domingo, 4 de novembro de 2018

Crônicas Policiais V - A Vida Como Ela Não Deveria Ser



Há mais de vinte anos, época em que ainda era funcionário da MRS Logística, conheci um adolescente que estagiava no meu local de trabalho. Franzino, baixinho, rosto repleto de espinhas, retraído, tom de fala baixo, sempre de olho nos pés do interlocutor, um poço de timidez e introspecção. Estagiário em seção diversa daquela em que eu trabalhava, tivemos tão só contatos eventuais em função de trabalharmos no mesmo local.


O tempo passa, eu me caso, me mudo de um lado para o outro e, enfim, compro uma casa financiada em 360 meses pela CEF e finco pé.



A empresa atravessa um período de crise e as demissões são frequentes. Meu filho nasceu há poucos meses e todo dia sou forçado a controlar a apreensão de ver meu nome encabeçando a lista dos cabeças-cortadas. Um belo dia, ao sair de um pernoite no qual soube que mais três – bons – funcionários haviam sido ceifados, decido agir. Inscrevo-me em um concurso para Inspetor da Gloriosa Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.



Faço a prova objetiva, passo. Faço o exame psicotécnico no Rio de Janeiro; na saída do exame esbarro com o moço espinhento. Trocamos algumas palavras sobre o concurso, logicamente, e fica nisso.



Passo na porra toda mas não sou classificado nas vagas. Torno-me um excedente. Eu e mais uns mil e poucos candidatos. Fico decepcionado mas - fazer o quê - vida de concurseiro é isso. Os dias passam e fico sabendo que uma comissão foi formada dentre a galera que sobrou pra tentar nosso aproveitamento com base em uma lei estadual que prevê um efetivo de vinte e poucos mil policiais civis e a Gloriosa só contava com pouco mais de dez mil. Me animo: ainda resta um filete de esperança. Em contato com a tal comissão descubro que, além de mim, há mais dois em minha cidade na mesma situação de aprovado pero no classificado, um deles é o ex-estagiário.



Sondo e fico sabendo ainda mais: o cara mora a poucos metros da minha casa, somos praticamente vizinhos. A partir daí, estabelecemos um contato frequente por conta do interesse comum.



Os excedentes do concurso, representados pela comissão, alcançamos algumas vitórias, paulatinamente: alteração da validade do concurso, convocação para o curso na acadepol. Decido meter o pé do antigo mister, embora saiba que tal decisão é assaz temerária: nada é líquido nem tampouco certo.



Alugo um apartamento no Rio junto com outro candidato da minha cidade para fazermos o curso. Convidamos o franzino mas ele declina: quedar-se-á em casa de parentes, sai mais barato, a despeito da distância maior que teria de percorrer diariamente.
Fazemos o curso, as provas, passamos, tamos dentro. Sou lotado num canto, ele noutro. A vida corre, o tempo passa e chegam as notícias: o amigo tá fazendo um monte de coisa errada, também chamadas de “merda atrás de merda”. Repudio, refuto as notícias, taxando-as de maledicência: não, não existe a menor possibilidade de que aquele menino mocorongo, todo retraimento, esteja se dedicando a tais práticas reprováveis.



Tempos depois, mais notícia ruim: o cara foi preso. Caralho! Não pode ser! Mas, é.



Os meses passam e, certo dia, esbarro com o caboclo na pista.
E aí, beleza?
Tranquilo.
E aí, tá trabalhando onde?
Ainda tô de molho. Aqueles filhos da puta me foderam, não fiz porra nenhuma de errado!
É foda. Infelizmente todos estamos sujeitos a isso. (Penso: todos uma ova! Eu é que não me meto em furada! Antes endividado que demitido e preso!)
É.
Então fica assim. Vou indo nessa.
Valeu.
Valeu, brow. Fica com Jesus.



Muitos sóis sobem e descem e, com um deles a pino, recebo a notícia mais pior de ruim: o colega assassinou a esposa, crivou-a de projéteis, encheu-a de chumbo, enviou-a a contragosto e sem escalas para a terra dos pés juntos. Qual das vezes outras, desta feita com mais ênfase, dou vazão à minha incredulidade: “o Fulano?!?! Não, não posso acreditar nisso!!!” Mas era à vera. Após matar o cônjuge virago, tentara fugir, mas fora capturado, preso em flagrante por homicídio qualificado.



O tempo é a borracha da memória. Passam-se os anos, vou de uma delegacia para outra e paro na de minha cidade natal.



A noite é atípica: a delegacia, quase sempre com fila de espera, está vazia. Bato um papo descontraído com o colega do plantão – coisa que há tempos não fazemos. Vejo a luz de um giroflex que se aproxima. A viatura do SOE – o serviço de transporte de presos – para. “Lá vem preso pra depor amanhã.” – falo para o colega do plantão. Os agentes abrem a porta traseira, um único preso desembarca, com a característica camisa de malha branca. Vêm se aproximando e reconheço o ex-colega franzino, baixinho, rosto repleto de espinhas, retraído e que falava baixo. Outro preso, mais um preso, um preso como outro qualquer. Quando me vê, esboça um sorriso, estende a mão direita algemada à outra e diz: “André! E aí?”. Ao ouvir o nome pelo qual somente meus pais, irmãos, tios e primos me tratam, vindo de um preso do sistema, levo alguns segundos para estender a mão e apertar a dele, bate uma confusão na cachola de policial civil com quinze anos de profissão. Dirigimo-nos ao cárcere, o preso escoltado pelos agentes da SEAP, a Secretaria de Administração Penitenciária. Ele calça tênis. Não pode entrar com eles por conta dos cadarços (presos, quando querem se matar, usam até a própria camisa). Peço para tirá-los e calçar um par de chinelos que algum outro prisioneiro deixou para trás. Ele me olha com cara de “pô, André, fala sério!” mas nada diz e faz o que pedi. Entra na cela, bato a pesada porta de aço e tranco o cadeado.



Os agentes se vão e eu fico com meus pensamentos. Bate “um ruim”, um incômodo chato que só posso definir como tristeza. Estou triste por ver o antigo amigo que nem era tão amigo assim – nunca bebemos nem conversamos amenidades em um botequim qualquer juntos – naquela deprimente situação. É a última noite do plantão, noite que custa a passar.



Puta que pariu, cara, que merda é essa que você fez com a sua vida?



Pela manhã, ele pede um banho. Não quer encarar o Tribunal do Júri fedendo. Peço ao colega do plantão que atenda ao pedido. Não quero contato porque não quero vê-lo porque quando o vejo enxergo um monstro saído do lodo das minhas memórias, um ser humano disforme feito de várias caras, umas boas, outras ruins, cuja visão me faz mal. Sinto-me um pouco culpado por isso. Mas, foda-se. Quem fez merda não fui eu.



O plantão termina, graças a Deus. Volto pra casa e o cara vai pro fórum. Não sei a sentença nem quero saber. Quero beber minhas cervejas e fumar meus cigarros e ler meus livros e ver meus filmes e beijar e amar minha esposa. Aproveitar minha folga porque outro plantão vem aí e não demora a chegar.



Continuo achando que ganho mal pra fazer o que faço. E que não existe bicho mais esquisito e imprevisível que o ser humano.



Que merda.
Carlos Cruz

sábado, 3 de novembro de 2018

Crônicas Policiais IV - arma de fogo para quem precisa



há alguns anos, estava eu de plantão na Delegacia, quando para uma viatura da Polícia Militar da qual desembarcam dois policiais, um senhor e uma criança.
o senhor, de aparência muito simples, reunia no rosto banhado em lágrimas a expressão de sofrimento de mil homens torturados.
a criança, um menino de seis anos também de aparência humilde e também chorando a cântaros, estava assustado e confuso.
um dos policiais, que trazia consigo uma espingarda de um cano, calibre 28, muito antiga, gasta e enferrujada, narrou-me o ocorrido: aquele senhor devastado ali na minha frente, um lavrador cuja esposa falecera de um câncer há alguns meses, era o proprietário daquela arma de fogo, herança de seu avô, que na maior parte do tempo ficava guardada sobre o guarda-roupas no seu quarto. vez ou outra, ele a usava para afugentar alguns animais da lavoura.
um belo dia, o filho o vê retirar a arma do local de guarda. após o óbito da matriarca, o pai, ao sair para a lida, deixava as crianças - eram dois meninos, o menor tinha cinco anos de idade - com uma vizinha.
acontece que, naquele dia, a vizinha precisou sair e não pôde ficar com os pequenos. o pai não podia deixar de ir ao trabalho sob pena de perder o emprego, o local era distante e seria bastante difícil levar os moleques na bicicleta. decidiu deixá-los algumas horas a sós, a vizinha retornaria na hora do almoço.
o pai saiu. o menino maior lembrou-se de onde o pai guardava a espingarda e propôs ao irmãozinho brincarem de polícia e ladrão. é claro que o menor topou. arrastaram uma cadeira, sobre a qual colocaram um banco e o mais velho conseguiu alcançar a arma longa.
a brincadeira durou muito pouco. o mais velho, que obviamente era o polícia, matou o bandido com um tiro no peito, direto no coração, o pequeno coração do seu irmão mais novo, seu único irmão. não pulou de júbilo nem gritou de alegria junto ao irmão, a reinação acabara em uma poça de sangue. o menino correu desesperado em busca de ajuda, pois telefone na zona rural é artigo de luxo e a habitação mais próxima ficava a mais de um quilômetro. mas foi vão, o irmão já partira para o planeta dos anjos, em uma nuvem de fumaça com odor de carvão, salitre e enxofre.
estavam ali na minha frente, aguardando meu bater de teclas, aquela família destroçada por balins de chumbo. o Delegado, humanamente, não me mandou autuar o pai em flagrante pela posse ilegal de arma de fogo de uso permitido. enquanto fazia meu trabalho, também fiz o que sempre faço embora não deva fazer: pus-me no lugar do pai. na época meu filho tinha a mesma idade do menino mais velho. na verdade, não me pus no lugar dele porque é impossível absorver, sentir ou mesmo sondar a dor de um pai que perde um filho nessas circunstâncias. ao mesmo tempo em que se arrepende de não haver se desfeito da arma, se autoflagela por sua imprudência em deixá-la carregada, pensa em tirar a própria vida mas sabe que isso não fará o tempo retroceder nem trará de volta o sorriso do seu filho. terminei meu trabalho, pai e filho foram velar a criança morta e eu fiquei com meus pensamentos e meu coração apertado. outro "cavaco do ofício" difícil de suportar e extrair. na folga seguinte, a primeira coisa que fiz ao entrar em casa foi descarregar minha pistola, desmuniciar os carregadores e guardar arma, carregadores e projetis em esconderijos bem distantes um do outro.
quando vejo todo esse iê-iê-iê em torno da revogação ou abrandamento da Lei 10.826/03, o Estatuto do Desarmamento, sempre me lembro dos rostos daquele pai e daquele menino, para sempre destruídos por um tiro de espingarda. armar o cidadão de bem, será mesmo essa a solução para nossos problemas de segurança?
"porra, Cruz, mas esse é um caso em dez mil!"
tá certo, irmão, tá certíssimo. mas, reflitamos juntos: se liberar a posse e/ou porte de arma de fogo pra geral, aumentam também o número de gente armada e gente, você sabe, cada um é diferente, logo, aumentará também o número de imprudentes e os acidentes e os pais e mães e filhos e tias e tios e sobrinhos pranteando seus entes queridos mortos, a matemática é pura, aplicada e má.
cada caso é um caso mas, a meu ver, possuir arma de fogo é uma solução de dois canos alternados: um aponta para o vagabundo, o outro para o cidadão.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Crônicas Policiais III - os cavacos do ofício às vezes entram embaixo da unha e fazem doer




o cara acabou de perder o pai, atropelado por um caminhão. está ali, na DP, porque, na qualidade de filho, pode fornecer dados acerca da vítima e agilizar sua qualificação e conclusão das formalidades.


embora não tenha presenciado o acidente, o colega pede para ouví-lo como testemunha circunstancial. faço a busca de qualificado no sistema e tenho uma surpresa - desagradável para mim, muito desagradável para ele: o cara tem dois mandados de prisão pendentes por inadimplemento de pensão alimentícia.


solto um "puta que pariu!" e peço desculpas à moça no balcão que aguarda para ser atendida. o cara acabou de perder o pai e não vai poder velá-lo nem enterrá-lo nem dar o último adeus. a transferência é inevitável, ponho-me no lugar dele e penso - impossível não pensar - em prevaricar.


Art. 319 do C. P. - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.



o pensamento se esvai. "você é um agente do Estado, Carlos Cruz, agente da repressão, polícia, e polícia existe pra ajudar alguns e foder os demais. se queria ser humano, demasiado humano, porque não fez concurso pra área da saúde ou assistência social?"


não, não posso prevaricar e, ainda que quisesse, isso seria pedir pra me ferrar: já consultei o cara no sistema e isso gera um 'log' alcaguetador. verifico a listagem do plantão judiciário. "caralho!" - peço novas desculpas à jovem, o plantão não é em Paraty nem em Angra dos Reis, é na Vara de Família de Barra do Piraí, ali no fórum ao lado da DP, mesma vara de onde provieram os mandados de prisão.


dou a má notícia ao cabra, torcendo pra ele não chorar. ele faz cara de surpresa e dá as mesmas desculpas que todos na situação dele dão: mas isso aí tá errado, as pensões estão todas pagas, meu filho já é 'de maior', etc. redarguo: ótimo, então vai ser fácil resolver. me dá o número de telefone do seu advogado, rápido. ligo, explico o caso, chamando a atenção para a questão do plantão judiciário próximo e passo o telefone para o desditoso preso.


o advogado vem, pega as cópias dos mandados e vai. as horas passam, a noite cai, o advogado volta e diz que conforme seu cliente havia dito - vez ou outra acontece - ele está em dia com a pensão e quite com a Justiça: o alvará de soltura já foi expedido mas depende do sarq/polinter. o cara terá de dormir no xadrez. na manhã do dia seguinte, bem cedo, o oficial de justiça vem soltá-lo, enfim. o homem - até então firme como o Pico da Neblina - desaba em lágrimas e eu corro pro banheiro pra não fazer o mesmo. homem que é homem, polícia que é polícia, não choram.


depois, vêm as novas ocorrências de sempre, as mesmas vítimas, os mesmos presos, as mesmas queixas e esqueço o caso do prisioneiro azarado.

Crônicas Policiais II - Martela o Martelão




-boa tarde. pois não? – pergunto ao travesti debruçado no balcão.

-oi. eu quero fazer um BO contra meu ex-marido.

-sim, mas o que aconteceu?
-ele me agrediu.
-mas você está machu... – ‘machucado ou machucada?’, fico na dúvida.
-você sofreu lesões?
o rapaz... a moça... a pessoa afasta as madeixas negras e exibe uma equimose na fronte direita.
-mas por que ele fez isso com você?
-ciúmes. ele não aceita que eu não quero mais nada com ele e já estou ficando com outra pessoa.
-entendi.
-e eu quero a Lei Maria da Penha! quero medida protetiva como da outra vez.
-você já fez outro registro contra ele?
-fiz. e o juiz mandou ele ficar longe de mim duzentos metros.



penso: não vai rolar. a despeito da multiplicidade de tipos de relacionamentos afetivos, o sistema da delegacia segue a letra da Lei 11.340/06, que já no seu artigo 1º define o seu objetivo: coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. ou seja, para solicitar as medidas protetivas previstas na referida Lei, a vítima precisa ser qualificada no sexo feminino. sei que existe jurisprudência no sentido da concessão das medidas nos casos envolvendo relações homoafetivas masculinas, contudo, o sistema usado na DP ainda não se adaptou a isso: não gera o pedido de medidas protetivas para vítima do sexo masculino. decido consultar o procedimento feito anteriormente a fim de verificar a solução encontrada pelo colega.



-me empresta sua carteira de identidade.

surpreso, verifico o nome no documento: Kethlleen Christinne de A. da S., com data de emissão bem recente.
será que ela decepou o bingulim e as bolinha? levo a mão, instintivamente, até meu saco. ele está lá, graças a Deus. começo a sentir um filete de uma dor psicossomática escrota nos colhões.
-você usou esse nome quando fez o último registro?
-não.
-e que nome usou?
-ah... eu não gosto de falar. – responde Kethlleen, entregando-me outra identidade. o rosto na foto era o mesmo, mas o nariz e os cabelos... quanta diferença. o nome que se lia possivelmente era uma homenagem aos avós: Sebastião Asdrúbal de A. da S..



pesquisei Sebastião e localizei o procedimento. o colega que o lavrou fez constar o nome civil, o nome social, a orientação sexual como homossexual e o sexo feminino. embora forte candidato a engrossar a lista de ‘não conformidades’ feita regularmente pela corregedoria, a solução era a única possível para burlar o sistema e permitir a geração do pedido de medidas protetivas e consequente entrega ao Judiciário no prazo de 48 horas, como manda a Lei.



faço contato com o Delegado e passo a bola. ele faz referência à jurisprudência e determina que eu faça o mesmo que o colega no registro anterior.

lavro o procedimento, imprimo, Kethlleen assina tudo e indaga:
-O Tigrão ainda trabalha aqui?
lembro imediatamente do personagem do desenho animado e também da letra do funk antigo. ‘vou passar cerol na mão, assim, assim, vou aparar pela rabiola...’
-Tigrão?
-é. não sei o nome dele. é um moreno, alto, forte, com olhos de mel, lábios carnudos e cara de dominador.
deixando de lado o ‘lirismo’ da descrição, repasso mentalmente todos os colegas da DP. não, não tem nenhum com aquelas características.
-deve ter sido transferido. trabalho aqui há poucos meses e não o conheci.
-ah... que pena... ele me atendeu tão bem... – Kethlleen com expressão saudosista.



dou meu trabalho por encerrado e paro de especular sobre o colega cortês, zeloso e bem-apessoado que não está próximo para ser zoado, digo, elogiado pelo bom trabalho desempenhado e urbanidade no atendimento.

Kethlleen agradece e se vai, rebolosa e chacoalhante.


entro na internet e verifico que o DETRAN/RJ já disponibiliza o serviço de emissão da carteira de identidade social mediante o pagamento de um DUDA no valor de R$37,15.



vejo também que alguns sites apresentam listas contendo 17, 31, 37, 56 e outros números mais de gêneros sexuais ou orientações sexuais ou outro nome sexuais e concluo que, apesar dos esforços, nosso sistema, com suas parcas oito opções no drop-down ‘orientação sexual’ está defasado com relação à realidade, ainda está na época do GLS.



como diria aquele sexólogo famoso cujo nome não lembro: ‘em se tratando de sexo, há mais variedade entre o céu e a terra do que sonha nossa vã tecnologia.’

domingo, 22 de outubro de 2017

Crônicas Policiais - alérgico ma non troppo



Dia desses experienciei aquilo que talvez seja o que experiencia as pessoas que morrem de morte morrida.
Cumpria meu plantão semanal de quarenta e oito horas na Delegacia de Polícia de Vassouras, quando tive uma ideia genial para combater um raio de um torcicolo que estava me incomodando horrores: além dos analgésicos, decidi comprar e chapar um comprimido do anti-inflamatório diclofenaco potássico, mais conhecido como Cataflan. Useiro e vezeiro na sofisticada arte da automedicação, desde quando era criança pequena lá em Barbacena, pensei: se não fizer bem, decerto mal não fará. Pra ficar um coquetel bacana, tomei mais uma dipirona e um Dorflex, concomitantemente (a concomitância medicamentosa é a cereja do bolo da automedicação).
Minutos depois, enquanto ouvia uma senhora reclamar dos latidos noturnos do labrador do vizinho, a coceira começou: primeiro, um pruridozinho no alto do cocuruto; depois, o saco comichando mais do que o normal; depois os braços, o tórax, as pernas, o cu, a comichão foi se alastrando por todo o corpo. Já conhecia aqueles sintomas, pois não era a primeira vez que tinha... alergia! Sentindo o rosto em chamas, pedi desculpas à senhora insone e ao colega que segurasse o plantão. “Cara, você tá vermelho igual um tomate!” – o coleguinha, sempre gentil.
Corri ao hospital, coçando-me todo qual um cão sarnento. Esperei sem qualquer paciência o atendente preencher minha ficha – “é a primeira consulta do senhor? Qual seu nome, endereço, telefone? Tem alguma doença? Tomou algum medicamento recente? Qual o seu time? É biscoito ou bolacha, o certo?”
Eternos minutos depois, a consulta. Pressão: 15 x 7. É alérgico a algum outro medicamento? Sim: penicilina e seus derivados. Aguarde um pouco que vamos lhe aplicar uma medicação. Qual? Fenergan e hidrocortisona. Beleza. Ah, o senhor é policial civil? Sim. Perdi o documento do meu carro. Caramba, que chato; se eu sobreviver, vai na delegacia depois que faço o registro de extravio. Ok.
Sou instruído a aguardar em uma sala onde várias pessoas estão sentadas em um semicírculo. Um senhor com o pé inchado e uma ferida purulenta na sola. Diabetes; penso em papai, também diabético, também com recorrentes feridas nas solas dos pés. Outras pessoas recebem medicação intravenosa.
Espero. A eternidade. A comichão se espalhando, a cara pegando fogo. Quando já me preparava pra arrancar as roupas a fim de facilitar a coçação, os remédios chegam. Injeção no braço, injeção na bunda. Não tenho o mínimo pudor em arriar parte da calça e exibir parte do glúteo direito pra todos que estão na sala. O que é uma bunda peluda diante de um problema de saúde cabeludo e urgente? A enfermeira é hábil, quando percebo os medicamentos já estão circulando no meu corpo. Agora é só aguardar eles fazerem efeito. Obrigado, moça. Ah, o senhor é policial civil? Tô com um problema com a minha vizinha, ela é uma tremenda fofoqueira e fez uns comentários a meu respeito que estão me causando problemas com meu marido... A medicação começa a surtir efeito, sinto-me mal, um torpor, a boca seca, um zunido estranho no ouvido esquerdo. Moça, desculpe te interromper, mas estou me sentindo mal. Vamos medir sua pressão... 9 x 5. Espere lá na sala. Daqui a pouco você vai se sentir melhor. Obrigado.
Sento novamente no semicírculo. O velho da ferida no pé inchado aponta pra mim: ele tá passando mal. Tô, meu senhor que lembra meu pai, tô muito mal. A luz fria das lâmpadas aumenta de intensidade, mais forte, mais, mais... “Vá para a luz, Carolaine!” – lembro da médium anã de Poltergeist e sua voz irritante. As pessoas ao redor estão diferentes, seus traços, suas cores vão ficando mais acentuados: estão virando personagens de desenho animado. A qualquer momento vai aparecer uma caralha de um túnel iluminado cheio de vultos com os braços estendidos para me abraçar, me imobilizar e me conduzir coercitiva e docemente para a Terra-dos-Pés-Juntos. “Não vou pra porra de luz nenhuma, caralho!” – grito. Todos me olham com cara de “coitado... é maluco...” Sinto que vou desmaiar a qualquer momento, na dúvida se vou continuar sentado ou deslizar para o chão e acordar em uma cama com grades cinza baixinhas e duas lâmpadas fluorescentes fazendo meus olhos arderem. O pior da sensação de desmaio iminente é pensar na total perda de controle sobre a sua vida durante o período de inconsciência: sua existência estará – à revelia da sua vontade – nas mãos de pessoas estranhas. Lembro da cena de algum filme ou série em que o paciente estrebucha, os aparelhos apitando estridentemente aquele apito monocórdio da morte, enquanto a enfermeira e o médico fodem selvagemente no quarto contíguo, aquela foda rica em acordes dissonantes da vida.
Mas não foi dessa vez que bati as cachuletas. Aos poucos, a intensidade da luz foi arrefecendo, as pessoas voltando do mundo das HQs para a opaca vida real. Voltei do limbo. Agradeci aos profissionais de saúde e saí pra fumar e retomar minhas atividades e tentar calar os cachorros que latem e as vizinhas que tecem maledicências prejudiciais à harmonia conjugal.
Nota mental: fiz filho e plantei árvore. Lembrar de pedir urgente a devolução dos textos originais àquele editor. Não ouvir o disco 1001 dos 1001 discos pra ouvir antes de morrer.



Ah, e antes qu’eu me esqueça: sifudê, baixinha filha da puta do Poltergeist!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

chiste nº 05



-o negócio é putaria, meu irmão. neguim fica nessa de meu amorzinho pra cá, meu chuchu pra lá, meu docinho de coco pra acolá... amorzinho é o cacete! o lance é meter com força, dar tapa na bunda, mandar rebolar, chamar de vagabunda, é isso que funciona, é disso que elas gostam, ISSO é amor. esse papo de andar de mãos dadas na praça, colher flores, correr atrás de borboleta é coisa de afrescalhado que tem nojo de chupar xereca. tem é que cair de língua, meter a cara com vontade, besuntar a fuça até ficar brilhando, tá ligado? fazer a mulher subir pelas paredes de tanto gozar. o que eu queria mesmo é saber falar uma porrada de idiomas, ia pegar geral aquelas gringas gostosas que vão lá no coliseu assistir aos leões comerem os irmãos. ô, se ia.
-mas, Paulo, você não pode dizer uma coisa dessas. os corinthianos podem até gostar, mas os coríntios, arrisca debandarem geral de volta pras barras do saiote de césar. se isso acontecer, o Mestre vai ficar tão puto que é capaz de disparar outro flash na sua cara que vai te deixar cego para todo o sempre, amém.
-tá bom, tá bom, caceta, escreve aí, então: ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine...
melhor: vamos mudar esse final pra aquele do renato russo, fica mais musical e a galera pode cantar em volta da fogueira, enquanto fuma um beck.

chiste nº 04



-infeeeeerno! cacura sem bofe que te apunhala pelas costas depois faz a egípcia é uó. quem essa cambada de motherfuckers pensa que é pra colocar em dúvida minha sexualidade? chego quase a ovular de ódio. tudo bilu com picumã do equê sem nenhum aqué que só quer aquendar, mas quando consegue um bofe, lá uma vez ou outra, passa cheque e espanta o boy. esses suns of a bitch adoram um babado fortíssimo, quanto maior o bafão, melhor. eu sou um súdito fiel de Sua Majestade, sou macho man, em vez de ficarem especulando sobre minha vida sexual, vão fazer um blow job num big dick!
-mas, Shakespeare, não é legal um dramaturgo da sua envergadura dizer uma coisa dessas. aliás, nem você nem seus personagens. os críticos vão cair de pau.
-ok, ok, man, escreve aí, então: ser ou não ser, eis a questão.
*premeditando o óbvio: essa série filosófico-histórico-literária não passa de um apanhado de chistes apalermados e absurdóides, logo, favor não exigir lógica, verossimilhança ou compromisso com a verdade e/ou nada de porra nenhuma.

chiste nº 03



-ora pois, só fico nessa porra desse país de merda, nesse calor dos infernos e aturando essa gente feia, fedorenta e suarenta porque papai ficou de mandar um navio cheio de putas francesas e holandesas que, segundo eu soube, sabem dar até bicicleta em cima do pau. as putas de acá até que não são de se jogar fora, mas, além de banguelas, têm um futum de xereca suja filho da puta. exigi também uma carga do melhor bacalhau e vinho do porto do bom. aí, tudo bem, dá pra aguentar mais um tempo, eu fico nessa caralha.
-mas, príncipe, vossa alteza não pode falar assim. o que dirão os historiadores?
-tá bom, vá lá, vá lá, escreve aí, então: Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico.

chiste nº 02



-porra, tománocu, vocês pensam que eu sou o quê? uma barsa ambulante, um vade mecum de vestidão, o google sem aquela voz de mulher-robô? sifudê, pô. eu sei uma porrada de coisas mas não sei tudo, caralho!
-mas, Sócrates, você não pode dizer isso. geral vai ficar assustado e correr pra roda dialética do Platão.
-tá bom, tá bom... puta que pariu... escreve aí, então: só sei que nada sei.

chiste nº 01



-meto o pé na jaca mesmo, encho a cara, fodo pra caralho, eu quero é viver o agora sem pensar no amanhã, que se foda o amanhã, o amanhã não existe, meu pau existe, eu existo.
-mas Descartes, você não pode dizer um negócio desses, não pega bem.
-tá bom, escreve aí, então: penso, logo existo.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

hoje, no globo repórter


4.3 e inda não aprendi o tal pulo do gato que tira o cavalo da chuva, o boi da linha e coloca o ruminante na sombra; talvez o bicho de sete cabeças, se não estiver com a macaca, espante o espírito de porco e me ensine a dar o drible da vaca no lobo em pele de cordeiro. quero acertar na mosca mas a morte da bezerra está recorrentemente nos meus pensamentos. nesses dias, ando trôpego, feito barata tonta e as velhas raposas me vendem gato afirmando enfaticamente tratar-se da mais felpuda lebre. sempre pratico a discrição e tento manter minha boca qual a do siri, contudo, sempre vem um raio dum papagaio de pirata cabeça de bagre me apontar o bico e eu, bode expiatório, acabo pagando o pato, ou pior, caindo do cavalo paraguaio. o lance é mandar esses amigos da onça irem pentear macaco quando vierem com aquela conversa pra boi dormir. ora, cada macaco no seu galho! se ameaçarem soltar a franga, solto os cachorros em cima deles. tô farto de engolir sapos, de assistir impassível à vaca seguir mansamente rumo ao brejo. chega de cutucar a onça com vara curta! quero amarrar o burro, afogar o ganso, matar a cobra e mostrar o pau. encerro minha sina de vaquinha de presépio e aviso: prendam a respiração porque a cobra vai fumar!

Mad Max Fury Road, crítica boca suja do cinéfilo desbocado


tá ok. tem a galera que acha que os anos 80 foram do caralho porque neles surgiu uma puta cultura pop inimitável e irrepetível; tem a galera mais xiita que xinga, roga praga e deseja ardentemente que quem ousa reproduzir qualquer 'clássico' dos 80 passe a eternidade a arder no mármore cinza-corumbá do inferno ao som de uma banda misto de fresno e restart, com pitadas ch-tum ch-tum ch-tum de david gueta. não sou desses. penso que os anos 80 - como os 40, 50, 60, 70 e tal - pariu muitos filhos geniais e muitos bichos-de-goiba. vi, baixei, revi, revi, revi de novo a trilogia mad max; cada qual, descontada a carga tosca ou cult - a depender do gosto do freguês, com seu nível singular de fodeza (sou da banda cult e curto pacas o the cult, embora a crítica da revista bizz/showbizz sempre tenha feito a maldosa questão de incluí-los no mesmo balaio de guns'n'roses e skid row). bom, vamos ao que interessa: o mad max da foto. tá, ok, beleza, não tem mel gibson nem tina turner. tá certo, tem efeito especial pra homem-aranha nenhum botar defeito. aos amigos de meia-idade: aquelas caralhas de óculos 3D também me dão enjoo. mas, na boa véi, é um puta filme bom pra caralho! o cenário desértico tá lá; o visual a la tank girl também; os veículos, os personagens punk-rock, as perseguições, tá tudo lá. de quebra, ainda puseram um carro com tambores e um guitarrista heavy metal dedilhando uma guitarra-lança-chamas. há quem diga que transformaram o clássico dos 80 num reles blockbuster. concordo. mas uma coisa é certa: blockbuster ou clássico ou filme cult ou a porra da caralha da buceta do que seja, o filme é bom pra caralho e me diverti à beça. é isso. ponto. ponto final. falomaisnada. cabô.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Liberté, Egalité, Fraternité, Panelé Vameaux Baté


quer participar do panelaço em protesto aos mandos & desmandos da presidanta e seus petralhas amestrados mas não quer passar por pequeno-burguês ascendente de classe média emergente? quer batucar o utensílio da empregada com pompa e circunstância, estilo e glamour? quer causar frisson, ficar todo pimpão e bebericar seu chandon? chegaram as novíssimas Panelas Tramontana, com design arrojado, hastes em ouro 23 quilates, fabricadas na França sob encomenda. na próxima manifestação, mostre sua indignação. mas sem perder o savoir-faire nem o physique du rôle.

domingo, 5 de outubro de 2014

Eleições 2014 sob a ótica de um eleitor-leitor que leu o pequeno texto do Bertoldo ou o naufrágio do sufrágio




01) Dilma Roussef - candidata da situação à reeleição cujo partido, antes de se tornar situação, era a melhor opção pra quem desejava uma aurora menos cinza. sempre com cara amarrada, parece pronta a cravar as unhas no pescoço de algum desavisado. passaram-se os anos e ninguém que tenha vivido o antes e o depois pode negar que a coisa melhorou um gole. hoje o povo brasileiro menos favorecido pode ser entregar a luxos dantes impensáveis, como comprar um fardo de cerveja importada. mas o partido, no afã desesperado de se perpetuar no poder, se perdeu e descambou na mesmice pantanosa daqueles mesmos partidos que tanto criticaram no passado. o fim justifica os meios, por mais pestilentos e nauseabundos. lamentável, especialmente para mim que, sendo um eterno lago de paciência, naqueles idos de 1989, por pouco não me engalfinhei com um boçal na defesa do meu ideal representado por aquele ogro barbudo de fala cavernosa e língua presa.

02) Aécio Neves - primo siamês do ex-presidente fernando collor. cara de playboy criado a leite semidesnatado com pera, mamão papaia e sucrilhos kellogs. o fofucho cresceu e, na adolescência, passou a frequentar o iate clube aos domingos, para relaxar e se curar dos excessos das baladas de sábado à noite, regadas à jack daniels com red bull, drogas diversas, muito sertanejo universitário e a mulherada doida pra passear na carroceria da camioneta presenteada pelo papai, aquele mesmo que, de quando em quando, vinha resgatar o filhinho na delegacia. puto, chegava dando esporro: "porra! vocês estão de sacanagem? prender meu filho só porque ele bebeu algumas garrafas de uísque, capotou com o carro e morreram 3 pessoas? foi só um acidente, caralho! eu pago a porra toda! vamos embora, filho, esse pessoal parece que nunca foi jovem. papai dá outro carro, novinho e mais possante, tá?"

03) Marina Silva - chata pra caralho. cara de anfíbio, voz esganiçada, discurso confuso. estivéssemos nos 70 e ela fosse candidata a integrante dos novos baianos, votava nela sem titubear, desde que não cantasse, só compusesse. vejo uma trilha errática em meio à selva difusa nebulosa que vai descambar na sociedade alternativa sonhática. ou não. caso perca a eleição, fecha fácil uma parceria com o rapper criolo.

04) Luciana Genro - sem marina, ganharia o troféu 'mais chata da eleição' sem maior esforço. estuda ciência política na UFRS desde os 05 anos de idade; em casa, papai toma as lições. fez pós-graduação em retórica, mestrado em oratória, doutorado em dialética. poderia ganhar a eleição mas um grave deslize do passado, mancha indelével na sua bela história de vida, torna-a persona non elegível: ela tirou uma foto em cuba, de boina vermelha, com a estátua de che guevara ao fundo. perdeu, maluca.

05) Levy Fidelix - mineiro de Mutum, baixinho, gordinho, bigodudo e macho até a raiz do cabelo que sobrou atrás do cocuruto. se eleito, promete dar um gás, com o apoio do candidato Eymael, na combalida TFP e restabelecer o poder da tradicional família brasileira. seu lema: “a moral acima de tudo”. criará centros de pesquisa e reabilitação hermeticamente fechados para casais LGBT, onde especialistas altamente gabaritados tentarão provar por meio de experiências científicas que aparelho excretor não faz filho e que todo homossexual é útil na forma de adubo.

06) Pastor Everaldo - promete instituir o bolsa-danoninho e o vale-grapete. não sabe o que é previdência social mas sabe tudo de dízimo e gosta muito de púlpito. se pressionado, peida.

07) Eduardo Jorge - sempre que o vejo, penso em Trindade, Paraty. penso em praia, ondas, ondas quebrando na praia, onda, muita onda, viagem à lua, lua cheia, luau, estrelas brilhantes, hippies, dreadlocks, fogueira, alguém toca um violão, dança, roda, tudo roda. areia fofa. fogo colorido no céu. o mundo é lindo. A natureza é nossa amiga. a vida é boa demais.

08) Eymael – não convocado ao debate. menos de 1% das intenções de voto segundo os principais institutos de pesquisa. sabe-se tão só da parceria com o candidato Levy Fidelix no projeto Câmara do Amor Livre, destinado à reabilitação de homossexuais com vistas à reinserção na tradicional família cristã brasileira.

09) Zé Maria – não convocado ao debate midiático. menos de 1% das intenções de voto. inexpressivo. peru de festa. sem nenhuma chance. acha que ficou bem na foto do site do TSE. só isso. mais nada. acabou.

10) Mauro Iasi – vide Zé Maria.

11) Rui Costa Pimenta – vide Mauro Iasi.  

Face às facetas, provavelmente, uma vez mais irei no bom e velho voto-cacareco: zé maria presidente.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

conspiracy theory, invente uma pra chamar de sua




plantão do JN, com exclusividade, é claro: os candidatos à presidência da república aécio neves e dilma roussef foram os responsáveis pela queda do avião que matou o candidato do PSB eduardo campos. o jornal nacional teve acesso, com exclusividade, às gravações telefônicas gentilmente cedidas pela NSA, a agência norte-americana responsável pela interceptação telefônica e internética de milhões de pessoas ao redor do mundo, nas quais aécio e dilma conversam com políticos, militantes e outras pessoas ligadas ao PT e ao PSDB, acertando a vinda de rebeldes ucranianos especialistas no abate de aviões ao Brasil, em um avião da FAB. Segue a transcrição de uma das conversas entre a atual presidente e o presidenciável; através de códigos, em tom descontraído, falam com extrema frieza sobre a eliminação do político rival:


-E aí, brow, tudo certo?
-Nos conformes.
-Os butijucos vêm à selva?
-Tão no vento.
-Vão trazer os pirulitos?
-Só.
-E o passarinho que quer cantar, vai o rabicho balançar?
-Catabloom e cataploft.
-É nós na fita. Quem tasca?
-Ninguém.
-Responde rápido: duas cores bacanas para a auto-foda?
-Verde e amarelo.
-Jacaré no seco anda?
-Esturrica.
-O palhaço, o que é?
-Trelelé.
-Tem culpa eu?
-Todo mundo é inocente porque ninguém sabe de nada.
-Recomendações antes do show das poderosas?
-Prepara.
-Já é?
-Formô.
-Tamo junto e lula lá.
-O escambau, capiau. Beijunda.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Bibliomaniófilo Mocó



gastava todo exíguo dinheirinho que lhe caía nas mãos em livros. devorador de calhamaços, definhava a olhos vistos; o vício relegava a alimentação a patamares secundários na sua escala de prioridades. o corpo, implacável, cobrou-lhe a dívida: esquálido, nos braços da genetriz em prantos, corre os olhos baços pelas abarrotadas estantes do quarto e balbucia: "mãe... no céu tem livro?...". e morreu.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

a ave que cagava diamantes fedegosos, a tipoia e a azáfama



há alguns anos, durante um bate-papo antes do início das aulas com o professor Marcelo Leite na Universidade Severino Sombra, presenciamos uma cena lamentavelmente cada vez mais comum: um funcionário da universidade, seguramente dos mais graduados (e abastados), havia estacionado seu enorme e reluzente carro do ano numa tal posição que "matava" três outras vagas, um claro recado aos demais funcionários reles do campus: "cambada de insignificantes, vão estacionar seus carros populares financiados em quatrocentas prestações em outro lugar. eu sou rico, lindo, inteligente e muito importante, eu sou a pessoa mais importante da universidade, quiçá do mundo todo. logo, ocupo todo o espaço que eu quiser, faço o que quiser, inclusive cagar em suas piolhentas cabeças sem valor." aquele remoto - e esquecível - episódio foi a pedra angular da Teoria da Expansão Espacial do Ego dos Seres Pseudo VIPs na Sociedade de Consumo Contemporânea. Grosso modo, a teoria parte do pressuposto de que quanto mais arrogante, cheia-de-si e besta a pessoa for, mais espaçosa ela é.

ontem, tive nova comprovação da teoria. estávamos eu e minha amiga Suzana Muniz fumando em frente ao Hospital Samaritano em Botafogo, quando um gigantesco Jeep Cherokee assomou à toda e parou com direito à guinada de pneus à porta do nosocômio, precisamente no meio da passagem onde cabem dois veículos grandes, atravancando a porra toda. As quatro portas se abrem simultaneamente e desembarcam quatro orangotangos esbaforidos, tendo o menos corpulento pouco mais de dois metros. Um deles oferece a mão à uma mulher que reconheci no ato pois já a havia visto na TV. a pobrezinha aparentemente tinha torcido o tornozelo e estava acompanhada de outra mulher muito parecida com ela, ou seja, tão esquálida, feia e desprovida de atrativos quanto. a tal acompanhante já entrou reclamando pois cinco segundos haviam se passado e ninguém trouxera uma cadeira-de-rodas à muito-sobremodo-demasiado-pessoa-célebre-rica-famosa-mais-importante-de-todas. o porteiro corre desabalado (azafamado é o termo mais apropriado, certo, Suzana?) para atender à ordem da integrante do séquito.

até aí, tudo mais ou menos dentro do script. contudo, eis que surge um "Corsinha". o motorista aciona a buzina e gesticula, pedindo a liberação do acesso à entrada do hospital. simples: bastava um dos brutamontes entrar no monstro e locomovê-lo poucos metros à frente; ao invés disso, ele limitou-se a olhar de esguelha e com cara de poucos amigos o pobre veículo de pobre, como se dissesse: "você faz ideia da importância da minha patroa? foda-se! trate de esperar!" vendo que a buzina não surtira efeito, desembarca do carro uma senhora muito idosa, deslocando-se custosamente com seu andador. o detalhe que me fez pensar: a idosa sorria. refleti: será que essa moça rica e famosa, cheia de pompa, circunstância e empáfia, viverá tanto quanto essa senhora do carro popular que sorri diante de uma adversidade boba? se viver, com toda a descomunal importância que dá a si mesma, com todo o seu dinheiro e mordomias, impotente ante a ação implacável do tempo, será feliz?

ao final de tudo, fiquei matutando sobre como assim caminha a humanidade e onde descambaremos. uma interjeição seguida de uma expressão não me saía da cabeça, mas sem exclamação, posto que branda. sem nenhuma potência ou importância, qual um programa da rede globo: ai. que loucura.

manoel



cada pessoa é única. cada pessoa é louca. cada pessoa é única e louca, e essa loucura, na maioria das vezes, não só é inofensiva como faz bem para aquele louco e, não raro, para os demais loucos com loucuras diferentes. e o artista, o que é? ladrão de mulher? não, esse é o artista que faz as crianças rirem sob a lona. o artista é um louco especial porquanto dotado da faculdade de materializar sua loucura e submetê-la ao crivo sensorial dos outro loucos, uma tremenda insensatez, diga-se. a arte verdadeira tem convulsões, se contorce, baba, bate a cabeça na pedra, vira massa, se liquefaz e flui, sinuosa, suja, colorida ou negra como o piche, completamente desprovida de convicções e certezas. a arte, para ser arte, deve ser um erro e necessariamente passar ao largo do edifício da razão. por fim, não faço a mínima ideia da razão de estar escrevendo isso. estarei louco?

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Revelação



O Samba morreu.

brigadeiro xavier toma licor de cacau sabor brigadeiro



ninguém é obrigado a brigar nem a obrigar ninguém a brigar nem a brigar com quem não briga nem consigo brigar se não quer nem vê virtude na obrigação de brigar contra quem não se vê obrigado a não ser ou deixar de ser lombriga.

conjunção carnal-advérbio-infernal




entre tantos entretantos
perambulando por aí
trôpegos todavias
contudos cheios de si
emboras que não visitam a tia
no entantos que olham de soslaio
adredes de cara pra parede
algures pretensamente alhures
ceando em casa de sampaio
sita porventura lá pras bandas
do longínquo nenhures
porém, sempre vem o porém
acabar com a festança
à proporção que fode assaz
a cachola rubro-cornuda de satanás
zonzo, cara escarlate, vaza
zás-trás!
embora pr'os outroras
zamora, beleléu, conchinchina
fedentina casa das prima
sempiternos quintos dos infernos
porquanto o tacho está fervente
urge preparar gramáticos crentes
picantemente
alegremente
al dente.

Carlos Cruz - 05/02/2014

valium



a vida

ávida


comeu


vícios


bebeu


vodka


vomitou

virtudes vis

varreu

verdades vãs


viajou de avião

volitou na aluvião

tamborilou o violão

e teve um avc


Carlos Cruz - 03/02/2014