada prédio, cada árvore, cada poste, cada letreiro luminoso que encontrava ao longo da calçada. Na primeira esquina, descobriu o mal que habita a alma humana. Uma gangue de skinheads, ao redor de um latão em chamas, planejava seu próximo ataque em prol da supremacia branca. Raimunda tentou retroceder, mas era tarde: haviam-na avistado. Pensou em correr, mas o medo e a convicção de que não desenvolveria suficiente velocidade paralisou suas pernas. Limitou-se a virar-se de costas e fechar a abertura do manto com zíper, tapando seu rosto. Usava um manto negro, uma espécie de burka, que cobria seu corpo da cabeça aos pés. Sentia uma forte pressão, um turbilhão no estômago, como se lá houvera uma cambada de gatos em conflito. A gangue aproximou-se, rodearam-na. O mais alto, que parecia ser o chefe, disse:
- Ora, vejam só. Uma muçulmana perambulando sozinha nas ruas a uma hora dessas. Mamãe não te avisou que isso é perigoso, moça?
Raimunda não respondeu, todos os pêlos de seu corpo eriçaram-se, o estômago dava voltas e voltas, a pressão recrudescia perigosamente.
- As ruas estão cheias de indivíduos malvados que adorariam encontrar uma muçulmanazinha indefesa para distraí-los.
- Deixa a gente foder ela, chefe! - pediu um careca baixinho.
- Calma aí! Primeiro vamos ver a cara dessa puta.
No mesmo instante em que o chefe dos carecas arrancava, de supetão, o manto de Raimunda, ela perdia a batalha contra seu estômago. O jorro diarréico atingiu em cheio o rosto do líder do grupo, cobrindo-o de merda de cima a baixo. Ao ver Raimunda do jeito que viera ao mundo, os espavoridos carecas debandaram, atropelando-se uns aos outros, aos gritos de "alienígena! alienígena!"
Raimunda usou as páginas de um livro - Mein Kampf - que um dos skins havia deixado cair na fuga, para limpar-se. Vestiu-se. Recompôs-se. Pensou em voltar para casa mas ouviu música. Decidiu verificar a origem do som, a vitória sobre os carecas incutira-lhe confiança no espírito. Era um circo. Ela vibrou! Sempre quisera assistir a um espetáculo circense. Mas, com aqueles trajes, andando de costas e sem dinheiro para o ingresso, como entraria? Teve uma idéia. Esgueirando-se furtivamente em torno da tenda, encontrou um pequeno rasgo, por onde, ainda que com apenas um olho, podia ver o que se passava lá dentro. E o que viu fez seu coração palpitar: um homem baixinho, com pernas onde deveriam haver braços e braços onde deveriam haver pernas, fazia malabarismos com bolas e pinos, enquanto um palhaço de duas cabeças discutia e dava tapas em si mesmo, arrancando gargalhadas da platéia. Então, havia outros como ela! Não era a única diferente, a única anomalia ambulante na face da Terra! Continuou a assistir ao espetáculo. Viu trapezistas com quatro braços e quatro pernas, com pés no lugar de mãos e mãos no lugar de pés; um homem que não tinha olhos nem nariz, só uma enorme boca com a qual engolia quarenta e cinco espadas ninja; uma mulher gorda que peidava fogo, parecia um lança-chamas humano; outra que possuía vinte e dois seios ao longo do corpo, dava de mamar a vinte e duas crianças; o homem-galinha, que tinha penas, bico, cacarejava e comia milho. Por fim, o apresentador anunciou a atração principal da noite:
- Que rufem os tambores!... Respeitável público, El Gran Circo De Los Horrores tem o prazer de lhes apresentar o astro maior de nossa companhia, ele já foi político, juiz, empresário, escritor, ator de filmes eróticos, servidor público, policial, jornalista, michê, rufião, modelo vivo, operário em fábrica de preservativos, ele não precisa matar a cobra para mostrar o pau, ele ajoelha para rezar e também para mijar, ele não é metafórico, não usa Jimo Cupim, ele é dotadão, ele é... Ni-co-lau, o Ca-ra-de-pauuuuu!!!
A explosão de aplausos acompanhou, sincronicamente, os batimentos cardíacos de Raimunda. A taquicardia somada ao calor que lhe assomou ao corpo não deixava dúvidas: fora atingida pela seta inflamada do Cupido. Com o coração aos pulos, sem piscar os olhos, assistiu ao número do homem moreno, alto e musculoso que exibia, despudoradamente, um avantajado e portentoso pênis ereto no exato lugar onde deveria estar o nariz. O homem ergueu toalhas encharcadas, bolas de ferro, halteres, anões obesos e outras pesadas coisas mais com o pênis. Foi suspenso por uma corda amarrada ao bilau e voou sobre as cabeças dos boquiabertos espectadores. O gran finale consistia numa espécie de arremesso de porra à distância: o homem tinha de acertar um pequeno balde posto a uns cinco metros de onde estava. Silêncio total na platéia, momento de expectativa, tambores em pianíssimo. Alguns fotografavam, outros filmavam. O homem masturbou-se, masturbou-se, masturbou-se e... veio a primeira golfada de sêmen. Subiu, subiu, subiu - ninguém respirava - depois, em curva descendente, desceu, desceu, desceu e voilá! Acertou o centro do balde, sem respingar sequer uma gota no picadeiro. O público foi ao delírio, palmas, assovios, uivos, gritaria, algazarra total. Mas, decerto, ninguém vibrou mais que Raimunda, seu coração, sua alma, seu corpo, seu sexo clamavam por aquele homem.
Raimunda escondeu-se atrás de uma das rodas de um dos caminhões que compunham a frota circense. Aguardou, com ansiedade, a saída do público, o recolhimento dos artistas, assistentes e funcionários, o apagar das luzes. Pé ante pé, deslocou-se até o trailler onde se lia, em letras roxas: "Nicolau, o Cara de Pau". Hesitou, à porta, por alguns minutos. "Ele vai me atender ou me enxotar? Serei bem recebida? Ele vai gostar de mim?" Entretanto, essas dúvidas, esses temores naturais não vingaram ante a chama avassaladora que devorava Raimunda. Bateu. Três batidas secas. "Quem é?" - indagou, de dentro, uma voz grave. "Meu nome é Raimunda. Preciso falar com você." - parecia que seu coração pulsava na garganta e seria cuspido a qualquer momento. A porta abriu-se devagar. Nicolau, com seu nariz-pau descomunal, agora murcho, ficou olhando para os cabelos de Raimunda. "Aqui embaixo." Nicolau baixou os olhos, a glande roçou seu umbigo. Seus olhos se encontraram, tudo dependia daquele encontro de olhares, da mensagem muda que seria mutuamente transmitida. Gostaram do que viram. Nicolau sorriu, Raimunda sorriu. "Posso ajudá-la?" "Desculpe incomodá-lo a essa hora. É que assisti ao espetáculo e gostei muito da sua apresentação." "O que é isso? Incômodo nenhum. Entre, por favor." Raimunda não conseguia parar de sorrir. "Sente-se, fique à vontade. Aceita um uísque, uma cerveja, um refrigerante?" "Uma cerveja, por favor. E prefiro ficar em pé, se sentar, não conseguiremos conversar, você compreende?" "Oh, claro. Desculpe-me. Vou pegar as cervejas." Conversaram e beberam durante horas, cada qual contou sua história. Nicolau, que tinha o dobro da idade de Raimunda, disse-lhe haver descoberto a inexistência da normalidade humana, todos, absolutamente todos os homens tinham algum defeito, fosse no corpo, na mente, na alma ou no coração. "Há homens que, embora possuidores de um físico perfeito, apresentam toda sorte de defeitos morais, são homicidas, sociopatas, egoístas, avarentos, corruptos, degradados, dissolutos, ladrões, invejosos, estelionatários, escroques, a lista é gigantesca. Perto desses homens, somos as pessoas mais lindas e sãs de todo o mundo." - argumentou Nicolau. "Por falar nisso... Como você é bonita." Raimunda corou, mas não se esquivou do beijo. Percebeu que algo se mexia no rosto de Nicolau, era, obviamente, o pau, que crescia e endurecia assustadoramente. Mas Raimunda não se assustou, pelo contrário, entregou-se por inteiro àquele homem diferente, lindo e perfeito que a fez descobrir a beleza e a perfeição de sua própria diferença. Raimunda, nessa noite mágica, tornou-se uma mulher feliz, muito feliz, a mulher mais feliz do mundo.
Raimunda foi contratada pelo dono do circo e ganhou um papel de coadjuvante no número de seu companheiro. Enquanto ele faz seus malabarismos e acrobacias penianos, ela toca Brasileirinho numa flauta especialmente projetada para seu ânus. Devido ao aumento do consumo de refrigerantes e outras beberagens gasosas fundamentais ao bom desempenho de seu mister, ganhou alguns quilos. Perdoou Dona Jurema, que sempre vem visitá-los e trás cuscuz, o doce predileto de Raimunda. Para que a felicidade se tornasse completa, só faltava um rebento, um Nicolauzinho ou uma Raimundinha. Mas, nem um nem outra, há pouco mais de uma semana, nascia en El Gran Circo De Los Horrores uma linda menina, alegria da família, xodó da vovó, futura atração circense, a pequena, fofa, vermelha, testuda e peluda Julieta.

Carlos Cruz - 25/12/2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

O Perfume





O odor písceo emanado de vaginas sujas excitava-o sobremodo. Muitas sessões de análise depois, descobriu que tal pulsão era perfeitamente aceitável porquanto natural. Era um homem normal, afinal. Exultante, foi ao supermercado comprar cerveja. Ao passar pela seção de peixes, o aroma agradável do bacalhau exposto acertou em cheio suas narinas. Era véspera de Natal. Hormônios em ebulição, imediata reação. Não pôde impedir o inteiriçamento do pau nem reprimir seus desejos carnais e - agora sabia - normais!
O espanto do funcionário do supermercado deu lugar a uma estrondosa gargalhada ante aquela cena bizarra: o pobre bacalhau descabeçado era impiedosamente sodomizado pelo homem tresloucado, de rosto transfigurado e sorriso desvairado. O homem normal copulava com o bacalhau. O falo teso ardia nas entranhas do salgado animal, oriundo dos mares gelados da distante Noruega. O homem normal gozou no bacalhau. Um gozo normal.

Carlos Cruz - 17/11/2007

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Poemoterapia





O esquizofrênico debatia-se convulsivamente à medida que o poeta, em deleite, lia seu melhor poema.

Carlos Cruz - 09/06/2007

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Película ou Diálogo Porno-erótico Rebuscado





Iracundos, os velhos acadêmicos imortais assistiam ao filme pornô em preto e branco, raríssimo exemplar de um dos precursores do gênero. Ouviu-se um deles indagar:
- Não trata-se de uma película erótica? Lá se vai uma hora e não se lobriga vulva nem tampouco falo. Acaso o mancebo couto não fará com a meretriz?
- Fá-lo-á - retorquiu outro - decerto, fá-lo-á.

Carlos Cruz - 05/06/2007

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sintaxe
















Sinta-se
um vate
sintético

Sinta-se
um xote
eclético

Sinta-se
um dote
disléxico

Sinta-se
um trote
estético

Sinta-se
um poste
poético

Sinta-se
um traste
benéfico

Sinta-se
um chato
esférico

Sinta-se
um santo
histérico

Carlos Cruz - 28/03/2008

domingo, 19 de outubro de 2008

La Fuga

Pablo Picasso


Recorrí las playas de arenas ardientes
quemando las plantas de mis doloridos pies
Enfrenté las olas del mar bravío
mi cuerpo azotado por el látigo hecho de agua
Subí a la cumbre de la montaña más alta
las heridas de mis manos bañaron las piedras
coloreándolas con el rojo de mi sangre
Me perdí en la selva verde y húmeda
llena de musgo y sonidos amedrentadores
Al fin, agotado por la caminata escabrosa
Me senté al suelo y sonreí
Intenté dejarte a lo lejos
escapar de tus presas de mujer felina
pero no pude resistir a tus encantos y encantamientos
ni al amor que devora mi corazón
que late, desesperado, siempre cuando mis ojos miran
tu cuerpo
Carlos Cruz - 08/10/2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Deus Cadáver





Flutuava, atônito, ao redor de si. O peito doía, mais pelo pontapé em seu cadáver que pela passagem do metal incandescente. Seus volumosos códigos jaziam espalhados na via, à mercê dos passantes. A visão de sua bela toga negra, agora suja, rasgada, sacrilegamente repousada sobre o monturo de excremento canino deixou hirsutos seus pêlos ectoplásmicos. O condenado foragido, a valise, o Rolex e a carteira há muito haviam sido engolidos pelas trevas noturnais, restando, apenas, a capital sentença a reverberar em sua mente confusa, mesclada ao estampido ensurdecedor: "É, seu juiz. O senhor me fudeu aquele dia lá no tribunal. Agora, quem vai se fuder é o senhor. Quem o senhor pensou que era pra ferrar com a minha vida daquele jeito? Deus?"

Carlos Cruz - 07/10/2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O Ativista





Estêvão, PhD em Botânica e ferrenho ecologista, namorava à beira do lago. Diana, a namorada, ouvia, com interesse, a explanação de Estêvão acerca do crescimento, morfogênese e reprodução das algas marinhas bentônicas do Mar Báltico durante o equinócio da primavera e sua importância para o equilíbrio do ecossistema marinho. Foi quando ele lançou uma pedra nas águas do lago, atingindo acidentalmente a cabeça de um peixe, que boiou, biologicamente morto. Calado e cabisbaixo, também jogou no lago sua carteira de ativista do Greenpeace.

Carlos Cruz – 06/06/2007

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Hay que endurecerse, mi general!


Hay que endurecerse, mi general!



Exclama a prostituta, num assomo de divertido compadecimento, diante do outrora imponente chefe da nação, que segura tristemente seu outrora empedernido - cabisbaixo, agora - órgão sexual, enquanto olha de soslaio para a cápsula azul. "Si al menos fuese roja..." - pensa, com suas insígnias e medalhas, o ex-comandante. Súbito, ergue-se, empertiga-se, apruma-se, fita a parede e solta a voz: "Compañeros del Ejército Rebelde y de las Milicias Nacionales Revolucionarias, cubanos todos: Duro y largo ha sido el camino, pero hemos caminado..." Muitas horas discursivas depois, suado, extenuado, observa, oco e sem sentimento, o corpo nu da puta adormecida, mal esculpido por implacáveis cinzéis, carregado de disformes marcas violáceas, frutos de trabalhos passados. Deixa alguns pesos sobre o criado-mudo, ao lado do pequeno rádio de pilha donde, alheio e clandestino, Mano Chao entoa "Por El Suelo". A ilha amanhece, vermelha, mais uma vez.

Carlos Cruz - 23/09/2008

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Réquiem de Despedida





Sentia um profundo pesar enquanto amarrava a corda na viga. Sentou-se e tocou um trecho do Réquiem em ré menor de Mozart. Não queria ter chegado a esse ponto, mas as dívidas acumularam-se, os cobradores não lhe davam sossego. Agora não havia mais retorno, estava decidido a acabar com aquele sofrimento de uma vez por todas, descansar em paz. Aplicou um puxão na corda, não podia arriscar seu rompimento no instante crucial. Estava firme. Respirou fundo, fez uma breve oração pedindo perdão a seus antepassados. Chegara a fatídica hora...
Chamou os homens que aguardavam do lado de fora do apartamento. Rompeu em prantos quando o velho piano Steinway iniciou a descida.

Carlos Cruz - 08/06/2007

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Raul Cortês





nem sei de quando
vem
nem por que
vem
ou veio, ou véio, gol
veia
ou velocino da preta
véia
sem dente de
ouro
de tolo
amassa bolo
de musgo de
aveia
quac!
de olhos de
baleia
de óleos de
rícino
rico
oco
rente

o grilo falante
besuntado de hidratante
lá do cume do hidrante
profeta, profetiza
precoce, preconiza
exorbitante, exorbita
exegeta, exige a nota
cheio de banca e de pose
distribui amiúde e
de graça, conselhos de graça
sábio artrópode sapiente

sê cortês!
se és o boi de piranha
se és a bola da vez
se és o bode, a rês, o cabrito montês
se o salário não chega ao meio do mês
se o chefe dá sempre razão ao freguês
se te vendem paraguaio por escocês
se a patroa te troca pelo rico burguês
se sonhas recorrentes sonhos de embriaguez
se dois mais dois sempre dá três
se o cachorro do vizinho comeu teu gato siamês
se à tua volta se agiganta a humana pequenez
se só o que vês é cega estupidez
sê cortês!

mandou ver e mandou bem
a boa e redonda letra
que somente iletrados
e letrados sem letra
e letrados não bestas
entendem e compreendem

na birosca do Tião
pedi uma com limão
outra e mais outra
e mais outra e mais

pus rima com cuscuz
avestruz e jesus
eu vi a luz! (porque luz
tem que rimar com jesus
assim como dor deve rimar com amor)

ô tião, sangue bom,
manda mais uma, então!
senti próximo o momento
de praticar o ensinamento
veio vindo lá de baixo
o indomável furacão
poderia despejá-lo
no chão, banheiro, balcão
mas não era de bom tom
jorrei volumoso e terno
no enternado
na calça de linho
na camisa de seda
no sapato de crocodilo
desalinhado e irado
pretendeu racionalizar o desagrado
célere, desarmei o desalmado
desacelerei o celerado:
se quiseres, podes me bater
mereço ser castigado
dês a primeira porrada
se não tiveres pecado
o soco veio firme, forte, pungente
primeiro, a inconsciência
o regozijo, a seguir
constatação, revelação:
cortês fui - me dei bem - aleluia!
vi o túnel negro, vi a luz
Vi o sempiterno Jesus!
(reforço: luz, obrigatoriamente, rima com Jesus)

Carlos Cruz (cruz também, saliente-se) - 27/08/2008

sábado, 13 de setembro de 2008

Não-soneto Esquizo-dadadodecassílabo Pobre de Rimas




Alvissareiro, o pedreiro filosofa o comércio do amor
Cachaceiro, o tesoureiro vaticina a vacina contra a dor
Matreiro, o vaqueiro tosquia a ovelha do pastor
Brejeiro, o cordeiro ludibria o astuto pensador

Canibalista, o hindu rumina a musical oração
Humanista, o soldado prepara a miraculosa poção
Demonista, o santo apregoa as pregas do sacristão
Fetichista, o exegeta ejeta na aorta o sabão

A Pangéia doente vomita proletários
Tapuias hasteiam a divinal bandeira
Os farrapos devotos da Régia Cangaceira

Riso escarninho, safadeza e: que otários!
Os suados gravatas bravatas crocitam
Fodam-se os asnos que nos criticam

Carlos Cruz - 07/02/2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Halterofilista



"Babacas..." - resmungava, ao ouvir as piadinhas sem graça - sempre havia alguma nova no inesgotável anedotário dos amigos otários - pejorativamente alusivas às supostas atrofias peniana e cerebral de quem se dedicava à comprovadamente saudável atividade de levantar pesos.
Poderia resignar-se, aceitar os gracejos, acomodar-se, mas não! Não jogaria a toalha sem lutar. "Retroceder nunca, render-se jamais!" - como diria Mestre Jean-Claude Van Damme. Primeiro, ao Sex Shop. Comprou uma bomba Big Pênis movida a ar comprimido. Depois, rumo à livraria. Adquiriu nada mais nada menos que sessenta livros, mais precisamente sessenta calhamaços, todos clássicos da literatura universal; "Os Irmãos Karamazovi", de Dostoiévski, era o menos volumoso. "É possível desenvolver qualquer parte do corpo humano, basta exercitar.", dissera o treinador. "Agora, eles vão ver quem é o anjinho barroco com cérebro de formiga...", pensou, satisfeito com sua genialidade. Pegou a pesada panela de ferro fundido, no fundo da qual mandara soldar uma barra de aço maciça. Dividiu os livros em duas pilhas iguais, amarrando-os, em blocos, às extremidades da barra. Acoplou a bomba ao pênis e a panela à cabeça. Enquanto o ar pressionava dolorosamente seu pinto, flexionava os joelhos e fazia abdominais. Sua cabeça doía, mas prosseguiu, firme. Minutos depois, já sentia os efeitos dos exercícios. "Ah, então é isso!" Lembrou-se de haver lido em algum lugar algo sobre exercícios literários. Três horas mais tarde, saiu à rua para caminhar. Apesar do pau e da cabeça doloridos, estava feliz. Era um novo homem, um misto de Arnold Schwarzenegger, Long Dong Silver e Machado de Assis.

Carlos Cruz - 05/09/2008

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Estróina Letrado, a Fortuna e o Desassossego




Vovó era rica, muito rica. Em virtude dessa circunstância financeiramente interessante, e somente por isso, todos a bajulavam. Todos menos eu. Achava um tremendo pé-no-saco aquelas histórias do tempo do onça, de quando ela dançou com Jorginho Guinle no suntuoso salão do Copacabana Palace ou da inesquecível noite de gala em que ela assistiu, ao vivo e a cores, o sapateado vivaz de Fred Astaire, derrubando cadeiras na Broadway. Mas, sem dúvida, a história campeã no quesito "dedo na goela" era a que narrava o romântico encontro dela com vovô, no interior do Cine Caruso. Não que aquela segurada de mão no escurinho do cinema fosse algo sem importância, afinal, se isso não houvesse acontecido, eu não estaria aqui. O problema era o filme. Ouvir, durante muitos e intermináveis minutos e com extrema riqueza de detalhes, o roteiro de Casablanca era um tremendo exercício de paciência e tolerância. Sem dúvida, se dependesse de vovó, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman ganhariam vários Oscar por sua atuação naquele maldito filme.
Por essas e outras, eu não visitava vovó. Ou melhor, visitava no Natal. A família reunida, todos disputando renhidamente aquele que tinha os melhores presentes: o saco da vovó. O do pobre bom velhinho era jogado para escanteio, ninguém queria saber de brinquedinhos de um e noventa e nove made in china. O que todos queriam era colocar as mãos na fortuna da vovó. E puxavam o saco, digo, os peitinhos murchos da vovó. Ora bolas, vovô tinha bolas, tinha saco; vovó não.
O tempo passou e o inevitável aconteceu: vovó morreu. Tal qual no Natal, todos se reuniram para enterrá-la bem rápido e ouvir a leitura do testamento, bem rápido. Após a leitura, choradeira geral e uma boca aberta: a minha. Jamais vou saber porque vovó deixou toda sua fortuna para mim. Logo eu que nunca a havia adulado, nem dado sonoros beijinhos no rosto, nem sorrido sorrisos idiotas enquanto elogiava sua aparência jovial, nem ficado horas ouvindo suas obsoletas histórias. A verdade é que a despeito das caras-de-bebê-cagado ao meu redor, eu, somente eu e mais ninguém, fora o agraciado pela generosidade da minha simpática (ficou de repente, o que posso eu fazer?) progenitora.
Bom, fiquei rico. No início era legal, muitas coisas a fazer, muitas coisas a comprar, muitos lugares a conhecer. Depois, com o tempo, ficou chato, muito chato. A fim de matar o tempo e esquecer o tédio, passei a escrever. Um poema daqui, um conto de lá, entretinha-me. Daí, surgiu um convite para publicar. Uma antologia. Aceitei. Paguei. Recebi vinte e dois livros. Meu conto ocupava menos de um quarto de uma página. Mas a sensação de vê-lo ali naquele menos de um quarto de página, o pequeno conto que escrevi, era muito boa. Não vendi os livros, afinal sou rico. Distribuí para os amigos e familiares. Os que leram - as pessoas não valorizam as coisas dadas - disseram que o livro era mediano, alternava contos mais ou menos com contos meia-boca com contos ruins. "E o meu, o que acharam? Ficou mais ou menos, meia-boca ou ruim?" Invariavelmente, todos disseram haver gostado por demais, que o conto era ótimo. Estarão eles me bajulando só porque sou rico? Acho que jamais saberei se realmente tenho talento com as letras ou se sou só mais um milionário metido à besta. Maldito dinheiro da vovó!

Carlos Cruz - 31/08/2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Pastor João



Convicto da missão que o próprio Deus lhe confiara, Pastor João apenas observava, compadecido, os policiais que o conduziam. Acusavam-no de estelionato, formação de quadrilha, associação para fins de tráfico, corrupção de menores, mediação para servir à lascívia de outrem, a lista era extensa. Quanta babaquice. Afinal, o que era a lei dos homens se comparada à Lei do Todo-Poderoso? Jamais esqueceria a noite em que Ele aparecera, na forma de um cabeçudo alienígena verde-oliva, grandes olhos flamejantes, dentro da fulgurante bola de fogo amarela, dizendo, com aquela voz tonitruante, as palavras que mudariam para sempre a vida de João:
- João! Esqueçe tudo o que aprendeste sobre bem, mal, certo, errado, pecado, Céu, Inferno e Purgatório. Queima tua Bíblia. São mentiras, invencionices de Lúcifer, visando privar os homens dos prazeres da vida e levá-los à perdição. Poucos conhecem o caminho da verdade. Mostrar-to-ei. Ouve. Procura um livro chamado Código Penal. Segue as instruções que ali estão. Pratica o que o livro chama de crimes. Assim agindo, alcançarás a felicidade na Terra e a salvação no Céu.
Lembrou-se de sua ingênua audácia, ao questionar Aquele Que Tudo Sabe:
- Mas... Senhor... Tornar-me-ei um criminoso?
- Serás um servo de Deus. Vai, João, combate o bom combate. Não temas, sempre estarei contigo. - respondeu o Onipotente, desaparecendo numa nuvem de fumaça que provocava ardência nos olhos e nas narinas.
Fitou novamente os policiais, as algemas comprimindo dolorosamente seus pulsos. "Eles não sabem o que fazem" - pensou.

Polinter, Base Neves. Acautelado, à disposição do MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Capital. Os presos, todos crentes, conheciam-no e o respeitavam. Não é todo dia que viam uma celebridade do mundo do crime, inda mais um homem de Deus. Ministrava fervorosos cultos, ensinando às ovelhas o verdadeiro caminho do Céu, que todos conheciam de uma à outra ponta e muitos já o haviam trilhado várias vezes. Conquistou dezenas de almas no xadrez, deixando os antigos pastores a catequizar as paredes. Tudo transcorria bem na Seara do Pastor João, até aquela fatídica noite de 25 de agosto, a noite do eclipse lunar...
Todos dormiam na cela, à exceção de Pastor João, que meditava sobre os intrincados e tortuosos caminhos do Senhor. Viu o pequeno facho de luz surgir na parede, bem em frente ao poster da Viviane Araújo. Recordou-se de imediato. Caiu de joelhos.
- Senhor! Finalmente vieste me socorrer!
O diminuto clarão foi aumentando de tamanho, adquirindo a forma do Deus marciano. Pastor João alternava choro e riso, em seu rosto uma expressão desvairada. Tremeu quando ouviu a voz de trovão:
- João, meu servo, regozijo-me contigo. Vejo que és valoroso. Mesmo diante de tantas e tamanhas adversidades, não titubeaste nem arrefeceste. És valente e constante. Mereces teu galardão. Queres vislumbrar o que te aguarda?
- Senhor, não sou merecedor. Fiz apenas o que me ordenaste. Combati o bom combate, visando ao cumprimento de minha missão. Se achares que sou digno, mostra-me minha recompensa.
O ser verde luminoso, então, soltou uma gargalhada estereofônica, ao mesmo tempo em que suas formas foram se transformando: a pele verde tornou-se rubra, os olhos de fogo enegreceram, surgiram chifres, cauda e cascos de bode. O cheiro de enxofre era quase insuportável. Pastor João contemplava, boquiaberto, o ser venerado que transformara sua vida, transmutar-se na figura do Príncipe das Profundezas, o Tinhoso, o Cão do Pé Preto! Aturdido, viu, na parede, imagens de um filme de terror, saídas de um projetor invisível, cujo protagonista era ele próprio! Viu-se mergulhado em um lago de magma, destrinchado e devorado por demônios alados, suas vísceras lançadas aos cães; viu jacas gigantescas serem enfiadas em seu ânus, viu seu corpo ser corroído por urina ácida lançada por íncubus horrendos; viu sofrimento, muito sofrimento.Súbito, a tela sumiu, o Diabo riu zombeteiro. Olhou para o aturdido Pastor João e falou:
- Te vejo no Inferno, babaca!
Dito isto, desapareceu numa nuvem de fumaça com cheiro de enxofre. Pastor João ficou ali ajoelhado, imóvel, durante vários minutos. Alguém sacudiu seu ombro.
- Ô pastor! Algum problema?
Era Alcebíades, preso por haver assassinado a mulher e a sogra. Após alguns minutos, Pastor João fitou o rosto perscrutador de Alcebíades e ordenou:
- Alcebíades, coma meu cu!
- O quê? Tá doido, pastor?
- Você quer padecer no lago de fogo e enxofre do Inferno? Faça o que estou mandando, coma meu cu!
- Tá legal, pastor. Se é pra me livrar do Inferno, vamulá.
Os gemidos acordaram os demais presos. Pastor João mandou que todos o comessem, sob pena de arder no fogo do Inferno. Temerosos de perder a alma, um a um, ininterruptamente, os presos sodomizaram-no durante várias horas.
Dias depois, Pastor João foi transferido para o manicômio judiciário, onde passa os dias olhando para as lâmpadas do teto, babando e balbuciando:
- Deus é verde, o Diabo é vermelho, Deus é o Diabo verde, Deus é o Diabo. Vinde a mim e meterei meu ferro em brasa no vosso cu. Deus é o Diabo...
Após a internação de Pastor João, os demais ministros do Evangelho, dantes rechaçados, voltaram normalmente às suas agradáveis e rentáveis atividades na cadeia.

Carlos Cruz - 27/08/2007

domingo, 17 de agosto de 2008

Ensaio Sobre a Mina




Belos e distorcidos acordes, extraídos com esmero e paixão da negra Fender Stratocaster, rompem o silêncio daquela ensolarada manhã em Kandahar. A cozinha entra em cena. O baixista golpeia as cordas de seu instrumento, o som grave e sujo une-se ao da guitarra em peculiar e perfeita harmonia. Chega o "gran momento". O baterista ergue as baquetas, fita os amigos, sorri e desce os braços com toda a força.

Inferno. Ala da facção muçulmana. O barulhento death metal reverbera nas paredes da enorme gruta, abafando a cantilena, as lamentações e os gemidos.
- Não falei que a "Demônios de Allah" um dia ia estourar?
- Yeah! Inshallah!

Carlos Cruz - 17/08/2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Submergente



Estudante, operário, comerciante, marchant, empresário. Após a falência, estelionatário, escroque, rufião, traficante, ladrão.
Entrou no casarão. Como uma mansão daquelas não tinha alarme, vigia, sistema de câmeras, nem ao menos um cachorro? Portas, cadeados, grades reforçadas eram moleza. Passou os olhos pela grande sala. A dona da casa, indubitavelmente, tinha bom gosto, uma bela coleção de obras de arte. Mas não estava ali para furtar, não hoje. Andou pela sala, vasculhando-a de uma ponta a outra. Finalmente encontrou, num canto escuro sobre uma mesinha de madeira no estilo art nouveau, o objeto desejado: o vaso de porcelana feito no século 14, no período Hongwu da dinastia Ming. Segurou com todo cuidado, retirou da mesa com mais cuidado, depositou-o no chão com mais cuidado ainda. Desafivelou o cinto, arriou a calça, vergou o corpo, cautelosamente, até suas nádegas tocarem a borda do raro e caro artefato. Necessário não foi forçar muito para fazer aquilo que, forçosamente, tinha de fazer, dada a eficiência bombástica da buchada de bode consumida no almoço. A merda esguichou, veemente e impetuosa, no interior do vaso. Pronto. Estava feito. Se a cigana estava certa, sua vida começaria a mudar ainda naquela noite. Dirigiu-se ao banheiro, onde limpou-se com fino e macio papel higiênico de tripla camada. Saiu da casa, satisfeito, preparado para sua nova vida de braço dado com a fortuna, novamente. De novo a luz dos holofotes, de novo seu nome aclamado pelo high society, de novo seu rosto estampado nas colunas sociais dos grandes jornais. Ao cruzar o portão, uma forte luz no rosto fê-lo emergir de seus devaneios.
- Polícia! Você está preso, Gastão Hepaminondas!
Na manhã do dia seguinte, pediu emprestado o jornal do carcereiro, sua foto estampada na primeira página. "É." - pensou - "mesmo sendo uma gradessíssima filha da puta, a cigana estava certa."

Carlos Cruz - 01/08/2008

O Último dos Moicanos



Assistiu, com tremendo desprazer, seus semelhantes rasparem os cabelos e tatuarem suásticas nos braços, nas costas, nos tórax, nas nádegas e nas testas.
Agora, sozinho na metrópole, diferente, perseguido e acuado, vê-se em um beco sem saída, à mercê da salivante gangue de emos que aproxima-se ameaçadoramente. Sem vislumbrar melhor desfecho para o crucial impasse existencial, decide praticar o "do it yourself", antigo lema do outrora glorioso movimento punk. Espada em riste, impiedosa e impetuosamente, ataca. Sodomiza um, dois, três, quatro. O suor escorre copioso testa abaixo, provocando ardência nos olhos; a camisa, com a gravura de Sid Vicious, empapa. Exausto, espada vacilante, percebe a iminência do amargo fim. Os emos são muitos, jovens como o movimento do qual são sectários, vorazes, insaciáveis, multiplicam-se como baratas. Quando tudo parece perdido, eis que surge a salvação, ela é careca, musculosa, tatuada e bastante numerosa. Por deliberação unânime em assembléia, os carecas decidiram acrescentar à sua negra lista, na qual já constavam negros, judeus, orientais e nordestinos, os integrantes do movimento Emo. Caíram sobre eles aos socos ingleses, tapas e pontapés. Ao final do rápido e fulminante ataque, a praça era um mar de corpos maquiados, franjas, cabelos coloridos e roupas pretas espalhafatosas. O combate terminara com baixas maciças em apenas um dos polos.
Minutos depois, vieram os judeus ortodoxos que dizimiram os skins. Depois, apareceram os palestinos que destroçaram os semitas. O moicano virou crente de terno, gravata, Bíblia e cabelo moicano, que virou moda.
Alheio a tudo, o mundo prosseguiu seus movimentos ao redor do sol e de si mesmo, azul, redondo e careca como uma bola de bilhar.

Carlos Cruz - 04/08/2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Patinho Feio



Resignado, tolerou, durante anos, as chacotas dos irmãos, a rejeição dos pais, os olhares de viés, comentários abafados com a mão na boca e risinhos de escárnio dos vizinhos. Preterido do pueril convívio social, escorraçado pelos de sua idade, descobrira, desde muito cedo, o fascinante mundo dos livros e da música erudita. Devorava livros e músicas, seu apetite cultural era diretamente proporcional à sua infelicidade.
Certo dia, caiu-lhe nas mãos um sebento volume de um tal Hans Christian Andersen. Não gostava de contos infantis, mas mesmo assim leu. Leu e sorriu. Pela primeira vez em sua vida, gargalhou alto, leve e solto. Lá estava sua história e seu futuro, traçados pela pena mágica do mágico escritor. Isso explicava sua predileção pelO Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Eufórico, saiu para passear e admirar a natureza. Tudo parecia haver adquirido uma coloração especial, matizes especiais, sons especiais. O mundo estava mais bonito. Cumprimentou todos por quem passou. Atônitos, fitavam-no e comentavam, entredentes: "Terá bebido? Estará louco? Cheirou loló?". "La vita è bella." - pensava Agnelo, imerso até os pêlos em seu êxtase particular.
Entretanto, como outrora dissera um gaiato qualquer, "tudo que é bom dura pouco." Treze minutos e vinte e três segundos. Essa a exata duração do interregno feliz de Agnelo. Vinha chegando a segunda descoberta do dia. Era branca, com pêlos só no alto do cocuruto, bípede, de bermuda azul, tênis Ortopé, camisa de malha branca com estampa do Pica-pau, maior que Agnelo porém menor que o outro da mesma espécie de quem segurava uma das mãos e para quem gritou:
- Olha, pai! Um ornitorrinco!
- Jesus! Que bicho feio! Não chegue perto, filho. Ele pode morder!

Carlos Cruz - 01/08/2008

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A Cruz e a Vaca




Desgarrada do redil hindu, a vaca prosterna-se e persigna-se ante a cruz de caravaca. Entrementes, iracundos brâmanes riscam facas, salivam e gritam a plenos pulmões: "Morte à traidora!"
Horas depois, todos satisfeitos. Roda de mantra, Brahma gelada, churrasco. Os fumos aplacam a fúria de Brahma, o deus. A vaca cumpriu seu destino inexorável juntando-se às semelhantes no grande rebanho das condenadas. Virou mártir. Virou santa. Virou janta.

Carlos Cruz - 22/07/2008

sábado, 19 de julho de 2008

A Panela



À primeira vista, era uma panela como outra qualquer. De pressão. Uma panela de pressão como outra qualquer. Tinha forma circular, tinha cabo, tampa e aquela coisa vermelha com furos que roda e expele vapor. Quem passasse casualmente por ela, quem a visse ainda que de relance, quem a observasse detidamente ou não, quem a analisasse profundamente ou superficialmente, diria, sem titubear: é uma legítima panela de pressão. Mas não. Não, não e não. De novo não. Havia um diferencial, algo que não se podia observar de fora e fazia única aquela panela: ela falava. Sim, é isso mesmo, a panela era uma panela falante, mas não uma panela falante qualquer. Não! Era uma panela falante de muitas vozes, meio poeta, meio contista, meio cronista, lá uma vez ou outra até mesmo meio romancista. Uma panela de pressão falante intelectual metida à besta? Talvez. O fato é que a panela não parava de falar, recitava poemas, contava histórias, fazia crônicas e... xingava! Pestanejava, proferia impropérios, reclamava, insurgia-se, revoltava-se, reivindicava direitos... É. Era uma panela de pressão falante poeta contista cronista romancista intelectual metida à besta crítica e temperamental.
A panela foi levada para o INMETRO e submetida a uma série de testes com vistas a descobrir a origem das vozes. O problema maior era a tampa. Ninguém conseguia retirá-la. Tentou-se de um tudo: força física, calor, frio, choque térmico, um instrumento parecido com um desentupidor de pia, ímãs. Tudo em vão, a tampa não se mexia. Thomas Green Morton, Uri Geller, Padre Quevedo, James Randi, Mister M, dentre outros paranormais e mágicos foram chamados às pressas e também tentaram, sem sucesso, remover a famigerada tampa. Apelaram para a espiritualidade. Pais-de-santo, padres, pastores, xamãs, caciques, monges, esotéricos e místicos de toda sorte fizeram seus cultos, rituais e mandingas. Nada. A panela, pelo visto, era não-sectária e atéia. O mais constrangedor era ouvir as troças malcriadas da dita cuja a cada novo fracasso. Além de tudo, ainda era uma pândega. Por fim, a panela foi levada, sob veementes protestos de baixo calão, para a NASA, onde foi submetida a novos testes e novas tentativas de remoção da tampa. Os dias foram passando, os testes fracassando e os xingamentos se acentuando. "Porcos imperialistas! Abaixo o imperialismo ianque! Abaixo a ditadura estaduniense! Deixem o povo iraquiano viver em paz! George Bush é a reencarnação de Adolf Hitler!" Além de tudo, a panela também tinha inclinações esquerdistas.
Quando os sucessivos insucessos somados às imprecações da panela já começavam a desanimar a equipe de especialistas, eis que aconteceu o fato que deslindou o mistério: um físico, exausto, a fim de abstrair do estressante trabalho e relaxar um pouco, iniciou a leitura, em voz alta, de uma tradução inglesa de um dos livros do escritor Saulo Joelho. Súbito, a panela interrompeu o palavrório e começou a expelir um vapor vermelho. À medida que o físico lia, mais vapor a panela expelia. Dentro em pouco, a panela passou a expandir-se e encolher-se, intermitentemente. Parecia uma maria-fumaça de desenho animado ou a respiração de uma pessoa colérica. O físico, estimulado pelos colegas, prosseguiu a leitura. O bufar da panela foi aumentando, aumentando, aumentando até que... explodiu! A tampa cravou-se no teto e da panela saíram centenas de homenzinhos e mulherezinhas que olharam para os atônitos especialistas e, em uníssono, disseram: "Porra, Saulo Joelho em inglês é demais! Não há panela de escritores que agüente!"

Carlos Cruz - 19/07/2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Arte é o caralho!




"Arte é o caralho!" - esbravejava, do alto da escada, o artista plástico gay ateu praticante, enquanto dava os últimos retoques na grande glande de sua última criação escultural, intitulada carinhosamente de "O Falo de Deus".

Carlos Cruz - 16/07/2008

El Sufridor



Miguel Pereira, 27 de junio de 2008

Queridos papá, mamá, hermanitos y hermanitas:

¿Qué tal? ¿Cómo están todos por ahí? Espero que estén todos bien y con salud.
Yo estoy bien, aunque un tanto aburrido de mi rutina que es muy desgastante. Después de leer mi carta, digame si no tengo motivos para desear volver a nuestra alegre y confortable casita. Echo de menos de mi vida con vosotros. Bien, lo que no tiene remedio, hay que remediarse.
Todos los días, a las 5 h en punto, el timbre del despertador suena en mi oído, haciéndome saltar de la cama. El sonido del despertador es tan estridente que, por veces, literalmente me caigo de la cama.
Siempre tengo mucha hambre por la mañana, sin embargo, no tengo tiempo para desayunar, por eso tomo un café, como una galleta y... a la calle. Empezó mi día.
Primero, a las cinco y media, entro en el autobús que generalmente está abarrotado de personas y animales, muchos y variados animales: pajaritos, gallinas, patos, perros, gatos, una vez o otra, hasta cerdos asoman. El hedor es casi insoportable, pero tengo de resignarme, pues el viaje es largo. El trabajo está muy lejos de mi apartamento, empiezo mi jornada laboral a las ocho en punto, trabajo hasta las 12 h. Después tengo un intervalo de una hora para almorzar. A la 1 h, estoy de vuelta al trabajo, donde me quedo hasta las 18 h. Tengo poco tiempo para bañarme y arregarme, a las 19 h tengo de estar en la escuela, de donde salgo a las 23 h, cuando vuelvo a mi apartamento. Nunca me acuesto antes de la 1 h de la mañana.
Muchos compañeros de trabajo estudian en la misma escuela, algunos en la misma clase que yo. Son todos muy animados y soñadores, quieren mucho vencer en la vida y abandonar el trabajo en la manufactura, así como yo.
Mis queridos, no pretendo dejarlos preocupados, el fin del curso y mis merecidísimas vacaciones están cerca. Soportaré la tormenta hasta allá. Mientras no llegan, recen por mi.
Muchos besos a todos.

Os quiero mucho.
Besos.
Carlos Cruz

terça-feira, 15 de julho de 2008

O Sacolão



Malgrado sua aversão por funk, vez ou outra, ao passar por certas vitrines reluzentes, Estanislau não resistia a lançar gulosas porém furtivas olhadelas para aquelas suculentas moças com nomes frutíferos e carnes abundantes rebolando animada e alegremente na tela da grande televisão de plasma.

Lambeu os lábios, esfregou as mãos e sorriu esperto quando leu o cartaz afixado à porta do puteiro: "Só hoje. Sensacional promoção no Tia Raimunda's Sacolão: leve a Mulher-berinjela, toda ela, pelo preço de uma banana nanica."

Era uma puta negra puta. "Que substância!" - pensou. Tamanho tesão fê-lo esquecer a precaução: deixou-se algemar na cabeceira da cama. Quando percebeu a origem do cognome da prostituta, era tarde. A negra era, na verdade, um negão dotado de uma assustadora e gigantesca estrovenga. Os gritos de Estanislau foram abafados pelos do MC Não-sei-das-quantas que esgoleava no pequeno mas potente aparelho portátil estrategicamente colocado ao lado do leito: "crééééééééu!"

Carlos Cruz - 15/07/2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vaga Bunda




Ainda que não abundasse na movimentada calçada flutuante, esforçava-se por rebolar-se. Ainda que não sobressaísse no colorido mar abundante, esforçava-se por irromper-se. Ainda que não inflasse no arregalado olhar esfuziante, esforçava-se por estourar-se. Ainda que não acendesse no estrelado céu resplendente, esforçava-se por ascender-se. Ainda que não regurgitasse no inteiriçado pênis pujante, esforçava-se por engolir-se. Extremar-se. Implodir-se. Inexistir-se.

Carlos Cruz - 09/07/2008

* Ilustração: "The Bath" de Fernando Botero.

domingo, 6 de julho de 2008

Penosa Paixão



Era uma vez Jorge Ferrão, um indivíduo da espécie dita humana, do tipo tremendamente malvisto por ser afeito àquilo que virou moda execrar à boca grande: macheza. Sim, um espécime macho da espécie que não mais admitia o uso público e notório de tal designativo, relegado às distantes e jecevaladanianas décadas de setenta e oitenta. O mundo, virado do avesso como estava, à vista de tão hedionda aberração, não tardou a virar-lhe a cara, as costas e, por vezes, a lançar torpedos escarratórios ao chão à sua passagem. Não que o mundo dotado fosse de cara, costas e sistema produtor de catarro, já que aqui me refiro a seus ilustres, preeminentes, ínclitos, conspícuos e - por que não dizer? - nobilíssimos habitantes, defensores ferrenhos dos valores basilares da moral, dos bons costumes e, em especial, do que se convencionou chamar de "o politicamente correto" ou "A Nova Ordem". O fato é que Jorge Ferrão, ou apenas Ferrão ou Ferrabrás, como era mais conhecido, era macho até a raiz dos cabelos, macho à moda antiga, como gostava de alardear quando degustava seus pés de galinha regados a cachaça no Bar do Tião, cabeça-de-bode cuja freguesia era composta basicamente pelos integrantes da classe "ralé", também denominados párias, indivíduos considerados "lixo irreciclável" pela classe dominante: a "magna" ou os neoaristocratas. Jorge não estava nem aí nem aqui nem acolá: coçava o saco, visivelmente e despudoradamente, a cada dois minutos. Via uma mulher atraente, mandava logo um "gostosa!". Brigava por qualquer motivo com qualquer um. Ria-se e pilheriava, troçando dos que repreendiam seu comportamento com palavras ou olhares reprovadores. Referia-se a eles como os "BBB" - bando de babacas boçais. Jorge "Ferrabrás" Ferrão era o último dos machões do século XXI.
Mas o que poucos sabiam é que Ferrão, lá no fundo, nos recônditos penumbrosos e secretíssimos de sua alma-espírito, escondia algo que poria todo seu auto-cultivado, auto-cultuado e auto-estimado prestígio a perder: apreciava Bossa Nova. É isso aí: Jorge, o Ferrabrás, era fã de Vinícius, Jobim, João Gilberto e Cia. Mandara forrar as paredes de seu quarto com uma grossa camada de cortiça para não correr o risco de ser flagrado por algum vizinho mexeriqueiro enquanto imerso estivesse em seu musical e muito particular êxtase. Jorge era um paradoxo ambulante. Jorge, indubitavelmente, e a despeito das opiniões contrárias, era humano, bastante humano.
Certo dia, Jorge caminhava a passos largos com destino ao retromalfalado botequim, quando deparou-se, numa curva da estrada, com aquela que seria a razão de sua perdição: a galinha. Sua visão turvou-se, sua face enrubesceu-se, seu corpo acalorou-se, seu coração palpitou-se: o que fora não mais era, era a mais nova vítima da frechada do Cupido. Lá estava ela, linda, deslumbrante, com seu ar altivo, sua crista carnuda encarnada, suas belas penas negras-brilhantes, seu pequeno bico amarelo. Jorge estava apaixonado. Apressuradamente, tratou de arrebatar e levar para sua casa a nova e penosa dona de seu coração. Deu-lhe o milho mais caro que achou no mercado, a melhor água mineral, trocou os travesseiros de penas por outros, sintéticos. Chamou-a Efigênia – gostava desse nome e, ao que parece, ela também gostou pois cacarejou e olhou para Jorge. Tratou-a como uma deusa, uma rainha, mas não fizeram sexo. Tinha receio de estuporá-la considerando as desiguais dimensões de seus órgãos genitais. Jorge, enfim, era um homem plenamente feliz, feliz e transformado: não mais coçava o saco, não mais cantava as mulheres na rua, não mais freqüentava o Bar do Tião. Vivia para Efigênia, para agradar Efigênia, para amar Efigênia.
Entretanto (sempre tem que ter um entretanto, contudo, mas, todavia ou porém), alheia a todos os mimos e agrados do (pensava ele) amado, certo dia anuvioso-chuviscoso, Efigênia bateu asas e voou não se sabe para onde nem por quê. Perplexo, Ferrão a procurou em todos os cômodos, em todos os cantos e recantos internos e externos da casa. Nada de Efigênia. Ela partira, fugira, escafedera-se. “Aquela ingrata. Depois de tudo que fiz por ela, depois de tudo que vivemos juntos...” Ferrabrás pensou em traição, seqüestro, estupro, assassinato, abdução, migração e, por fim, conformou-se com a hipótese do nada simples, nada puro e todo doloroso abandono. Já a refletir viagens de vira-e-revira-mundo e idéias suicidas, eis que ouve um ruflar de asas advindo da janela da sala. Volveu os olhos na direção do ruído e foi tomado novamente pelo êxtase, desta feita, mais intenso: lá estava sua amada, adorada e idolatrada Efigênia, em carne, ossos, bico e penas. Correu a abraça-la, quase esquecendo-se da fragilidade do corpo da galinácea. “Meu amor, você voltou! Onde você estava, por onde andou, digo, voou?” – dava beijos e mais beijos. A galinha retrucou com regulares e breves cacarejares. Jorge não pensou, agiu: trancou todas as janelas e portas, depositou suavemente Efigênia na cama, acendeu o fogão e colocou o caldeirão com água para ferver. Quando a água borbulhou e começou a evaporar, com lágrimas nos olhos, pegou delicadamente Efigênia, olhou fixamente para seus olhos ariscos e disse: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim.” Afundou-a no caldeirão e tampou, segurando com toda a força, as lágrimas a gotejar e vaporizar tamborilando sobre a tampa. A agitação no interior da grande panela foi breve. Foi o melhor jantar da vida de Jorge Ferrão, jantar à luz de velas. Doravante, ele e sua amada Efigênia jamais se separariam novamente, estavam juntos, fundidos, seriam um só, eternamente.

Carlos Cruz - 23/05/2008

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Joãozinho Nerd Faz Poesia



Joãozinho inscreveu-se no concurso de poesias da universidade. Mostraria a todos que em sua gigantesca cabeça, além da Álgebra, da Trigonometria, da Biologia, da Química e da Física Quântica, havia espaço para a Lírica. Escreveria sobre o amor, algo assim bastante singelo. Horas depois, meio zonzo e muito exausto, concluiu a árdua tarefa. Sorriso nos lábios, satisfeitíssimo com o resultado, sentindo-se o poeta, leu seu texto em voz alta:

Poesia do Amor, da Paixão e do Coração

Com A escrevo Amor,
Com P escrevo Paixão,
Com C, C, V, V, A, A, V, A, V, A, V, M, C, V, V, V escrevo Coronária Direita, Coronária Descendente Anterior Esquerda, Coronária Circunflexa Esquerda, Veia Cava Superior, Veia Cava Inferior, Aorta, Artéria Pulmonar, Veias Pulmonares, Átrio Direito, Ventrículo Direito, Átrio Esquerdo, Ventrículo Esquerdo, Músculos Papilares, Cordoalhas Tendíneas, Válvula Tricúspide, Válvula Mitral e Válvula Pulmonar,
Que moram no meu coração.

Carlos Cruz - 12/06/2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Alcova Sagrada



Os dias eram todos iguais. Sempre iguais. Iguais do início ao fim. Um após o outro. O mesmo. Sempre. Um dia, outro dia, mais um dia. Acordar, comer, cagar, ver Super Xuxa Contra o Baixo Astral, convulsionar-se, levar choque, escutar funk, tomar injeção, dormir. Depois acordar, comer, cagar, assistir Super Xuxa Contra o Baixo Astral, convulsionar-se, levar choque, ouvir funk, tomar injeção, dormir. Estavam a ponto de explodir. Não agüentavam mais a pressão. O sistema. A pressão do sistema opressor, o manicômio opressor. Os criadores do sistema eram loucos, todos loucos. Bando de sádicos lunáticos. Hospitalários hospitalares nada hospitaleiros. Açougueiros cerebrais devotos da Santa Lobotomia, era isso que eles eram. Mas, ao contrário do que "eles" pensavam, "eles" não eram mais fortes que eles. Iriam escapar. Precisavam escapar. Afinal, não eram malucos, aquele não era seu lugar. Eram Rubicundo & Nauseabundo, a dinâmica dupla, os eleitos, os contrafeitos, os rarefeitos, os arautos perfeitos da perfeita deidade, o supremo deus do bem, do mal, do aquém, do além, do sol e do sal. O sempiterno sem terno. O imorredouro não-nato.
Raramente se viam, mais raramente ainda se falavam. Tão perto e tão longe. Separados por paredes. Grossas paredes. Espessas. Toneladas e mais toneladas de argamassa dura sem som. Isolamento. Isolamento acústico. Silêncio rompido só por seus gritos. Gritos de angústia. Opressão. Dura opressão. Implacável opressão. Não era nada fácil a vida na casa dos loucos, na prisão dos loucos. Mas Rubi & Naus tinham planos. Pacientemente aguardavam, chegaria o momento de pô-los em prática.
Certo dia, durante mais uma sessão de tratamento eletroconvulsivo, o enfermeiro, que flagrara sua mulher divertindo-se com alguns amigos no doce aconchego do lar, decidiu descarregar sua fúria sobre o pobre Nauseabundo. Girou o botão do aparelho até a máxima potência. Nauseabundo sentiu o cérebro fritar, o cheiro de merda causticada tomou conta da pequena sala. Pensamentos confusos alternavam-se em sua cabeça escaldada: explosões de crânios, duendes verdes, astronautas, papas, aranhas, bocetas, teoremas, morcegos, o velho da aveia, paquitas e monstros do pântano compostos de bosta. Antes da inconsciência, veio a grande viagem astral atemporal: seu espírito ou alma ou ectoplasma ou etérea anti-matéria desprendeu-se do corpo e, rapidamente, atravessou as paredes, feito o homem da quarta dimensão. Esquadrinhou o manicômio, sala a sala, até finalmente encontrar o que buscava: o bom, velho e rubro Rubicundo, que dormia a sono solto. Houve imediata empatia espiritual. Qual um magneto irresistível, a alma de Nauseabundo atraiu a de Rubicundo, que num rompante projetou-se, fundindo-se ambas em incorpórea forma alada.
- Mas que porra é essa? - indagou, sonolenta, a alma de Rubicundo.
- Sou eu, seu amigo Nauseabundo.
- Ah, tá. Mas por que não te vejo? E que calor desgraçado é esse que estou sentindo? Por que estou tão leve? E esse cheiro de merda frita? To be or not to be?
- Devagar, amigo velho. A paciência é uma grande virtude e um jogo enfadonho presente em quase todos os microcomputadores domésticos. Como diria o meticuloso, intrigante e performático Jack, The Ripper: vamos por partes. Vossa Excelência não me vê porque somos um só. O calor é a forma de inserir energia térmica entre dois corpos que se vale da diferença de temperaturas existente entre eles, conquanto o calor que não faz sua alma suar porque sabidamente as almas são desprovidas de glândulas sudoríparas deve-se à eletricidade que escaldou o receptáculo composto de carne, ossos, músculos, sangue, água e bosta de propriedade do amigo que agora prazerosamente vos fala, o que explica de forma cabal e insofismável sua outra pergunta relativa ao futum. Quanto à leveza, isso tem a ver com metafísica, matéria imaterial, energia vibratória espírito, essas coisas legais, interessantes e sem as quais não podemos viver. Por derradeiro, a pergunta proferida no idioma derivado dos três dialetos falados pelos anglos, saxões e jutos, peço ao conspícuo amigo que se reporte a Sir William Shakespeare quando encontrá-lo casualmente no além-túmulo, entre uma e outra hosana à deusa e cantora Rosana ou ao (todo ele) Todo-Poderoso.
- Ah, tá. Entendi tudo. E o que faremos agora?
- A viagem.
- Sério? A viagem?
- É. A viagem.
- Puta que pariu! Sempre quis fazer a viagem.
- Vamos, então?
- Putz. Já é.
Olhos cerrados, concentração, força, evacuação de fluidos cósmicos e a viagem de volta para o passado. Anos, dias, horas, minutos, segundos atravessados, comprimidos, fragmentados tão-somente em um átimo sublime. Eram novamente crianças. Naus tinha seis anos e se chamava Astolfo; Rubi completava sete anos naquele dia e seu nome era Rodolfo, a faixa tremulante na fachada da casa não deixava dúvidas quanto a isso: "FELIZ ANIVERSÁRIO, RODOLFO! PAPAI E MAMÃE TE AMAM!". Seus pais não queriam que brincassem juntos, a amizade cultivada em anos e anos de boa vizinhança não resistira a um empréstimo não honrado. Mas crianças são crianças e nada entendiam nem queriam entender, nada sabiam nem queriam saber. A surpresa deu lugar aos gritos que deu lugar aos solavancos que deram lugar à punição quando seus austeros genitores os surpreenderam fazendo meias com as agulhas da vovó. O menino Astolfo, imerso durante seis dias no tanque número um do depósito municipal de tratamento de esgoto, onde papai trabalhava. Vez ou outra, emergia a cabeça para respirar e lia o grande cartaz: "ESGOTO É VIDA". O garoto Rodolfo também teve um castigo exemplar: nu, maçã argentina na boca, corpo todo pintado de vermelho (o pai era torcedor fanático do América carioca e fissurado em tomates, morangos e Brasinha), ficou vários minutos assando no forno industrial (papai também era um gourmet, um chef de cuisine refinadíssimo e requisitadíssimo, mesmo colando meleca no "coq au vin", escarrando no "blanquette de veau" ou limpando os vasos sanitários com as "cuisses de grenouilles"). Astolfo e Rodolfo nunca mais seriam os mesmos, as experiências mortificantes foram extremamente edificantes. Eram novos homens, transformados, super-poderosos, super-homens. Não mais simples, comuns, meros seres viventes humanos machos. Não mais Astolfo e Rodolfo. Doravante, a humanidade caótica e decadente conhecê-los-ia por "Rubicundo & Nauseabundo", o vermelho e o fétido, o sangue e a merda, os portadores do archote encarnado e da latrina dourada.
Alguém premiu a tecla RW. Hora de voltar, a viagem chegara ao fim. Nauseabundo estava de volta à mesa de eletrochoque. Agora dotado de sobre-humana força, arrebentou as correias e as correntes, rachou o crânio do enfermeiro na parede que veio abaixo com dois socos. Resgatou Rubi, libertou os internos, fez arremesso à distância de funcionários e médicos, entregando alguns aos antigos colegas que fizeram divertidas experiências com bisturis, tesouras, craniótomo, drill pneumático, desfibriladores, eletrochoque e outros instrumentos e equipamentos interessantes.
- Tudo pela ciência! - exclamou Super-Nauseabundo.
- É isso. Os fins justificam os meios. O que representa o sacrifício de alguns poucos quando o que está em jogo é a salvação de milhões?
- Só. Disse tudo, Big Red. Sabe de uma coisa, queria fazer algo que não faço há muito tempo.
- O quê?
- Espremer os furúnculos da sua bunda.
- Oh, sí! Exprime los diviesos de mi culo, apestoso amigo.
- Volve.
Furúnculos espremidos, erupções de pus amarelo, desejo recíproco saciado, sorriso nos lábios, a dupla iniciou novas maquinações divagatório-filosóficas.
- Andei refletindo sobre a importância do nobre Marquês de Sade para a filosofia, a psicanálise, a política, a religião e as artes. - falou Nauseabundo.
- Sério? Mas ele não era maluco?
- Não. Malucos são os outros, aqueles que o detratam, vão à missa, engolem os pedaços de Cristo, arrotam a palavra dita de Deus, comem as próprias filhas, almoçam alegremente o frango de domingo com o dedo mingo enfiado no ânus e apregoam aos quatro ventos sua fé inabalável no Onisciente.
- Lembro de masturbar-me lendo os livros dele. Simpáticas as personagens Julieta e Justine, certamente elas foram para o Céu.
- Decerto. A libertinagem e a perversão são o caminho do Paraíso Divino.
- Que tal empreendermos a busca?
- Eia.
Sade's Club. Rubicundo é açoitado pela dominatrix gorda gargalhante, enquanto Nauseabundo leva um grande consolo na bunda e é lambido por coprófilos ensandecidos. A orgia é geral. Sexo, heterossexo, homossexo, zoossexo, látex, urina, esperma, excremento humano e animal, dor, sangue, alguém morre, necrossexo.
- Alvíssaras, Mr. Red! Estou prestes a ver a Luz. Acho que é essa coisa em meu reto, dói pacas!
- Sim, também vejo muitas estrelas. A Santa Vergasta da Santa Mulher Obesa Vestida de Negro mostrar-nos-á o caminho.
- Vejo aproximar-se o zênite.
- Dois.
Orgasmo simultâneo. Depois outro. E mais outro. Bacantes fanáticos, em devoto frenesi, rendem-lhe louvores. Da parede, o marquês pictórico, com seus gulosos olhos, a tudo aprova. Satisfeito, sorri.

Carlos Cruz - 09/06/2008

O Dia em que Monteiro Lobato Encontrou Clive Barker




E foi que aconteceu porque tinha que acontecer: Emília teve um caso tórrido com o Saci. Nove meses depois, nascia Curupinhead, a boneca vudu de uma perna só, touca vermelha, cachimbo, cabelos coloridos, cara cheia de alfinetes.

Carlos Cruz - 09/06/2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

A Hora da Caça



Estava encurralado. Correra desabaladamente, tentando escapar. Mas não fora tão rápido. Agora, ali estava, esbaforido, à mercê das criaturas. A primeira a atacar foi a onça pintada, com seus dentes e garras afiadas. Depois dela, vieram todos: o leão, o urso cinzento, o albatroz, a águia americana, o tigre dentes-de-sabre,a harpia, todos com aqueles olhos vidrados, opacos. Devoraram-no, destrincharam sua carne, alimentaram-se de seus órgãos, reduzindo-o a um amontoado de ossos e pele. Sim, deixaram a pele, quase intacta. Trouxeram a palha, com a qual preencheram o espaço dantes ocupado por seus órgãos, ossos e músculos. Agora era um boneco, com olhos vidrados e lustrosos. Penduraram-no na parede e foram embora.
Despertou, num sobressalto, banhado em suor. Recolheu as garrafas de absinto e os instrumentos, jogando-os na lata de lixo.
- Pra mim, chega! Vou ser motorista de táxi. - disse, em voz alta, o velho taxidermista.

Carlos Cruz - 21/06/2007

sábado, 24 de maio de 2008

Mastiga Sons



Cidade alta. Corada, a bochechuda criança rica mastiga o biscoito fino comprado na delicatessen.
Crec! Crec! Crec!
Cidade baixa. Raquítica, a cabeçuda criança pobre mastiga o biscoito podre garimpado no lixão.
...! ...! ...!
Periferia. Espasmódico, o pálido junkie rico mastiga o entorpecente amargo sob os golpes implacáveis do negro cassetete.
Crac! Crac! Crac!
Zona rural. Cadavérico, o pelado cachorro pobre mastiga o osso duro surrupiado do matadouro.
Croc! Croc! Croc!

Carlos Cruz - 25/01/2008

Achados & Perdidos



Perdeu a esposa para o melhor amigo. Perdeu o emprego. Perdeu o carro para o ladrão, a casa para a financeira. Infeliz, passou a andar encurvado, cabisbaixo, olhos no chão. Certo dia, achou um maço de cédulas de cem reais na calçada. Gritou, pulou de alegria. Sua sorte, enfim, mudaria... Preso em flagrante por uso de moeda falsa, perdeu a liberdade. No xadrez, achou uma corda. Fitou a grade na janela da cela. "Dessa vez" - pensou - "eu decido o que vou perder."

Carlos Cruz - 21/04/2008

Fodix / Precocix (poetrix / duplix)



O penix entra na bocetrix / copulix
O homix dá duas bombadix / ejaculix
Paga cem para a meretrix / prejuix

Carlos Cruz - 25/07/2007

segunda-feira, 12 de maio de 2008

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Agente Laranja




Disfarçado de gari da Conlurb encontrou, na lata de lixo do descuidado deputado, as provas das fraudes nas licitações. Lixo recolhido, parlamentar indiciado, faxina concluída, partiu para a casa do vereador - mais um - suspeito de desvio de verbas públicas. Por vezes, sobrevinha-lhe o desânimo. Por mais que limpasse, parecia que a sujeira só fazia aumentar.

Carlos Cruz - 12/04/2008

O Fim da Picada



Junkie irrecuperável, provou toda sorte de drogas. Cheirou, fumou, ingeriu, injetou, introduziu no ânus. Certo dia, ouviu alguém dizer que cheirar cu de cobra dava onda. Não deu onda, deu azar. Escolheu justo uma coral verdadeira dotada de enormes peçonhas. Picada. Dor. Convulsões. Parada Cardíaca. Morte. Fim.

Carlos Cruz - 12/04/2008

A Origem da Sabedoria



Experimentarei o caos telúrico
sepultado nas entranhas da terra
uterina
de odores, livores e calores
carnívoros
ígneos
rubro-brilhantes
lumino-trevosos
fluidos vaginais
causticantemente interessantes
cuspe da vulva falante
profética
homérica
espaçosamente hermética
vaticina o fim
da existência
do homo sapiens
sapientíssimo
mediano
puritano
e burro
como a porta
do mercado
das pulgas humanas
racionais
empíricas
behavioristas
jactanciosas
pedantes e esquisitas

O mundo é lindo
A vida é bela
O amor é bom
O homem é feliz

Sorria.

Carlos Cruz - 09/04/2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O Massacre do Ferro Elétrico ou A Fábula da Consolação




Cena I: O Grito
"AAAAAAAaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Desgraçada!!!! Filha da puuuuutaaaaa!!!"

Cena II: Os Cadáveres
Elas não tiveram a menor chance, nenhuma escapou. Todas queimadas, todas perdidas, todas irrecuperáveis. Todas. Algumas tinham manchas; outras, buracos. Sempre o mesmo desenho, nas costas ou na frente, nas costas e na frente. Retorcidas de um jeito macabro, pareciam rostos em agonia. Rodolfo não queria acreditar no que seus olhos viam. Gritava, xingava, chorava. Suas adoradas camisas de seda haviam virado trapos.

Cena III: A Motivação
O amontoado de camisas ocultava o elemento fundamental ao entendimento da atitude tresloucada da criminosa: a bela e vermelha mancha de batom em forma de boca no colarinho da camisa branca.

Cena IV: O Desequilíbrio
"Isso não é justo. Deixo-a à vontade para sair com quem quiser, dar para quem quiser. E eu? Não posso sequer dar uns amassos na secretária? Sacanagem isso. Sacanagem da grossa."

Cena V: O Desejo
Vingança. Retaliação. "Vendetta". Tais palavras alternavam-se no cérebro de Rodolfo. Tinha de dar o troco à altura, degustar o tal prato frio. Destruir aquilo que ela mais prezava. Mas o quê? Refletiu, pensou, pensou, refletiu... Súbito, os olhos brilharam, a boca esboçou um sorriso malévolo. "Já sei." - falou, entredentes, antes de dirigir-se ao quarto de ferramentas.

Cena VI: O Morticínio
Eles bem que tentaram escapar. Pularam para cá, pularam para lá. Um grandão quis esconder-se no ânus de Beethoven, que ganiu, mordeu e destroçou com os dentes. Talvez alguns até conseguissem fugir se acaso não fossem desprovidos de pernas. Ademais, Rodolfo estava furioso, os olhos injetados, a cara vermelha, não teria compaixão. E não teve. Martelo em punho, perseguiu e capturou um a um, depositando-os na gaiola do canário belga, o qual, espertamente, preferiu não ficar para ver o desfecho: aproveitando-se da confusão, tratou de bater as asas e voar para bem longe. Após encarcerar o último fugitivo, teve início a sessão de tortura e morte. Rodolfo prendeu o primeiro na morsa, ergueu o martelo e... cravou-lhe o prego no alto da cabeça, de onde escorreu um filete de látex branco, formando uma pequena poça leitosa numa das mandíbulas da morsa. Depois veio outro prego. E mais outro. Da gaiola, os outros apenas observavam, apavorados, o companheiro transformar-se em um autêntico Pinhead, aquele sinistro personagem do filme Hellraiser. Alguns choravam, outros gritavam, outros mais rezavam, à espera de um milagre que não aconteceu. Tiveram todos o mesmo destino do primeiro.

Cena VII: O Conflito
- AAAAAAAaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Desgraçado!!!! Filho da puuuuutaaaaa!!! - gritou Sabrina ao deparar-se, estupefacta, com a pilha macabra cuidadosamente montada ao lado da grande cama de mogno.
- Olho por olho, dente por dente, querida. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Destruiu minhas camisas de seda importadas, acabei com sua coleção de consolos.
- Seu corno! Traidor! Você mereceu!
- Mereci o cacete! Só porque dei uns pegas na secretária? Porra, você já deu pra um monte de caras!
- Mas o que foi que combinamos? Eu podia transar com quem eu quisesse, você não!
- Tá. Mas não precisava estragar minhas camisas. Você sabia o quanto eu gostava delas.
- E você sabia que eu sou ciumenta... Porra... Precisava sacrificar até os vibradores?...

Cena VIII: A Reconciliação
- Amor... Você me perdoa? - indaga Rodolfo, olhos mareados.
- Claro... E você, também me perdoa? - soluça Sabrina.
- Claro que sim. Eu te amo.
- Também te amo.
Lágrimas. Abraços. Beijos. Sexo.

Cena IX: A Felicidade
Manhã do dia seguinte. Shopping e Sex Shopping. Rodolfo comprou logo duas dúzias de novas e reluzentes camisas de seda, importadas e de diversas cores, enquanto Sabrina, radiante, pagava com cartão suas novas aquisições: trinta consolos de cores e tamanhos diferentes, duros, vibrantes e até mesmo alguns falantes. A vida do casal normal voltou ao normal no mundo normal das pessoas normais.

Carlos Cruz - 12/04/2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Processo ou A Multiplicação das Mães



Reinaldo não sabia lidar com perdas. Quase enlouqueceu de vez no dia em que sua mãe se foi. O apagão provocado pela manutenção deficiente nas linhas de distribuição de energia elétrica fez o aparelho que a mantinha viva parar de funcionar. Ao fim do processo, recebeu um milhão de reais de indenização. Pôs um anúncio nos classificados de um jornal de grande circulação: "Contrata-se mulher branca, baixa, gorda, com idade entre cinqüenta e cinco e sessenta anos, que use óculos e saiba preparar bolinhos de chuva, para exercer a função de mãe. Paga-se bem." A fila de idosas que se formou em frente à sua casa, no dia seguinte, de tão longa, dava duas voltas no quarteirão. Contratou logo cinco mães. Alguns meses depois, uma delas veio a falecer. Contratou outras cinco para ocuparem seu lugar. Após dois anos, já contava com dezessete mães, todas muito parecidas, carinhosas, sorridentes e bem remuneradas.
Os anos se passaram, anos de felicidade e muito amor maternal. Numa chuvosa manhã, lá pelas dez horas, uma das velhinhas achou estranho o fato de Reinaldo, que acordava cedo, ainda não ter saído do quarto. Interrompeu o preparo dos bolinhos de chuva e foi despertá-lo. Ele não acordou, malgrado os sacolejos frenéticos da anciã. Estava morto. Estampada no rosto, uma expressão de serena felicidade. Morrera sorrindo, feliz, rodeado por suas adoráveis mães. O funeral entrou para a história da pequena e bucólica cidade, dada a quantidade e homogeneidade das integrantes do séquito que acompanhava o caixão: exatas cento e oitenta e uma senhoras, todas idosas, brancas, de baixa estatura, gordas e usando óculos. Quando o esquife desceu, em vez de cal, lançaram bolinhos de chuva na cova, o cheiro agradável espalhando-se pelo cemitério. Parte dos cidadãos que acompanhavam a cerimônia fúnebre, ao final, seguiram para suas casas, beijaram e abraçaram suas genetrizes. Aqueles cujas mães haviam partido para o Além ou para outras partes do Globo, apenas choraram. Choveu durante todo aquele dia e nas duas semanas que se seguiram. Ninguém soube explicar mas, após o óbito de Reinaldo, o ar da cidade impregnou-se do odor inconfundível de bolinho de chuva, trazendo à memória dos visitantes que por ela passavam, vivências da infância, reminiscências do passado, imagens saborosamente nostálgicas de suas avós e de suas mães, preparando os tais bolinhos, em dias chuvosos.

Carlos Cruz - 11/07/2007

sábado, 29 de março de 2008

O Pe(i)dante



Julgava-se a magna quintessência da virtuosa perfeição. O supra-sumo. O eleito. O belo-mor, o inteligente-mor, o irresistível-mor. Refletiu, maquinou, calculou, pensou. Tanto fez que conseguiu: engendrou a fórmula do perfume borbulhante. O incômodo e destoante fedor estava com os dias contados. Finalmente, peidaria cheiroso. Ávido, bebeu dois litros quase de um só gole. A forte pontada no peito arremessou-o de encontro ao chão. O longo e musical flato veio pouco antes do último batimento. Apavorado, constatou que, de todos os anteriores, foi aquele o traque mais fedorento.

Carlos Cruz - 29/03/2008

Um Copo Que Cai



Arduamente, o dia inteiro, labutara sob aquele implacável sol escaldante. Ao cair da noite, voz roufenha, quase afônico, finalmente, uma alma generosa demonstrou compaixão. A reluzente moeda girou no espaço, tilintou na calçada pedregosa, rodou, rodou, acomodando-se, por fim, próximo ao pé direito de Salomão. "Cara. Pé direito. Bons sinais.", pensou.
- Deus lhe pague. - agradeceu ao transeunte caridoso que já ia longe, imerso em seus próprios problemas.
Salomão correu para o Bar do Juvenal, cabeça-de-porco célebre entre a mendicância. Foi direto ao balcão, seus olhos luziam aquele brilho cinza-opaco.
- Aí, Juvenal! Manda uma dose da especial, aquela de rolha.
- É um real.
- Taí. - falou, depositando a moeda sobre a mesa, o cinza-opaco dos olhos acentuando-se ainda mais.
O dono da birosca recolheu a moeda, retirou com cuidado a bonita garrafa de cima da prateleira, pôs o pequeno copo sobre o balcão, serviu a dose do altamente alcoólico líquido amarelo. Salomão salivava, saboreando o momento. Corpo, alma e espírito imersos na agradável liturgia, o ritual tantas vezes repetido, os movimentos de Juvenal, São Juvenal. Rezou em silêncio: "Pai da Desgraça, Santíssimo Deus Que Habita a Garrafa de Cachaça, dai-me a fuga, ministrai-me o santo elixir do esquecimento, enchei-me do suave e benfazejo torpor. Fazei-me nada, porque nada sou."
Circunspecto, levou as mãos ao copo. Antes de alcançá-lo, eis que surge um braço longo e nefasto, um cotovelo profano. Atinge o copo, que cai, cai, cai, espatifando-se no chão do boteco. Salomão fita com raiva o dono do braço, um sujeito bem vestido que bebericava uma garrafa de água mineral com gás, certamente um transeunte que ali detivera-se para aplacar a sede.
- Olhe o que você fez!
- Desculpe. Foi sem querer. Eu pago. A bebida e o copo. Quanto é?
- Não quero seu dinheiro! Não quero que pague outra! Nada trará de volta o que se perdeu! A terra absorveu o líquido assim como absorve a carne, o sangue e a malignidade humana. O homem é um ser rude e mau, merece a dor e o sofrimento por toda a eternidade finita e efêmera de sua desprezível existência!
O homem bem vestido virou as costas para Salomão, dirigindo-se ao dono do bar:
- Caramba! Como tem maluco nesse mundo. Quanto é a cachaça, o copo e a água mineral?
Salomão sentiu a ira aumentar, fluidificar-se e percorrer seu corpo, borbulhante, cáustica, ácida, venenosa. Sacou o pequeno e afiado canivete e não titubeou: agarrou os cabelos do homem bem vestido com uma das mãos, puxando violentamente sua cabeça para trás. Com a outra, cortou-lhe o pescoço de um lado a outro. Um semi-círculo preciso, uma degola cirúrgica, como quando sacrificava frangos no abatedouro. O homem bem vestido levou as mãos ao pescoço, o sangue esguichando aos borbotões, empapando seus belos trajes, tingindo de rubro sua fina e branca camisa de seda. Caiu pesadamente, ainda constringindo o pescoço, numa última e desesperada tentativa de interromper o fluxo, de agarrar-se à vida. Os olhos arregalados, a escancarada boca silenciosa perguntavam a mesma pergunta: por quê?
Salomão ficou ali, parado, observando os derradeiros estertores do desconhecido prestes a conhecer o desconhecido. "Sujeito de sorte". O proprietário do bar há muito havia debandado, em busca de um telefone para chamar a polícia, que logo apareceu. Salomão não reagiu à prisão. Foi algemado e conduzido à Delegacia, onde foi interrogado. Expressão serena, imperturbável, olhos fixos nos do Delegado, disse, em tom baixo:
- A justiça prevaleceu. Olho por olho, dente por dente, fluido por fluido. O infiel estouvado profanou o sagrado ritual com sua atitude aparvalhada, ofendeu o Supremo Ser Alcoólico Aquoso Cáustico, regou a terra com a santa beberagem oriunda dos alambiques divinais. O sacrilégio só poderia ser reparado, a ira do Deus Etílico só poderia ser aplacada com o sacrifício do ímpio. Sinto-me honrado porque Ele me escolheu. Tornei-me o braço da justiça divina, o anjo da morte, o precursor do Messias Ébrio. Desenrolei o tapete vermelho, o tapete de sangue, onde Aquele-Que-Tudo-Sabe-E-Tudo-Bebe caminhará trazendo consigo as boas-novas de dor, morte, sofrimento, vômito e paz. Estou feliz. Cumpri minha missão.
O Delegado fitou o escrivão que fitou o Delegado. A sentença veio fluida, imediata, uníssona:
- Preciso tomar uma.

Carlos Cruz - 28/03/2008

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Evangelho de São João Barba de Bode Capítulo I



Olhe.
Pare, olhe, escute.
Sempre olhe para os lados antes de atravessar a via.
O dono do carrão reluzente total flex não merece atropelar você.
O seguro vai cobrir as despesas decorrentes do acidente.
Sua família contratará um advogado.
O advogado vai fazer a engrenagem burocrática funcionar.
Sua família receberá o DPVAT.
O advogado abocanhará, alegremente e com expressão de pesar
os trinta porcento do bolo a que faz jus.
O motorista atropelador ganhará um novo carrão reluzente.
Você não vai ganhar nada, tornar-se-á nada.
Olhe.

Ouça.
Ouça a voz do diabinho verde.
Ele sabe o que diz.
Ele sabe tudo.
Não ouça os crentes, os devotos-autômatos de Cristo-Buda-Confúcio-Maomé.
Ouça o diabinho verde de orelhas pontudas e dentes muito brancos.
Faça o que der na sua telha.
Ainda que cause danos à sua saúde.
Porra, de quem é o corpo?
Foda, foda muito. Refestele-se de carne.
Empanturre-se de carne.
Beba, fume, drogue-se.
Faça o que quiser.
Desde que não prejudique outro.
Ouça.

Cheire.
Sinta os odores do mundo, do sub e do infra-mundo.
Embriague-se de cheiros.
O cheiro do sexo, do perfume barato, do estrume.
Cheire o sovaco, a boceta, o saco.
Cheire o cachorro morto, o marimbondo, o rato.
Cheire a chuva, o esgoto, o mato.
Impregne-se dos olores de vida, morte, coma e sorte.
Aspire a fumaça do pneu queimado.
Queime suas roupas na fogueira santa.
Cozinhe seu cérebro na frigideira de aço inox.
Tempere com salmos, salmonelas e idéias idiotas.
Deixe passar do ponto e coma.
Regue com vinho tinto barato.
Depois, defeque no chão.
Cheire.

Carlos Cruz - 30/01/2008