quarta-feira, 16 de setembro de 2009



Luces de Lunes


Oigo el melancólico canto del pájaro
negro, compañero leal de las mañanas
Lo oigo, aunque el sonido de las bocinas
estridentes, de los coches que pasan
como rayos fugaces y perversos
se esfuerce por sofocarlo...

Oigo un lejano pitido de un tren
sobrecargado con los vicios
de los hombres adinerados y sus obreros muertos
Oigo los gritos felices del lechero moreno:
"La leche! La leche blanca y buena!"
La ciudad se despierta...


El sol, implacable, dispara sus dardos
de luz, por las rendijas y calienta...
¡Calienta, sol! ¡Calienta!

Me despierto, a disgusto
La cabeza, todo el cuerpo me duele
Me acuerdo de la noche
las charlas animadas, las tonterías
la borrachera, las sonrisas fáciles
los espíritus bailantes en el humo del tabaco y maría

Me acuerdo de la mujer reluciente y flotante
Su sonrisa rubra, sus ojos ardientes
su bailado frenético y suave, su olor de jazmín
Me acuerdo del descompaso de mi corazón
del ardimiento de la sangre, de la parálisis del cuerpo
Del magnetismo irresistible, mi cuerpo, mi alma clamaban: La quiero!

Extasiado, precipitado, me acerqué a ella
Pero nada dije, ni fue necesario
Mis ojos lo contaban todo, desnudaban mi corazón sin pudor
El beso hizo bajar el cielo, oí la sinfonía de los ángeles
Mientras el fuego del infierno incendiaba mis órganos
Me hice lava, hielo, huracán, tormenta, rocío, todo y nada


Me acuerdo de la noche, ¡esta noche!
el encuentro desenfrenado, húmedo, estruendoso
de nuestros cuerpos en llamas
llamas de deseo, pasión, necesidad apremiante de tenernos
mutuamente, aspirar nuestros olores, nuestra transpiración,
aspirarnos, consumirnos, ahogarnos en un océano de amor

Pero, la noche dio lugar al día, la noche se ha ido
La mujer resplandeciente se ha ido, se ha disipado
como la niebla del invierno por la mañana
como un sueño bueno al cual intentamos, inútilmente
apegarnos, pero se nos escapa, huye para lejos
Dejándonos solos, medio tristes, medio felices

Otra noche vendrá... Y yo allá estaré, sumergido,
enamorado, loco soñador, a buscarla...

Carlos Cruz - 02/09/2009

Imagem: "The Dangerous Liaison", de René Magritte

segunda-feira, 4 de maio de 2009


A Peste



Primeiro, foram os gatos sem rabo. Depois, vieram as galinhas peladas. Estranhas manchas azuis surgiram no corpo das vacas. Cavalos apareceram totalmente sem crina. Atônito, o fazendeiro contratou, de uma só vez, os serviços do veterinário, do padre e da rezadeira. Em vão. Fosse zoonose rara, diabo zangado ou invejoso mau-olhado, a verdade é que nada tinha mudado. Era muita conjectura para nenhuma solução. Antevendo o pior, o fazendeiro cogitava escambos, compras e vendas imobiliárias, quando um berro delator elucidou o mistério: Pedrinho, o filho do caseiro, serrava o chifre do bode, que, nada satisfeito com a desonrosa mutilação, alardeava ao quatro ventos o torpe crime em andamento. Dona Maria, mãe de Pedrinho, de chinela em riste e vociferando imprecações, surge em cena, no exato momento em que o pequeno peralta debanda velozmente para as bandas do chiqueiro. Encolhido em meio à podridão fedorenta, ouve a voz ameaçadora de sua genitora: "Cadê aquela peste? Quando eu puser as mãos nele, ele vai ver o que é bom pra tosse!" Foi quando Pepe, o porco, sonora e nefastamente, espirrou.

Carlos Cruz - 03/05/2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009


A Trompa de Falópio



Falópio não toca trompa
ainda que lhe sobeje pompa
carece de talento.

Versejar sobre o intento gerativo
Parir a seco ostras sem pérolas, sem lauréis
Tornar-se trama de mamas e menestréis
Não querer não ser mas ainda assim existir
Criar e procriar as criaturas que criarão e procriarão
Genitora pai de ser (o sacripanta do inferno cão).

Fêmea que doa à toa numa boa a coroa
Parafraseia a farsa falha chauvinista dos sem-chave
Lidera a rústica rebelião aparvalhada das esteiras de palha
Estorva a benemesse dos rufiões filhos da pútrida maquiada
Finca o ranço dos descamisados ornamentados com colares de ouro
Tonifica seu tônus, lubrifica seus ânus, flâmula causticante.

Abre-se, Césamo, para o porvir das ninfas criadas de Hades
Ardam, escapistas alpinistas de vulvas capilares proeminentes
O fusca ofusca suas vicissitudes vãs de pulhas ordinários
Crentes pernósticos atabalhoadamente jogam seus dados sovinas
Dementes, descontentam e gargalham euforicamente
Ser mulher é melhor que ser uma inútil e burra golfada de porra.

Gosto do gosto da uva
Porque ma tenho, linda e má.
Pairo
Gozo
Avalancho.

Volátil
Vulva.

Carlos Cruz - 29/03/2009

sexta-feira, 17 de abril de 2009


Sub ou Sobe e Desce ou O Insubstituível, A Caveira Sorridente e A Sôfrega e Lenta Degustação da Iguaria Gélida



Mangueira. Pico do morro. Pico do mundo. "Tem pico?" "Não. Preto e branco só. Vai?" Traficantes traficam. Crianças descalças-de-bermudas-coloridas-sem-camisa soltam pipa. O sol escalda. Corpos enegrecidos ardem nos microondas movidos a borracha e gasolina, exalam cheiro de churrasco. Homens reunidos em toscos botecos improvisados bebem sofregamente e riem desdentadamente. Cantarolantes mulheres morenas estendem roupas no varal. Ladram vira-latas com pelada. Mais adiante, outras crianças jogam pelada. No barraco do Sobral, Elvira, pelada e suada, estendida sobre a colcha bordada com o escudo do Flamengo, sorve, lânguida, os fumos do baseado. Passa o bagulho para Tião Boca Quente, que dá uma bola, alegremente.
- Porra, Vivi, não sei o que é melhor, foder com você ou fumar um depois.
- Que porra é essa, Tião? Quer dizer que você prefere fumar um bagulho do que me foder? Você acabou de acabar comigo agora. Sou menos gostosa do que um bagulho. Puta que o pariu!
- Que que isso, potranca. Cê sabe que você é especial, a minha cadelinha particular.
- Sua cadela particular o cacete! Pertenço ao Sobral. Com você é só sexo. Eu pego você.
- Pega eu porra nenhuma! Esse negócio de mulher dizer que pega homem é uma babaquice modernosa. Eu sou o Tião Cabuloso, sou bonito, gostoso e maldoso. Ninguém se mete comigo. Nem o Sobral.
- Tá legal. Você é muito mal... Ih, cacete! Lá vem o Sobral!
- Ai, meu Jesus Cristinho!
Tião salta da cama, abre as portas do guarda-roupa abarrotado, tentando, desesperadamente, entrar.
- Hahahahaha! Você é um covardão. O Sobral, a essa hora, deve estar rindo à toa. Hoje ele vai ser promovido de empacotador a caixa do supermercado.
- Porra, não faz mais isso não. Quase me mata de susto.
- Ah, tadinho... Ficou assustadinho, foi? O coração tá batendo rápido, tá? Vem cá que vou fazer ele bater mais rápido ainda.
Sexo.

- Seu Sobral, pode vir à minha sala um minuto? - a cara do gerente não era nada boa.
- Claro. "Babaca. Nunca gostou de mim. Se fudeu, vai ter que engolir minha promoção. Vai ter que ME engolir. Que sorte o dono dessa bosta ter ido com a minha cara..."
- Por favor, Seu Sobral, encoste a porta e sente-se... Seu Sobral, há quanto tempo o senhor trabalha conosco?
- Doze anos.
- O senhor gosta de trabalhar aqui?
- Sim, gosto muito. "Porra! Tem que ter interrogatório? Por que esse filho da puta não diz logo que fui promovido?"
- O senhor sabe das dificuldades pelas quais a empresa vem passando?
- Hã?... Dificuldades?... Não. Sei não.
- O senhor sabia, Seu Sobral, que todo mês a empresa promove uma reunião aberta à participação de todos os funcionários, para tratar de assuntos relativos à empresa?
- ... É... Já ouvi falar.
- O senhor sabe ler, Seu Sobral?
- Sei, sim senhor.
- O senhor costuma olhar o quadro de avisos, Seu Sobral?
- Às vezes, quando dá tempo.
- Costumamos afixar o memorando que informa as datas das reuniões com um mês de antecedência. O senhor já viu algum memorando desses, Seu Sobral?
- Não. - Sobral estava começando a ficar irritado. Aquela mania do gerente de ficar repetindo o nome das pessoas, o tempo todo, era extremamente irritante.
- Bem, Seu Sobral, tentarei ser o mais direto e objetivo possível.
- Claro. "Ah, tá de sacanagem!"
- A nossa empresa, Seu Sobral, está no mercado há mais de cinqüenta anos e sempre foi uma das líderes em nosso segmento. Nossa filosofia de privilegiar o cliente, primando pelo bom atendimento, embasados na máxima que reza, acertadamente, que o cliente tem sempre razão, elevou-nos a um patamar superior com relação às concorrentes. Estamos sempre preocupados em criar meios que façam o cliente sair de nossa loja com vontade de voltar. É nosso diferencial: inovar, idealizar e implementar. Atrair o cliente, sempre, até o mais recalcitrante. E com isso crescer. Idéias, Seu Sobral. As idéias sempre agregam valor ao nosso negócio.
- Sei... "Caralho. Sempre, sempre, sempre... Ele não disse que ia ser direto?"
- O senhor, Seu Sobral, com sua atitude indiferente, jamais participando das reuniões, demonstrando total desinteresse pela empresa, tornou-se um perigo para o futuro de nosso negócio.
- Perigo? Como assim? Eu sou da paz.
- O senhor não entendeu, Seu Sobral. Os funcionários são vistos pela empresa como colaboradores e devem se portar como tal, para o bem de todos. Se todos se engajarem no objetivo de ajudar a empresa a crescer, ela cresce e todos são beneficiados. O senhor, Seu Sobral, não teve um aumento salarial no mês passado?
- Tive. Seis reais de aumento. "Filho da puta!"
- Viu só? Isso foi fruto do esforço de todos pelo bem da empresa. Mas há aí uma injustiça: o senhor teve um aumento salarial em virtude do esforço alheio. O senhor, Seu Sobral, em nada contribuiu para isso.
- Como não contribuí? Não chego atrasado, nunca faltei, faço meu serviço direito. - a irritação recrudescia perigosamente.
- Mas não faz nada além disso, Seu Sobral. A empresa não quer esse tipo de funcionário. Seu Sobral, lamentavelmente fui incumbido de lhe dizer que o senhor não integra mais nosso quadro de funcionários.
- O quê? Como é? - a irritação deu lugar à confusão.
- O senhor está demitido, Seu Sobral. Passe no departamento de pessoal para assinar a rescisão. A secretária lhe informará sobre o valor que tem a receber.
- Mas vocês não podem me demitir! Trabalho aqui há doze anos! Sou o funcionário mais antigo! Preciso desse emprego! Tenho família pra sustentar!
- Seu Sobral, não torne as coisas mais difíceis. Saia, por favor. - o gerente abriu a porta.

Sobral não foi ao departamento de pessoal. Seguiu para o morro, precisamente ao barraco de Tonho Caolho, o gerente do tráfico local. Antes de entrar foi abordado pelo soldado de chinelos havaianas, bermudão e camisa do Flamengo, com um AR-15 pendurado no ombro. A bandoleira parecia grande demais, o cano da arma quase encostava no chão.
- O que tu quer aqui, Seu Sobral? - o menino tinha sido vizinho de Sobral, mudara-se para um barraco melhor depois que começara a trabalhar no tráfico.
- Quero falar com o Caolho.
- E o que tu quer com ele?
- Comprar uma arma.
- E pra que tu quer uma arma?
- Coisa minha.
- Aí, se tu quiser eu tenho uma 9. Tá novinha, olha aqui. - tirou a pistola da cintura, uma Glock 9 mm, entregou a Sobral.
- Quanto você quer na arma?
- Olha, se fosse pra outro, eu ia pedir mais, mas como é pra tu que é sangue, vou fazer um preço legal. Me dá trezentos e tá tudo certo.
- Segura aí. - Sobral pagou. Havia recebido seu pagamento no dia anterior. Aquele dinheiro seria para fazer compras no mercado e pagar a farmácia. Seria.
- Também preciso de algemas.
- Vai brincar de polícia, tio?
- Não. Vou brincar de juiz.
- Ah, tá. Tenho aqui uma que roubei de um polícia que quebrei.
- Quanto é?
- Né nada não, tio. Tenho outras.
- Valeu.
- Já é... Olha lá o que tu vai fazer com isso, hein, tio?

Silveira olhou o relógio. "Opa! Hora do almoço." Nem precisava conferir as horas, seu estômago era tão metódico quanto o próprio Silveira, cuja alcunha, pronunciada entredentes pelos funcionários do supermercado, sempre que ele passava com sua costumeira expressão de fastidiosa insatisfação, era "O Redondo", uma claramente irônica alusão à sua obesidade combinada com sua mecânica e britânica pontualidade. Trancou a porta de seu escritório; como de hábito, girou a maçaneta três vezes para conferir. Depois, aproximou-se de Joana, a fiscal de caixa, dizendo-lhe as mesmas palavras que, invariavelmente e há mais de três anos, dizia todos os dias: "Joana, vou almoçar. Se tiver algum problema que não consiga resolver, me ligue. Você tem meu número?" A fiscal repetiu a resposta de sempre: "Tenho. Bom apetite." O gerente caminhou até o estacionamento, entrou no carro, introduziu a chave na ignição. Antes de acionar a partida, sentiu algo frio em sua têmpora e ouviu uma voz grave e nervosa: "Não grite, não faça nenhum movimento brusco, não seja burro se não quiser morrer aqui mesmo. Sem sair do carro, vá para o banco do carona, bem devagar." Era uma pistola. Era Sobral. Era Sobral com cara de mau apontando-lhe uma pistola e ditando-lhe ordens. Trêmulo, obedeceu. Sobral entrou no automóvel, colocou algo no banco traseiro e, com a arma apontada para a cabeça de Silveira, passou-lhe as algemas. "Coloque no braço, bem devagar." Assim fez. Sobral colocou a outra, comprimindo ambas. "Tá muito apertado!" "Cala a boca, porra! Quem te autorizou a falar? Caralho, por que o banco tá molhado? Você molhou as calças, seu covarde filho da puta?" Sobral deu a partida e manobrou o carro, direcionando-o para a saída. "Não tente nenhuma gracinha senão te encho de bala. Não tenho mais nada a perder." O trânsito, àquela hora do dia, estava bastante intenso. Silveira permaneceu calado até acessarem a Estrada do Joá. "Para onde você está me levando?" "Para sua casa." "O que você quer na minha casa, Seu Sobral? A bronca do senhor é comigo, deixe minha família em p..." O bofetão impediu a conclusão da frase, um filete de sangue escorreu do nariz de Silveira, passou por seus lábios e gotejou na camisa branca de seda. "Olha o que você fez! Não mandei calar a porra da boca, caralho!? Dá um jeito de limpar essa sujeira! Vou repetir: se algum polícia parar o carro, dou um tiro na sua cabeça. E pára com essa porra de 'Seu Sobral', ô caralho!" Silveira, com dificuldade, retirou o lenço do bolso da camisa, limpou o sangue do rosto. A mancha na camisa não havia como limpar. Trafegaram mais alguns quilômetros, em silêncio. À certa altura, Sobral parou o carro às margens da via, em um local onde não podiam ser vistos pelos demais motoristas. Desligou o motor, retirou a chave da ignição. Estavam à beira de um despenhadeiro. O sol de meio-dia refletindo seus raios na água azul do mar proporcionava um exuberante e ofuscante espetáculo. Mas Sobral não estava ali para admirar as belezas naturais do local. Tinha uma tarefa a cumprir. Sempre apontando a arma, saiu do automóvel e ordenou: "passe para o banco do motorista!". Silveira, antevendo o pior, demorou a atender à ordem. "Anda, porra! Não tenho o dia inteiro!" O gerente, suando em bicas, volveu o corpo para o assento esquerdo. Sobral tirou algo do bolso da calça, entregando a Silveira. Um tubo de cola Super Bonder! "Agora, tire a tampa e passe nas mãos. Nas duas!" "Olha, Seu Sobral, por favor... Sei que fui duro com o senhor... Mas não é nada pessoal, o dono da empresa mandou enxugar o quadro de funcionários... Ordens são ordens, eu tinha de cumprí-las..." "Isso! Ordens são ordens! Então cumpre a minha ordem e besunta as mãos de cola! Anda, porra! Ou prefere levar um pipoco na cabeça?" Silveira, chorando copiosamente, passou a cola nas mãos. Sobral retirou mais dois frascos do bolso. "Toma! Passa mais!" O gerente esvaziou os tubos. "Agora, agarra o volante, segura bem firme!" "Não faça isso, Seu Sobral... Por favor, eu imploro! Tenho família!" "Ah, você tem família, seu filho da puta? Por acaso você se importou quando eu disse a mesma coisa lá no seu escritório? Não! Você cagou para mim! Cagou para minha família! Como foi que você disse? Ah, sim: 'Seu Sobral, não torne as coisas mais difíceis'. Segura a porra do volante!" - brandiu a arma perigosamente. Silveira apertou o volante com força, o rosto banhado em lágrimas. Sobral aguardou alguns minutos, contornou o veículo, abriu a porta do carona e retirou aquilo que havia depositado no banco traseiro: um recipiente de plástico, verde, do tipo usado para guardar combustível, cujo conteúdo despejou no interior do carro. O forte cheiro de gasolina fez as súplicas e o pranto de Silveira aumentarem consideravelmente de intensidade: "Não faça isso, Seu Sobral! Eu devolvo seu emprego! Aumento seu salário! Dou tíquete-alimentação, plano de saúde, vale-transporte!... Uma promoção! Te dou meu cargo! Dou o que o senhor quiser, mas, por favor, não faça isso!" Sobral acendeu o fósforo. "Isso é pelo bem da empresa, 'Seu Silveira'. O senhor, com sua atitude agressiva e pedante, perseguindo e humilhando os funcionários, mesmo os mais dedicados, não agrega valor ao nosso negócio. Lamentavelmente, fui incumbido de lhe dizer que... o senhor está demitido! Nos vemos no inferno, babaca!" "Não! Não! Nãããão!" Sobral lançou o fósforo, as chamas rapidamente espalharam-se pelo interior do automóvel. Silveira gritava horrivelmente. Sobral empurrou o carro para o precipício. Ouviu a explosão, mas não ficou para assistir ao show pirotécnico. Célere, correu até a estrada, à margem da qual já alguns curiosos paravam seus veículos e olhavam a fumaça com aquela cara idiota típica dos curiosos. Como sempre acontecera ao longo de sua vida, sua figura franzina, comum, passou despercebida. Aproveitando-se do trânsito lento, embarcou num ônibus com destino à Barra da Tijuca.
- Parece que o acidente foi feio. - comentou o cobrador.
- É. Parece.

"Sobral!"
- Porra, lá vem você de novo com essa brincadeira idiota. - tapa - rebola essa bunda, vai, minha vadia gostosa. - imobilidade - puta que pariu! Eu já tava quase gozan... Sobral!... - estupefação - eu posso explicar...
- Cala a porra dessa boca! Já matei um hoje, pra matar outro não custa. - mirava o lado esquerdo do tórax de Tião, sem tremer, firme, impassível, sem pensamentos, sem sentimentos.
- Eu não tenho culpa! Ela que quis me dar! Eu sou homem! - lençol urinado.
- Você é um grandessíssimo filho da puta covarde, isso que você é! - enfezou-se Elvira, esquecendo-se, momentaneamente, do perigo maior.
- Já mandei calarem a porra da boca! - silêncio sepulcral.
- Chupa ele! - tapa na cabeça, segundos de olhar atônito - chupa o pau dele, vagabunda! - novo tapa na cabeça, mais forte.
- Mas, Sobral...
- Caralho! Você é surda ou o quê? Não vou falar de novo: CHUPA A PORRA DO PAU DESSE FILHO DE UMA PUTA!!!
Elvira cai de boca. Chupa, lambe, chora, lambe, chupa, chora. Apesar do medo, o pênis de Tião começa a retesar-se, Elvira era imbatível na nobre arte da felação. Após alguns minutos, Sobral retirou algo do bolso da calça... Um tubo de cola! Puxou Elvira pelos cabelos.
- Ai!
- Agora, esvazia isso no pau dele!
- Mas, Sobral, isso é cola!
- É mesmo? Não brinca. Tem certeza? - tapa na cabeça - passa logo essa porra no pau desse viado antes que amoleça! Rápido ou te dou um tiro na cara, sua piranha! - mais um tapa.
Elvira descarregou o tubo de cola no pau de Tião, que amolecia a olhos vistos.
- Agora senta em cima dele!
- Mas... - porrada.
- SENTA NA PORRA DO CARALHO, CARALHO!
Ela sentou. A queimação na vagina, provocada pela super-cola, produziu ainda mais lágrimas. Quanto a Tião, parece que a ação causticante do ultra-adesivo surtiu um efeito afrodisíaco: o pau, de tão duro, latejava nas entranhas de Elvira. "Agora sim! Não gosta de foder, puta? Agora vai ter sempre um pau na boceta. E ainda pode dar o cu e chupar o pau dos outros machos filhos-da-puta. Eu não sou um bom marido? Responde, cadela!" - tapa na cara, mais lágrimas. "É..." Sobral amarrou Elvira em Tião e ambos na cama. Usou panos de prato para amordaçá-los. Quedou-se algum tempo fitando os corpos nus e seus rostos suplicantes. Subiu na cama, posicionou-se sobre eles, flexionou as pernas, encostou o pênis no ânus de Elvira, segurou seu queixo, forçando a cabeça para o lado até seus olhos se encontrarem. Voz gélida, tom baixo, disse: "Eu não sou um bom marido." E cravou-lhe o pênis, de uma só vez, no reto. Meteu, meteu, meteu, sem dó, até ejacular, um gozo raivoso, intenso, remissivo. Ainda arfante, introduziu o cano da arma no ânus de Elvira e atirou. Ela estremeceu e passou a debater-se. Mas não era ela, era Tião que tentava, em vão, livrar-se das amarras, enquanto emitia sons roucos e surdos. Dois tiros na cabeça e cessaram as convulsões. Sobral olhou os cadáveres, o sangue enrubescia o lençol branco e formava uma poça no piso de ardósia. Vomitou. Nauseado, lavou o rosto na pia da cozinha. Retirou do armário alguns frascos de álcool e um tubo de tinta spray. Letra de imprensa, escreveu na parede: "OS ALEMAO TRAIDOR TEM QUE MORRER. CV". Esvaziou os frascos de álcool sobre os cadáveres e os móveis do quarto. Ateou fogo. Foi-se.

Caju. Cemitério São Francisco Xavier. 09:30 h. Chuva fina. Frio. Melancolia intermitente entrecortada por ruídos de motores e buzinas. Seis pessoas com trajes e óculos negros observam o esquife, confeccionado em madeira de lei e finamente ornamentado com cruzes douradas, ser devorado lentamente pela grande boca escancarada e sem dentes, enquanto ouvem, em silêncio, o salmodiar do clérigo: "O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos..." À cabeça de Sobral, sobreveio a lembrança do encontro, há semanas, com o crente filósofo maluco beleza e o papo do pó. Papo-meio-cabeça, total e interessantemente confuso, que oscilava entre a sina telúrica e inevitável do homem, a insustentável leveza do ser, o paralelo existente entre as grandes corporações multinacionais e os cavaleiros do apocalipse, o mito da caverna de Platão, a comunhão plena com o cosmos, a racionalização esdrúxula do prazer, a viagem astral por meio da cocaína e "do pó vieste, para o pó voltarás". Um baque surdo o fez sair de seus devaneios, a roldana pela qual passava a corda que sustinha uma das extremidades do caixão havia se soltado do eixo. O féretro, de qualidade, resistiu. O coveiro da outra ponta tratou de acelerar a descida. Durante o tradicional arremesso de cal, Sobral viu aproximar-se o Senhor Gustavo Araújo Pompeu de Menezes e Albuquerque, o todo-poderoso fundador e sócio majoritário da Rede Happy Client de Supermercados. Parou à beira da cova, lançou um olhar vazio, inexpressivo, para baixo, para o fundo. Sobral aproximou-se, postando-se ao lado de seu ex-patrão.
- Uma grande perda... (suspiro) Aí está um homem de quem se pode afirmar, sem receio de errar, que amava seu trabalho, um homem cujas idéias, indubitavelmente, agregavam enorme valor à empresa, um homem que não media esforços para atingir as metas propostas, que defendia apaixonadamente os interesses da empresa, um homem que dedicava-se, quase exclusivamente, ao seu trabalho, ainda que tal dedicação demandasse sacrifícios em sua vida pessoal. Enfim, um homem insubstituível. Quem poderia ocupar o lugar de tamanha competência?...
- Qual é mesmo seu nome?
- Sobral.
- Há quantos anos o senhor trabalha conosco, Sobral?
- Doze anos.
- Bem... Tenho uma proposta a lhe fazer... Se preferir, não precisa me dar a resposta agora... Funcionário Sobral, o senhor aceita o cargo de gerente do supermercado?
- Sim, aceito.
- Ótimo. Apresente-se amanhã, pela manhã, no Departamento de Pessoal.
- Sim senhor.
Sobral foi o último a afastar-se do sepulcro. Antes, precisava dar o adeus derradeiro a Silveira. Correu os olhos em torno para certificar-se de que estava só, voltou as costas, abaixou as calças, abriu e rebolou a bunda cabeluda na direção do túmulo do finado gerente. Nauseabunda e ruidosamente, peidou. Corpo e consciência leves, sorriso nos lábios, ganhou a rua, diluiu-se na turba. Indiferente, insensível e barulhenta, a cidade entardecia.

Carlos Cruz - 10/04/2009

segunda-feira, 13 de abril de 2009


O Inquérito



Empedernidas, inexoráveis, ameaçadoras. Volitavam ao seu redor. Centenas, talvez milhares. De quando em vez, intermitentemente, uma delas desprendia-se da revoada e arremetia, num rasante. Romualdo esquivava-se. Por fim, enfastiado e exausto, decidiu seguir o conselho de seu amigo, o vereador Aristides Hepaminondas: "Quando houver muitas caralhas voando à sua volta, pegue uma e enfie no cu. As outras irão embora, à caça de outros cus para penetrar." Fitou o céu que voltara a ficar azul. Certamente, sentir-se-ia aliviado, não fosse aquela coisa, incômoda e pulsante, alojada em seu reto. Prometeu a si mesmo, pela centésima vez, abandonar a Política.

Carlos Cruz - 17/12/2007

quarta-feira, 1 de abril de 2009


Sabatina Silvestre



Só. Sábia, a sabiá sabia safar-se das sandices dos safados sicofantas. Só. Sonhos suaves e sonoros sonhava sua santidade sacripanta. Só. Sagrados sortilégios soluçava de soslaio. Só. Sobressaía sobremodo sua silhueta sinuosa. Só. Sentava-se, sorvia e soprava o saxofone soprano. Só. Sentia-se surda, solitária e sem sorte. Só. Sensata, solfejava satisfeita sua sina selvagem e sarnenta. Só. Somatizava a surdez dos suados e secos sacos de saliva. Só. Sazonava simplórias siriricas sem sal, sem sabor. Só. Silicones sem seios. Só. Stacatos sorrateiros. Só. Sindicatos solidários. Só. Sorumbáticos sorridentes. Só. Sábados sem sol. Só. Silvos sem som. Só. Serafins sem sexo. Só. Sifões semeavam serpentes sagazes. Só. São Sebastião servia sarapatel com sermão. Só. Saúvas saudáveis sangravam silêncios. Só. Solidão. Só solidão.

Carlos Cruz - 31/03/2009

terça-feira, 17 de março de 2009



Reclamação


"Ajude-me, Pai!" - clamou ao firmamento, face contrita, fronte rugosa, o decrépito pedófilo, ao ouvir a sentença gutural e irrecorrivelmente capital do ancião de maneiras afetadas, refinada e negra estampa, cabalmente acompanhada pelos implacáveis golpes do bem-talhado macete.
Renovou a súplica, com lacrimosa veemência, do alto do patíbulo, alheio às gargalhadas zombeteiras da multidão ensandecida, azafamada e aflita pelo desfecho mórbido do espetáculo burlesco. Nem a constrição nem o desconfortável prurido produzido pela corda cercearam o movimento de seus olhos rumo aos altos céus.
Os pais reafirmaram aos filhos a plena realização da Justiça Divina. Citadino não houve, dentre os que presenciaram a macabra atração, que considerasse a concomitância entre a reiterada deprecação do condenado, a alada e longínqua defecação do abutre, a milimétrica e fétida precisão da carga excretória e a fatal abertura do alçapão, apenas uma coincidência. Ao cair da noite, recolheram-se todos. Rezaram. Adormeceram. Sonharam lindos sonhos brilhantes.
O velho, sob o cadafalso, permaneceu alguns dias. Suspenso, balouçante, andrajoso, putridamente nauseabundo. Depois, vieram os abutres.

Carlos Cruz - 17/03/2009

sexta-feira, 13 de março de 2009


Ininteligibilissimamente



Otorrinolaringologista
Úteros, gargântulas, tarântulas vivas
Lutas acirradas, palavras-objetos
Tudo junto num átomo gigantesco
Íncubus, angelicais, súcubus
Minimalista-macrobiótico-estereofônico
Onde estarão os santos hominídeos?
Auscultam a tristeza que grassa a populaça
Batidas tênues de corações volúveis
Egos esfacelados em vidas medíocres
Nulidade, niilismo das massas insossas
Catedráticos do Nada-absoluto
Encantamentos sortilegíricos
Rastejantes rastas rasteiros
Ramificados em pontiagudos e pífios e putrefactos
Acéfalos Búfalos Bills
Gerânios ressequidos de vazios e tépidos sóis
Ergam-se! Libemos o antídoto da Sabedoria!

Carlos Cruz - 21/01/2007

terça-feira, 3 de março de 2009


Cinzeiros (da série "Úteis & Fúteis")



Execro pensamentos bestas deflagrados por comentários idiotas de pessoas e objetos imbecis que nada sabem acerca de mobilidade e calor. Minha vida inexistente permeada sempre foi e será de movimento, emoção, energia, sentimento e aventura. Pra lá e pra cá, no vai-e-vem, acompanho, sempre calado, o ritmo, por vezes frenético, por vezes "piano" dos fumacentos humanos a soprar os fumos dos fumos coados e escoados por seus pulmões azeviches. Curto os calores, dos homens, dos fumos. Tem os cubanos, fedor assaz, calor demais, fumante loquaz. Tem os mentolados, aspirados por viados de olhos amendoados e mancebos amancebados com encéfalos desvairados. Tem os baratos sem filtro, subproduto destinado ao mercado interno cognonimamente chamado populacho. Tem variegados mais além. Malgrado malgrados, com grado ou sem, vêm todos a mim, aquecer-me, inocular-me vida das e de cinzas. Tão-só peço que me não peçam que aprecie ébrios. Atabalhoados, dificulta-lhes sobremaneira manter-me preso entre os dedos. Invariavelmente, deslizo por suas frias mãos úmidas. Destroço-me com estardalhaço. Grito, mudo, ao surdo mundo imundo rotundo. Desprovido de som e de forma, encerro meus dias de glória no fétido lixão. Sina ingloriosa. Vilipêndio de cadáver. Absoluto desrespeito. Sacrilegio o destino de meus algozes: apinhados de tubos, sarapintados de manchas, amarelecidos, macilentos, estúpidos, fumarão à sorrelfa, aspirarão a desgraça através de diminutos buracos na traquéia, olhos buliçosos e néscios. Nostálgicos, súplices, buscar-me-ão. Em vão.

Carlos Cruz - 28/02/2009

sábado, 28 de fevereiro de 2009


Bebedouros (da Série "Úteis & Fúteis")



Reflexivamente reluzente e belo em sua saciadora letargia, a refletir em sua chapa de aço inoxidável as imagens dos homens inoxidáveis que, malgrado ir e vir e vir e ir, declinam apáticos e patéticos quando se inclinam em sedenta reverência, com seus ternos alinhados e suas gravatas em forma de forca, a bebericar o manancial de líqüido aquosamente fluoretado, colhido em meio à profusão de lixo residencial e industrial, peixes mortos sufocados e excrementos humanos e animais, ainda que, de quando em quando, uma menina bonita - sorri, metalicamente terno - ou uma linda mulher concupiscentemente decotada - curto-circuito! fogo! - debrucem-se sobre ele.

Carlos Cruz - 16/02/2009

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009


O Encantador de Serpentes



Graças aos reiterados elogios, exclusiva e curiosamente advindos de pacientes do sexo masculino, o hipnoterapeuta gay recebe o "Psi de Ouro", o prêmio máximo da psicoterapia. Finda a cerimônia, um risonho convidado, ex-paciente do terapeuta do ano, expõe ao interessado repórter as razões de sua satisfação com o eficaz tratamento: "Não conseguia dormir, tinha horríveis pesadelos. Logo na primeira consulta com Dr. Aristides, percebi algo diferente ao despertar do transe hipnótico. Saí leve do consultório, como se os fluidos maléficos, que impediam meu sono, tivessem sido sugados de meu corpo; tinha uma dorzinha chata no saco, é verdade, mas logo cessou. Passei a dormir como um anjo, nunca mais tive pesadelos, apenas sonhos deveras agradáveis com a Juliana Paes... Dr. Aristides sempre aparece nos meus sonhos, todo sorridente. O mais engraçado é que nunca achei a Juliana Paes uma mulher sexualmente interessante..."

Carlos Cruz - 15/02/2009

domingo, 15 de fevereiro de 2009


Trema, alcaguete!



Embora tremendamente assustado, embora não pudesse evitar o tremor de suas pernas e mãos, embora o suor copioso despencasse testa abaixo e lhe embaçasse a visão, embora a luz tremeluzente emitida pela balouçante lâmpada suspensa no centro da cela obscurecesse ainda mais suas esperanças de sobrevivência futura, embora desejasse ardentemente ir embora, embora silenciosamente maldissesse a voz de sua consciência que o persuadira a confessar sua condição de mandante e, de quebra, a delatar o mercenário pistoleiro que lhe restituíra a honra devidamente lavada com o sangue da adúltera sórdida e do amigo hipócrita, o velho gramático não pôde deixar de pensar na famigerada reforma ao observar o malfadado cartaz de más-vindas que, da parede, aflitivamente tremulava a inexorável e irrecorrível sentença: "Alcaguete merece cacete!"

Carlos Cruz - 15/02/2009

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009



O Terceiro Olho ou Exame de Vista (Poema Concreto Místico-Proctológico)


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---a-----n----u-----s----c-----o-----p----i----a-------
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Carlos Cruz - 21/08/2007

Obs. Tive de lançar mãos dos hífens em virtude de minha total ignorância "informatativa".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009


A Faixa de Gaze



Alvejada, mas não perfurada. Atingida, mas não lesionada. Explodida, mas não estilhaçada. Transtornada, dilacerada, enlouquecida, a filha de Allah - o clemente, o misericordioso - empenhava-se em atar os pedaços do pequeno Ahmed, recolher ao causticado ventre exposto as vísceras esparramadas, unir aquilo que o míssil enviado pelos filhos de YaHVeH - o clemente, o misericordioso - havia desagregado, esperança desesperada e insana de genetriz. Por fim, desmoronada, vencida, a mulher lançou de si a rubra atadura, que revoluteou, antes de imergir no profundo, revolto mar de fogo, lágrimas, sangue. Não longe dali, uma sinagoga, um rabino lê a Torah.

Carlos Cruz - 29/01/2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009


O Tombo



Caminhava tranqüilamente na calçada quando ouviu estampidos de fogos e tiros oriundos do morro ao lado. Apertou o passo. Em seguida vieram o tropeção, a queda e o palavrão. Ergueu-se e viu o responsável pelo tombo: o saco de pó branco. Sem saber bem o porquê, apanhou o pacote e guardou na mala.
Horas depois, na roda de amigos, entre chopes e gargalhadas, narrava o ocorrido. Foi quando um deles proferiu a fatídica pergunta:
- Quer vender?
Nascia um novo traficante.

Carlos Cruz - 01/02/2008

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008


Raimunda



Raimunda era uma mulher infeliz, muito infeliz. Obrigada a passar os dias reclusa, trancafiada em seu pequeno quarto sem janelas, longe dos olhares curiosos dos vizinhos e parentes. A única pessoa com quem tinha contato era sua mãe. Diariamente, Dona Jurema levava-lhe as refeições e passava alguns minutos na companhia dela, em silêncio. Não havia espelhos no quarto. Raimunda sabia o porquê. Nascera com um defeito congênito, um defeito que fazia dela um ser bizarro, diferente, uma anomalia ambulante: tinha cara de bunda e bunda de cara. Isso mesmo, por alguma razão que só Deus - ou o Diabo - sabiam, seu corpo havia se formado com essa estranha inversão. Só essa. O resto estava todo em seu devido, anatômico e fisiológico lugar. Ou quase. Em seu rosto ou, melhor dizendo, em sua bunda que ficava no lugar onde deveria estar o rosto, havia aquilo de que toda bunda é dotada: um ânus. É. Raimunda não tinha só cara de bunda, tinha cara de cu.
O parto de Raimunda deu um tremendo trabalho à Dona Sebastiana, a parteira. Trabalho e um baita susto. Por pouco, ela não caiu desacordada sobre o ventre da paciente quando viu brotar de suas entranhas aquela coisinha miúda, sem cabelos e provida de um rechonchudo par de glúteos no lugar onde deveriam estar olhos, boca e nariz. Saiu desabalada porta afora quando, ao procurar a origem daquele choro agudo, deu de cara com aquele rostinho angelical, de bochechas coradas e olhinhos azuis. Dir-se-ia um lindo rosto se acaso não estivesse situado em local tão impróprio. A carreira da parteira terminou em tragédia sob as rodas da carreta carregada de cuecas e calcinhas, contudo, tão desventuroso destino mostrou-se oportuno àquele pequenino ser humano recém-vindo ao mundo dos humanos humanos e desumanos: preservar-se-ia o segredo. Sabe-se lá por quantas mãos de especialistas-cientistas-curiosos Raimunda não teria de passar caso seu caso fosse dado ao conhecimento geral. Mas isso não aconteceu, Dona Jurema guardou muito bem guardada, trancou muito bem trancada a razão de seu infortúnio: Raimunda, a bela menina com cara de bunda.
Raimunda cresceu. Aos dez anos, quando começou a fazer suas necessidades defecatório-fisiológicas sozinha, tinha enorme dificuldade em acertar o vaso sanitário. Acabava sempre cagando no chão do banheiro e na tampa do vaso. Se estivesse com diarréia, então... era merda para todo lado. Com o tempo e a prática, foi-se adaptando ao mundo que não havia sido projetado para ela.
O tempo passou, Raimunda chegou à maioridade, imersa na solidão melancólica de seu quarto, cujo mobiliário era modesto como sua vida: uma cama de solteiro, um criado-mudo, uma estante com alguns livros e um aparelho de televisão com imagem em preto e branco, sua única janela para o mundo. Gostava de novelas e filmes românticos. Apaixonou-se um sem número de vezes por um sem número de atores. Numa fria noite de inverno, descobriu seu especial interesse por homens narigudos, enquanto assistia ao filme Cyrano de Bergerac, protagonizado por Gérard Depardieu. Era romântica, sonhadora, amava a vida com ardor, ainda que não soubesse o que era a vida além daquelas quatro paredes.
Certo dia, Raimunda sentiu um forte cheiro de perfume e ouviu uma voz masculina advinda de outro cômodo da casa. Pelo teor da conversa e os risos abafados, parecia que mamãe tinha arranjado um namorado. Sairiam para jantar. Raimunda esperou. Quando ouviu a batida surda da porta principal da casa e o subseqüente silêncio, tratou de movimentar a maçaneta. A porta abriu! Sua mãe, provavelmente sob o efeito do frenesi causado pela expectativa de estar novamente com um homem, havia esquecido de trancar a porta do quarto. Finalmente, após longos dezoito anos, Raimunda saberia como eram as coisas do lado de fora de sua prisão. Foi andando de costas, de modo a ver por onde andava. Conheceu o quarto de sua mãe, a pequena cozinha, o banheiro, a sala. Voltou à cozinha, vira algo que lhe chamara a atenção. A porta! Havia uma chave no interior da fechadura. Girou a chave, a maçaneta e... ar puro, finalmente! O frescor da atmosfera noturna atingiu em cheio seu rosto. Quedou-se vários minutos respirando aquele bendito ar. Por que sua mãe a havia privado disso por tanto tempo? Ensaiou um primeiro passo porta à fora e recuou, o medo do desconhecido a atingiu em cheio. Como um animal que permanece muito tempo enjaulado, foi tomada do receio de abandonar a segurança de sua cela. Sabia que era arriscado sair porquanto sabia que era uma mulher diferente, suas mãos, seus olhos e o monitor do televisor desligado lhe mostraram o que sua mãe tanto esforçou-se por lhe ocultar. Mas o desejo de liberdade, a curiosidade, a vontade de ver ao vivo e a cores tudo aquilo que assistira em cores neutras na tela do pequeno eletrodoméstico falaram mais alto. Hesitantemente, deu alguns passos no quintal de sua casa. Chegou ao portão que dava para a via pública. Estacou. Era o passo mais difícil. Respirou fundo. Puxou o trinco. Escancarou o portão. Estava na rua. Estava livre.
Caminhou devagar, deslumbrando-se com cada casa, cada prédio, cada árvore, cada poste, cada letreiro luminoso que encontrava ao longo da calçada. Na primeira esquina, descobriu o mal que habita a alma humana. Uma gangue de skinheads, ao redor de um latão em chamas, planejava seu próximo ataque em prol da supremacia branca. Raimunda tentou retroceder, mas era tarde: haviam-na avistado. Pensou em correr, mas o medo e a convicção de que não desenvolveria suficiente velocidade paralisou suas pernas. Limitou-se a virar-se de costas e fechar a abertura do manto com zíper, tapando seu rosto. Usava um manto negro, uma espécie de burka, que cobria seu corpo da cabeça aos pés. Sentia uma forte pressão, um turbilhão no estômago, como se lá houvera uma cambada de gatos em conflito. A gangue aproximou-se, rodearam-na. O mais alto, que parecia ser o chefe, disse:
- Ora, vejam só. Uma muçulmana perambulando sozinha nas ruas a uma hora dessas. Mamãe não te avisou que isso é perigoso, moça?
Raimunda não respondeu, todos os pêlos de seu corpo eriçaram-se, o estômago dava voltas e voltas, a pressão recrudescia perigosamente.
- As ruas estão cheias de indivíduos malvados que adorariam encontrar uma muçulmanazinha indefesa para distraí-los.
- Deixa a gente foder ela, chefe! - pediu um careca baixinho.
- Calma aí! Primeiro vamos ver a cara dessa puta.
No mesmo instante em que o chefe dos carecas arrancava, de supetão, o manto de Raimunda, ela perdia a batalha contra seu estômago. O jorro diarréico atingiu em cheio o rosto do líder do grupo, cobrindo-o de merda de cima a baixo. Ao ver Raimunda do jeito que viera ao mundo, os espavoridos carecas debandaram, atropelando-se uns aos outros, aos gritos de "alienígena! alienígena!"
Raimunda usou as páginas de um livro - Mein Kampf - que um dos skins havia deixado cair na fuga, para limpar-se. Vestiu-se. Recompôs-se. Pensou em voltar para casa mas ouviu música. Decidiu verificar a origem do som, a vitória sobre os carecas incutira-lhe confiança no espírito. Era um circo. Ela vibrou! Sempre quisera assistir a um espetáculo circense. Mas, com aqueles trajes, andando de costas e sem dinheiro para o ingresso, como entraria? Teve uma idéia. Esgueirando-se furtivamente em torno da tenda, encontrou um pequeno rasgo, por onde, ainda que com apenas um olho, podia ver o que se passava lá dentro. E o que viu fez seu coração palpitar: um homem baixinho, com pernas onde deveriam haver braços e braços onde deveriam haver pernas, fazia malabarismos com bolas e pinos, enquanto um palhaço de duas cabeças discutia e dava tapas em si mesmo, arrancando gargalhadas da platéia. Então, havia outros como ela! Não era a única diferente, a única anomalia ambulante na face da Terra! Continuou a assistir ao espetáculo. Viu trapezistas com quatro braços e quatro pernas, com pés no lugar de mãos e mãos no lugar de pés; um homem que não tinha olhos nem nariz, só uma enorme boca com a qual engolia quarenta e cinco espadas ninja; uma mulher gorda que peidava fogo, parecia um lança-chamas humano; outra que possuía vinte e dois seios ao longo do corpo, dava de mamar a vinte e duas crianças; o homem-galinha, que tinha penas, bico, cacarejava e comia milho. Por fim, o apresentador anunciou a atração principal da noite:
- Que rufem os tambores!... Respeitável público, El Gran Circo De Los Horrores tem o prazer de lhes apresentar o astro maior de nossa companhia, ele já foi político, juiz, empresário, escritor, ator de filmes eróticos, servidor público, policial, jornalista, michê, rufião, modelo vivo, operário em fábrica de preservativos, ele não precisa matar a cobra para mostrar o pau, ele ajoelha para rezar e também para mijar, ele não é metafórico, não usa Jimo Cupim, ele é dotadão, ele é... Ni-co-lau, o Ca-ra-de-pauuuuu!!!
A explosão de aplausos acompanhou, sincronicamente, os batimentos cardíacos de Raimunda. A taquicardia somada ao calor que lhe assomou ao corpo não deixava dúvidas: fora atingida pela seta inflamada do Cupido. Com o coração aos pulos, sem piscar os olhos, assistiu ao número do homem moreno, alto e musculoso que exibia, despudoradamente, um avantajado e portentoso pênis ereto no exato lugar onde deveria estar o nariz. O homem ergueu toalhas encharcadas, bolas de ferro, alteres, anões obesos e outras pesadas coisas mais com o pênis. Foi suspenso por uma corda amarrada ao bilau e voou sobre as cabeças dos boquiabertos espectadores. O gran finale consistia numa espécie de arremesso de porra à distância: o homem tinha de acertar um pequeno balde posto a uns cinco metros de onde estava. Silêncio total na platéia, momento de expectativa, tambores em pianíssimo. Alguns fotografavam, outros filmavam. O homem masturbou-se, masturbou-se, masturbou-se e... veio a primeira golfada de sêmen. Subiu, subiu, subiu - ninguém respirava - depois, em curva descendente, desceu, desceu, desceu e voilá! Acertou o centro do balde, sem respingar sequer uma gota no picadeiro. O público foi ao delírio, palmas, assovios, uivos, gritaria, algazarra total. Mas, decerto, ninguém vibrou mais que Raimunda, seu coração, sua alma, seu corpo, seu sexo clamavam por aquele homem.
Raimunda escondeu-se atrás de uma das rodas de um dos caminhões que compunham a frota circense. Aguardou, com ansiedade, a saída do público, o recolhimento dos artistas, assistentes e funcionários, o apagar das luzes. Pé ante pé, deslocou-se até o trailler onde se lia, em letras roxas: "Nicolau, o Cara de Pau". Hesitou, à porta, por alguns minutos. "Ele vai me atender ou me enxotar? Serei bem recebida? Ele vai gostar de mim?" Entretanto, essas dúvidas, esses temores naturais não vingaram ante a chama avassaladora que devorava Raimunda. Bateu. Três batidas secas. "Quem é?" - indagou, de dentro, uma voz grave. "Meu nome é Raimunda. Preciso falar com você." - parecia que seu coração pulsava na garganta e seria cuspido a qualquer momento. A porta abriu-se devagar. Nicolau, com seu nariz-pau descomunal, agora murcho, ficou olhando para os cabelos de Raimunda. "Aqui embaixo." Nicolau baixou os olhos, a glande roçou seu umbigo. Seus olhos se encontraram, tudo dependia daquele encontro de olhares, da mensagem muda que seria mutuamente transmitida. Gostaram do que viram. Nicolau sorriu, Raimunda sorriu. "Posso ajudá-la?" "Desculpe incomodá-lo a essa hora. É que assisti ao espetáculo e gostei muito da sua apresentação." "O que é isso? Incômodo nenhum. Entre, por favor." Raimunda não conseguia parar de sorrir. "Sente-se, fique à vontade. Aceita um uísque, uma cerveja, um refrigerante?" "Uma cerveja, por favor. E prefiro ficar em pé, se sentar, não conseguiremos conversar, você compreende?" "Oh, claro. Desculpe-me. Vou pegar as cervejas." Conversaram e beberam durante horas, cada qual contou sua história. Nicolau, que tinha o dobro da idade de Raimunda, disse-lhe haver descoberto a inexistência da normalidade humana, todos, absolutamente todos os homens tinham algum defeito, fosse no corpo, na mente, na alma ou no coração. "Há homens que, embora possuidores de um físico perfeito, apresentam toda sorte de defeitos morais, são homicidas, sociopatas, egoístas, avarentos, corruptos, degradados, dissolutos, ladrões, invejosos, estelionatários, escroques, a lista é gigantesca. Perto desses homens, somos as pessoas mais lindas e sãs de todo o mundo." - argumentou Nicolau. "Por falar nisso... Como você é bonita." Raimunda corou, mas não se esquivou do beijo. Percebeu que algo se mexia no rosto de Nicolau, era, obviamente, o pau, que crescia e endurecia assustadoramente. Mas Raimunda não se assustou, pelo contrário, entregou-se por inteiro àquele homem diferente, lindo e perfeito que a fez descobrir a beleza e a perfeição de sua própria diferença. Raimunda, nessa noite mágica, tornou-se uma mulher feliz, muito feliz, a mulher mais feliz do mundo.
Raimunda foi contratada pelo dono do circo e ganhou um papel de coadjuvante no número de seu companheiro. Enquanto ele faz seus malabarismos e acrobacias penianos, ela toca Brasileirinho numa flauta especialmente projetada para seu ânus. Devido ao aumento do consumo de refrigerantes e outras beberagens gasosas fundamentais ao bom desempenho de seu mister, ganhou alguns quilos. Perdoou Dona Jurema, que sempre vem visitá-los e trás cuscuz, o doce predileto de Raimunda. Para que a felicidade se tornasse completa, só faltava um rebento, um Nicolauzinho ou uma Raimundinha. Mas, nem um nem outra, há pouco mais de uma semana, nascia en El Gran Circo De Los Horrores uma linda menina, alegria da família, xodó da vovó, futura atração circense, a pequena, fofa, vermelha, testuda e peluda Julieta.

Carlos Cruz - 25/12/2008

domingo, 21 de dezembro de 2008


O Perfume



O odor písceo emanado de vaginas sujas excitava-o sobremodo. Muitas sessões de análise depois, descobriu que tal pulsão era perfeitamente aceitável porquanto natural. Era um homem normal, afinal. Exultante, foi ao supermercado comprar cerveja. Ao passar pela seção de peixes, o aroma agradável do bacalhau exposto acertou em cheio suas narinas. Era véspera de Natal. Hormônios em ebulição, imediata reação. Não pôde impedir o inteiriçamento do pau nem reprimir seus desejos carnais e - agora sabia - normais!
O espanto do funcionário do supermercado deu lugar a uma estrondosa gargalhada ante aquela cena bizarra: o pobre bacalhau descabeçado era impiedosamente sodomizado pelo homem tresloucado, de rosto transfigurado e sorriso desvairado. O homem normal copulava com o bacalhau. O falo teso ardia nas entranhas do salgado animal, oriundo dos mares gelados da distante Noruega. O homem normal gozou no bacalhau. Um gozo normal.

Carlos Cruz - 17/11/2007

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


Poemoterapia



O esquizofrênico debatia-se convulsivamente à medida que o poeta, em deleite, lia seu melhor poema.

Carlos Cruz - 09/06/2007

quinta-feira, 27 de novembro de 2008


A Película ou Diálogo Porno-erótico Rebuscado



Iracundos, os velhos acadêmicos imortais assistiam ao filme pornô em preto e branco, raríssimo exemplar de um dos precursores do gênero. Ouviu-se um deles indagar:
- Não trata-se de uma película erótica? Lá se vai uma hora e não se lobriga vulva nem tampouco falo. Acaso o mancebo couto não fará com a meretriz?
- Fá-lo-á - retorquiu outro - decerto, fá-lo-á.

Carlos Cruz - 05/06/2007

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Joana Pré-cartesiana, a Voz e a Purgação Cáustica


Ouço, logo, frito.

Carlos Cruz - 25/11/2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008















Sintaxe


Sinta-se
um vate
sintético

Sinta-se
um xote
eclético

Sinta-se
um dote
disléxico

Sinta-se
um trote
estético

Sinta-se
um poste
poético

Sinta-se
um traste
benéfico

Sinta-se
um chato
esférico

Sinta-se
um santo
histérico

Carlos Cruz - 28/03/2008

domingo, 19 de outubro de 2008

Pablo Picasso
La Fuga


Recorrí las playas de arenas ardientes

quemando las plantas de mis doloridos pies

Enfrenté las olas del mar bravío

mi cuerpo azotado por el látigo hecho de agua

Subí a la cumbre de la montaña más alta

las heridas de mis manos bañaron las piedras

coloreándolas con el rojo de mi sangre

Me perdí en la selva verde y húmeda

llena de musgo y sonidos amedrentadores

Al fin, agotado por la caminata escabrosa

Me senté al suelo y sonreí

Intenté dejarte a lo lejos

escapar de tus presas de mujer felina

pero no pude resistir a tus encantos y encantamientos

ni al amor que devora mi corazón

que late, desesperado, siempre cuando mis ojos miran

tu cuerpo

Carlos Cruz - 08/10/2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008


O Deus Cadáver



Flutuava, atônito, ao redor de si. O peito doía, mais pelo pontapé em seu cadáver que pela passagem do metal incandescente. Seus volumosos códigos jaziam espalhados na via, à mercê dos passantes. A visão de sua bela toga negra, agora suja, rasgada, sacrilegamente repousada sobre o monturo de excremento canino deixou hirsutos seus pêlos ectoplásmicos. O condenado foragido, a valise, o Rolex e a carteira há muito haviam sido engolidos pelas trevas noturnais, restando, apenas, a capital sentença a reverberar em sua mente confusa, mesclada ao estampido ensurdecedor: "É, seu juiz. O senhor me fudeu aquele dia lá no tribunal. Agora, quem vai se fuder é o senhor. Quem o senhor pensou que era pra ferrar com a minha vida daquele jeito? Deus?"

Carlos Cruz - 07/10/2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008


O Ativista



Estêvão, PhD em Botânica e ferrenho ecologista, namorava à beira do lago. Diana, a namorada, ouvia, com interesse, a explanação de Estêvão acerca do crescimento, morfogênese e reprodução das algas marinhas bentônicas do Mar Báltico durante o equinócio da primavera e sua importância para o equilíbrio do ecossistema marinho. Foi quando ele lançou uma pedra nas águas do lago, atingindo acidentalmente a cabeça de um peixe, que boiou, biologicamente morto. Calado e cabisbaixo, também jogou no lago sua carteira de ativista do Greenpeace.

Carlos Cruz – 06/06/2007

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Hay que endurecerse, mi general!



Exclama a prostituta, num assomo de divertido compadecimento, diante do outrora imponente chefe da nação, que segura tristemente seu outrora empedernido - cabisbaixo, agora - órgão sexual, enquanto olha de soslaio para a cápsula azul. "Si al menos fuese roja..." - pensa, com suas insígnias e medalhas, o ex-comandante. Súbito, ergue-se, empertiga-se, apruma-se, fita a parede e solta a voz: "Compañeros del Ejército Rebelde y de las Milicias Nacionales Revolucionarias, cubanos todos: Duro y largo ha sido el camino, pero hemos caminado..." Muitas horas discursivas depois, suado, extenuado, observa, oco e sem sentimento, o corpo nu da puta adormecida, mal esculpido por implacáveis cinzéis, carregado de disformes marcas violáceas, frutos de trabalhos passados. Deixa alguns pesos sobre o criado-mudo, ao lado do pequeno rádio de pilha donde, alheio e clandestino, Mano Chao entoa "Por El Suelo". A ilha amanhece, vermelha, mais uma vez.

Carlos Cruz - 23/09/2008

segunda-feira, 22 de setembro de 2008


Réquiem de Despedida



Sentia um profundo pesar enquanto amarrava a corda na viga. Sentou-se e tocou um trecho do Réquiem em ré menor de Mozart. Não queria ter chegado a esse ponto, mas as dívidas acumularam-se, os cobradores não lhe davam sossego. Agora não havia mais retorno, estava decidido a acabar com aquele sofrimento de uma vez por todas, descansar em paz. Aplicou um puxão na corda, não podia arriscar seu rompimento no instante crucial. Estava firme. Respirou fundo, fez uma breve oração pedindo perdão a seus antepassados. Chegara a fatídica hora...
Chamou os homens que aguardavam do lado de fora do apartamento. Rompeu em prantos quando o velho piano Steinway iniciou a descida.

Carlos Cruz - 08/06/2007

segunda-feira, 15 de setembro de 2008



O Raul Cortês



nem sei de quando
vem
nem por que
vem
ou veio, ou véio, gol
veia
ou velocino da preta
véia
sem dente de
ouro
de tolo
amassa bolo
de musgo de
aveia
quac!
de olhos de
baleia
de óleos de
rícino
rico
oco
rente

o grilo falante
besuntado de hidratante
lá do cume do hidrante
profeta, profetiza
precoce, preconiza
exorbitante, exorbita
exegeta, exige a nota
cheio de banca e de pose
distribui amiúde e
de graça, conselhos de graça
sábio artrópode sapiente

sê cortês!
se és o boi de piranha
se és a bola da vez
se és o bode, a rês, o cabrito montês
se o salário não chega ao meio do mês
se o chefe dá sempre razão ao freguês
se te vendem paraguaio por escocês
se a patroa te troca pelo rico burguês
se sonhas recorrentes sonhos de embriaguez
se dois mais dois sempre dá três
se o cachorro do vizinho comeu teu gato siamês
se à tua volta se agiganta a humana pequenez
se só o que vês é cega estupidez
sê cortês!

mandou ver e mandou bem
a boa e redonda letra
que somente iletrados
e letrados sem letra
e letrados não bestas
entendem e compreendem

na birosca do Tião
pedi uma com limão
outra e mais outra
e mais outra e mais

pus rima com cuscuz
avestruz e jesus
eu vi a luz! (porque luz
tem que rimar com jesus
assim como dor deve rimar com amor)

ô tião, sangue bom,
manda mais uma, então!
senti próximo o momento
de praticar o ensinamento
veio vindo lá de baixo
o indomável furacão
poderia despejá-lo
no chão, banheiro, balcão
mas não era de bom tom
jorrei volumoso e terno
no enternado
na calça de linho
na camisa de seda
no sapato de crocodilo
desalinhado e irado
pretendeu racionalizar o desagrado
célere, desarmei o desalmado
desacelerei o celerado:
se quiseres, podes me bater
mereço ser castigado
dês a primeira porrada
se não tiveres pecado
o soco veio firme, forte, pungente
primeiro, a inconsciência
o regozijo, a seguir
constatação, revelação:
cortês fui - me dei bem - aleluia!
vi o túnel negro, vi a luz
Vi o sempiterno Jesus!
(reforço: luz, obrigatoriamente, rima com Jesus)

Carlos Cruz (cruz também, saliente-se) - 27/08/2008

sábado, 13 de setembro de 2008


Não-soneto Esquizo-dadadodecassílabo Pobre de Rimas



Alvissareiro, o pedreiro filosofa o comércio do amor
Cachaceiro, o tesoureiro vaticina a vacina contra a dor
Matreiro, o vaqueiro tosquia a ovelha do pastor
Brejeiro, o cordeiro ludibria o astuto pensador

Canibalista, o hindu rumina a musical oração
Humanista, o soldado prepara a miraculosa poção
Demonista, o santo apregoa as pregas do sacristão
Fetichista, o exegeta ejeta na aorta o sabão

A Pangéia doente vomita proletários
Tapuias hasteiam a divinal bandeira
Os farrapos devotos da Régia Cangaceira

Riso escarninho, safadeza e: que otários!
Os suados gravatas bravatas crocitam
Fodam-se os asnos que nos criticam

Carlos Cruz - 07/02/2008

sexta-feira, 5 de setembro de 2008


O Halterofilista



"Babacas..." - resmungava, ao ouvir as piadinhas sem graça - sempre havia alguma nova no inesgotável anedotário dos amigos otários - pejorativamente alusivas às supostas atrofias peniana e cerebral de quem se dedicava à comprovadamente saudável atividade de levantar pesos.
Poderia resignar-se, aceitar os gracejos, acomodar-se, mas não! Não jogaria a toalha sem lutar. "Retroceder nunca, render-se jamais!" - como diria Mestre Jean-Claude Van Damme. Primeiro, ao Sex Shop. Comprou uma bomba Big Pênis movida a ar comprimido. Depois, rumo à livraria. Adquiriu nada mais nada menos que sessenta livros, mais precisamente sessenta calhamaços, todos clássicos da literatura universal; "Os Irmãos Karamazovi", de Dostoiévski, era o menos volumoso. "É possível desenvolver qualquer parte do corpo humano, basta exercitar.", dissera o treinador. "Agora, eles vão ver quem é o anjinho barroco com cérebro de formiga...", pensou, satisfeito com sua genialidade. Pegou a pesada panela de ferro fundido, no fundo da qual mandara soldar uma barra de aço maciça. Dividiu os livros em duas pilhas iguais, amarrando-os, em blocos, às extremidades da barra. Acoplou a bomba ao pênis e a panela à cabeça. Enquanto o ar pressionava dolorosamente seu pinto, flexionava os joelhos e fazia abdominais. Sua cabeça doía, mas prosseguiu, firme. Minutos depois, já sentia os efeitos dos exercícios. "Ah, então é isso!" Lembrou-se de haver lido em algum lugar algo sobre exercícios literários. Três horas mais tarde, saiu à rua para caminhar. Apesar do pau e da cabeça doloridos, estava feliz. Era um novo homem, um misto de Arnold Schwarzenegger, Long Dong Silver e Machado de Assis.

Carlos Cruz - 05/09/2008

segunda-feira, 1 de setembro de 2008


O Estróina Letrado, a Fortuna e o Desassossego



Vovó era rica, muito rica. Em virtude dessa circunstância financeiramente interessante, e somente por isso, todos a bajulavam. Todos menos eu. Achava um tremendo pé-no-saco aquelas histórias do tempo do onça, de quando ela dançou com Jorginho Guinle no suntuoso salão do Copacabana Palace ou da inesquecível noite de gala em que ela assistiu, ao vivo e a cores, o sapateado vivaz de Fred Astaire, derrubando cadeiras na Broadway. Mas, sem dúvida, a história campeã no quesito "dedo na goela" era a que narrava o romântico encontro dela com vovô, no interior do Cine Caruso. Não que aquela segurada de mão no escurinho do cinema fosse algo sem importância, afinal, se isso não houvesse acontecido, eu não estaria aqui. O problema era o filme. Ouvir, durante muitos e intermináveis minutos e com extrema riqueza de detalhes, o roteiro de Casablanca era um tremendo exercício de paciência e tolerância. Sem dúvida, se dependesse de vovó, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman ganhariam vários Oscar por sua atuação naquele maldito filme.
Por essas e outras, eu não visitava vovó. Ou melhor, visitava no Natal. A família reunida, todos disputando renhidamente aquele que tinha os melhores presentes: o saco da vovó. O do pobre bom velhinho era jogado para escanteio, ninguém queria saber de brinquedinhos de um e noventa e nove made in china. O que todos queriam era colocar as mãos na fortuna da vovó. E puxavam o saco, digo, os peitinhos murchos da vovó. Ora bolas, vovô tinha bolas, tinha saco; vovó não.
O tempo passou e o inevitável aconteceu: vovó morreu. Tal qual no Natal, todos se reuniram para enterrá-la bem rápido e ouvir a leitura do testamento, bem rápido. Após a leitura, choradeira geral e uma boca aberta: a minha. Jamais vou saber porque vovó deixou toda sua fortuna para mim. Logo eu que nunca a havia adulado, nem dado sonoros beijinhos no rosto, nem sorrido sorrisos idiotas enquanto elogiava sua aparência jovial, nem ficado horas ouvindo suas obsoletas histórias. A verdade é que a despeito das caras-de-bebê-cagado ao meu redor, eu, somente eu e mais ninguém, fora o agraciado pela generosidade da minha simpática (ficou de repente, o que posso eu fazer?) progenitora.
Bom, fiquei rico. No início era legal, muitas coisas a fazer, muitas coisas a comprar, muitos lugares a conhecer. Depois, com o tempo, ficou chato, muito chato. A fim de matar o tempo e esquecer o tédio, passei a escrever. Um poema daqui, um conto de lá, entretinha-me. Daí, surgiu um convite para publicar. Uma antologia. Aceitei. Paguei. Recebi vinte e dois livros. Meu conto ocupava menos de um quarto de uma página. Mas a sensação de vê-lo ali naquele menos de um quarto de página, o pequeno conto que escrevi, era muito boa. Não vendi os livros, afinal sou rico. Distribuí para os amigos e familiares. Os que leram - as pessoas não valorizam as coisas dadas - disseram que o livro era mediano, alternava contos mais ou menos com contos meia-boca com contos ruins. "E o meu, o que acharam? Ficou mais ou menos, meia-boca ou ruim?" Invariavelmente, todos disseram haver gostado por demais, que o conto era ótimo. Estarão eles me bajulando só porque sou rico? Acho que jamais saberei se realmente tenho talento com as letras ou se sou só mais um milionário metido à besta. Maldito dinheiro da vovó!

Carlos Cruz - 31/08/2008

quinta-feira, 21 de agosto de 2008


Pastor João



Convicto da missão que o próprio Deus lhe confiara, Pastor João apenas observava, compadecido, os policiais que o conduziam. Acusavam-no de estelionato, formação de quadrilha, associação para fins de tráfico, corrupção de menores, mediação para servir à lascívia de outrem, a lista era extensa. Quanta babaquice. Afinal, o que era a lei dos homens se comparada à Lei do Todo-Poderoso? Jamais esqueceria a noite em que Ele aparecera, na forma de um cabeçudo alienígena verde-oliva, grandes olhos flamejantes, dentro da fulgurante bola de fogo amarela, dizendo, com aquela voz tonitruante, as palavras que mudariam para sempre a vida de João:
- João! Esqueçe tudo o que aprendeste sobre bem, mal, certo, errado, pecado, Céu, Inferno e Purgatório. Queima tua Bíblia. São mentiras, invencionices de Lúcifer, visando privar os homens dos prazeres da vida e levá-los à perdição. Poucos conhecem o caminho da verdade. Mostrar-to-ei. Ouve. Procura um livro chamado Código Penal. Segue as instruções que ali estão. Pratica o que o livro chama de crimes. Assim agindo, alcançarás a felicidade na Terra e a salvação no Céu.
Lembrou-se de sua ingênua audácia, ao questionar Aquele Que Tudo Sabe:
- Mas... Senhor... Tornar-me-ei um criminoso?
- Serás um servo de Deus. Vai, João, combate o bom combate. Não temas, sempre estarei contigo. - respondeu o Onipotente, desaparecendo numa nuvem de fumaça que provocava ardência nos olhos e nas narinas.
Fitou novamente os policiais, as algemas comprimindo dolorosamente seus pulsos. "Eles não sabem o que fazem" - pensou.

Polinter, Base Neves. Acautelado, à disposição do MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Capital. Os presos, todos crentes, conheciam-no e o respeitavam. Não é todo dia que viam uma celebridade do mundo do crime, inda mais um homem de Deus. Ministrava fervorosos cultos, ensinando às ovelhas o verdadeiro caminho do Céu, que todos conheciam de uma à outra ponta e muitos já o haviam trilhado várias vezes. Conquistou dezenas de almas no xadrez, deixando os antigos pastores a catequizar as paredes. Tudo transcorria bem na Seara do Pastor João, até aquela fatídica noite de 25 de agosto, a noite do eclipse lunar...
Todos dormiam na cela, à exceção de Pastor João, que meditava sobre os intrincados e tortuosos caminhos do Senhor. Viu o pequeno facho de luz surgir na parede, bem em frente ao poster da Viviane Araújo. Recordou-se de imediato. Caiu de joelhos.
- Senhor! Finalmente vieste me socorrer!
O diminuto clarão foi aumentando de tamanho, adquirindo a forma do Deus marciano. Pastor João alternava choro e riso, em seu rosto uma expressão desvairada. Tremeu quando ouviu a voz de trovão:
- João, meu servo, regozijo-me contigo. Vejo que és valoroso. Mesmo diante de tantas e tamanhas adversidades, não titubeaste nem arrefeceste. És valente e constante. Mereces teu galardão. Queres vislumbrar o que te aguarda?
- Senhor, não sou merecedor. Fiz apenas o que me ordenaste. Combati o bom combate, visando ao cumprimento de minha missão. Se achares que sou digno, mostra-me minha recompensa.
O ser verde luminoso, então, soltou uma gargalhada estereofônica, ao mesmo tempo em que suas formas foram se transformando: a pele verde tornou-se rubra, os olhos de fogo enegreceram, surgiram chifres, cauda e cascos de bode. O cheiro de enxofre era quase insuportável. Pastor João contemplava, boquiaberto, o ser venerado que transformara sua vida, transmutar-se na figura do Príncipe das Profundezas, o Tinhoso, o Cão do Pé Preto! Aturdido, viu, na parede, imagens de um filme de terror, saídas de um projetor invisível, cujo protagonista era ele próprio! Viu-se mergulhado em um lago de magma, destrinchado e devorado por demônios alados, suas vísceras lançadas aos cães; viu jacas gigantescas serem enfiadas em seu ânus, viu seu corpo ser corroído por urina ácida lançada por íncubus horrendos; viu sofrimento, muito sofrimento.Súbito, a tela sumiu, o Diabo riu zombeteiro. Olhou para o aturdido Pastor João e falou:
- Te vejo no Inferno, babaca!
Dito isto, desapareceu numa nuvem de fumaça com cheiro de enxofre. Pastor João ficou ali ajoelhado, imóvel, durante vários minutos. Alguém sacudiu seu ombro.
- Ô pastor! Algum problema?
Era Alcebíades, preso por haver assassinado a mulher e a sogra. Após alguns minutos, Pastor João fitou o rosto perscrutador de Alcebíades e ordenou:
- Alcebíades, coma meu cu!
- O quê? Tá doido, pastor?
- Você quer padecer no lago de fogo e enxofre do Inferno? Faça o que estou mandando, coma meu cu!
- Tá legal, pastor. Se é pra me livrar do Inferno, vamulá.
Os gemidos acordaram os demais presos. Pastor João mandou que todos o comessem, sob pena de arder no fogo do Inferno. Temerosos de perder a alma, um a um, ininterruptamente, os presos sodomizaram-no durante várias horas.
Dias depois, Pastor João foi transferido para o manicômio judiciário, onde passa os dias olhando para as lâmpadas do teto, babando e balbuciando:
- Deus é verde, o Diabo é vermelho, Deus é o Diabo verde, Deus é o Diabo. Vinde a mim e meterei meu ferro em brasa no vosso cu. Deus é o Diabo...
Após a internação de Pastor João, os demais ministros do Evangelho, dantes rechaçados, voltaram normalmente às suas agradáveis e rentáveis atividades na cadeia.

Carlos Cruz - 27/08/2007

domingo, 17 de agosto de 2008


Ensaio Sobre a Mina



Belos e distorcidos acordes, extraídos com esmero e paixão da negra Fender Stratocaster, rompem o silêncio daquela ensolarada manhã em Kandahar. A cozinha entra em cena. O baixista golpeia as cordas de seu instrumento, o som grave e sujo une-se ao da guitarra em peculiar e perfeita harmonia. Chega o "gran momento". O baterista ergue as baquetas, fita os amigos, sorri e desce os braços com toda a força.

Inferno. Ala da facção muçulmana. O barulhento death metal reverbera nas paredes da enorme gruta, abafando a cantilena, as lamentações e os gemidos.
- Não falei que a "Demônios de Allah" um dia ia estourar?
- Yeah! Inshallah!

Carlos Cruz - 17/08/2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008


Submergente



Estudante, operário, comerciante, marchant, empresário. Após a falência, estelionatário, escroque, rufião, traficante, ladrão.
Entrou no casarão. Como uma mansão daquelas não tinha alarme, vigia, sistema de câmeras, nem ao menos um cachorro? Portas, cadeados, grades reforçadas eram moleza. Passou os olhos pela grande sala. A dona da casa, indubitavelmente, tinha bom gosto, uma bela coleção de obras de arte. Mas não estava ali para furtar, não hoje. Andou pela sala, vasculhando-a de uma ponta a outra. Finalmente encontrou, num canto escuro sobre uma mesinha de madeira no estilo art nouveau, o objeto desejado: o vaso de porcelana feito no século 14, no período Hongwu da dinastia Ming. Segurou com todo cuidado, retirou da mesa com mais cuidado, depositou-o no chão com mais cuidado ainda. Desafivelou o cinto, arriou a calça, vergou o corpo, cautelosamente, até suas nádegas tocarem a borda do raro e caro artefato. Necessário não foi forçar muito para fazer aquilo que, forçosamente, tinha de fazer, dada a eficiência bombástica da buchada de bode consumida no almoço. A merda esguichou, veemente e impetuosa, no interior do vaso. Pronto. Estava feito. Se a cigana estava certa, sua vida começaria a mudar ainda naquela noite. Dirigiu-se ao banheiro, onde limpou-se com fino e macio papel higiênico de tripla camada. Saiu da casa, satisfeito, preparado para sua nova vida de braço dado com a fortuna, novamente. De novo a luz dos holofotes, de novo seu nome aclamado pelo high society, de novo seu rosto estampado nas colunas sociais dos grandes jornais. Ao cruzar o portão, uma forte luz no rosto fê-lo emergir de seus devaneios.
- Polícia! Você está preso, Gastão Hepaminondas!
Na manhã do dia seguinte, pediu emprestado o jornal do carcereiro, sua foto estampada na primeira página. "É." - pensou - "mesmo sendo uma gradessíssima filha da puta, a cigana estava certa."

Carlos Cruz - 01/08/2008

O Último dos Moicanos



Assistiu, com tremendo desprazer, seus semelhantes rasparem os cabelos e tatuarem suásticas nos braços, nas costas, nos tórax, nas nádegas e nas testas.
Agora, sozinho na metrópole, diferente, perseguido e acuado, vê-se em um beco sem saída, à mercê da salivante gangue de emos que aproxima-se ameaçadoramente. Sem vislumbrar melhor desfecho para o crucial impasse existencial, decide praticar o "do it yourself", antigo lema do outrora glorioso movimento punk. Espada em riste, impiedosa e impetuosamente, ataca. Sodomiza um, dois, três, quatro. O suor escorre copioso testa abaixo, provocando ardência nos olhos; a camisa, com a gravura de Sid Vicious, empapa. Exausto, espada vacilante, percebe a iminência do amargo fim. Os emos são muitos, jovens como o movimento do qual são sectários, vorazes, insaciáveis, multiplicam-se como baratas. Quando tudo parece perdido, eis que surge a salvação, ela é careca, musculosa, tatuada e bastante numerosa. Por deliberação unânime em assembléia, os carecas decidiram acrescentar à sua negra lista, na qual já constavam negros, judeus, orientais e nordestinos, os integrantes do movimento Emo. Caíram sobre eles aos socos ingleses, tapas e pontapés. Ao final do rápido e fulminante ataque, a praça era um mar de corpos maquiados, franjas, cabelos coloridos e roupas pretas espalhafatosas. O combate terminara com baixas maciças em apenas um dos polos.
Minutos depois, vieram os judeus ortodoxos que dizimiram os skins. Depois, apareceram os palestinos que destroçaram os semitas. O moicano virou crente de terno, gravata, Bíblia e cabelo moicano, que virou moda.
Alheio a tudo, o mundo prosseguiu seus movimentos ao redor do sol e de si mesmo, azul, redondo e careca como uma bola de bilhar.

Carlos Cruz - 04/08/2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008


O Patinho Feio



Resignado, tolerou, durante anos, as chacotas dos irmãos, a rejeição dos pais, os olhares de viés, comentários abafados com a mão na boca e risinhos de escárnio dos vizinhos. Preterido do pueril convívio social, escorraçado pelos de sua idade, descobrira, desde muito cedo, o fascinante mundo dos livros e da música erudita. Devorava livros e músicas, seu apetite cultural era diretamente proporcional à sua infelicidade.
Certo dia, caiu-lhe nas mãos um sebento volume de um tal Hans Christian Andersen. Não gostava de contos infantis, mas mesmo assim leu. Leu e sorriu. Pela primeira vez em sua vida, gargalhou alto, leve e solto. Lá estava sua história e seu futuro, traçados pela pena mágica do mágico escritor. Isso explicava sua predileção pelO Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Eufórico, saiu para passear e admirar a natureza. Tudo parecia haver adquirido uma coloração especial, matizes especiais, sons especiais. O mundo estava mais bonito. Cumprimentou todos por quem passou. Atônitos, fitavam-no e comentavam, entredentes: "Terá bebido? Estará louco? Cheirou loló?". "La vita è bella." - pensava Agnelo, imerso até os pêlos em seu êxtase particular.
Entretanto, como outrora dissera um gaiato qualquer, "tudo que é bom dura pouco." Treze minutos e vinte e três segundos. Essa a exata duração do interregno feliz de Agnelo. Vinha chegando a segunda descoberta do dia. Era branca, com pêlos só no alto do cocuruto, bípede, de bermuda azul, tênis Ortopé, camisa de malha branca com estampa do Pica-pau, maior que Agnelo porém menor que o outro da mesma espécie de quem segurava uma das mãos e para quem gritou:
- Olha, pai! Um ornitorrinco!
- Jesus! Que bicho feio! Não chegue perto, filho. Ele pode morder!

Carlos Cruz - 01/08/2008

sexta-feira, 25 de julho de 2008


A Cruz e a Vaca



Desgarrada do redil hindu, a vaca prosterna-se e persigna-se ante a cruz de caravaca. Entrementes, iracundos brâmanes riscam facas, salivam e gritam a plenos pulmões: "Morte à traidora!"
Horas depois, todos satisfeitos. Roda de mantra, Brahma gelada, churrasco. Os fumos aplacam a fúria de Brahma, o deus. A vaca cumpriu seu destino inexorável juntando-se às semelhantes no grande rebanho das condenadas. Virou mártir. Virou santa. Virou janta.

Carlos Cruz - 22/07/2008

sábado, 19 de julho de 2008


A Panela


À primeira vista, era uma panela como outra qualquer. De pressão. Uma panela de pressão como outra qualquer. Tinha forma circular, tinha cabo, tampa e aquela coisa vermelha com furos que roda e expele vapor. Quem passasse casualmente por ela, quem a visse ainda que de relance, quem a observasse detidamente ou não, quem a analisasse profundamente ou superficialmente, diria, sem titubear: é uma legítima panela de pressão. Mas não. Não, não e não. De novo não. Havia um diferencial, algo que não se podia observar de fora e fazia única aquela panela: ela falava. Sim, é isso mesmo, a panela era uma panela falante, mas não uma panela falante qualquer. Não! Era uma panela falante de muitas vozes, meio poeta, meio contista, meio cronista, lá uma vez ou outra até mesmo meio romancista. Uma panela de pressão falante intelectual metida à besta? Talvez. O fato é que a panela não parava de falar, recitava poemas, contava histórias, fazia crônicas e... xingava! Pestanejava, proferia impropérios, reclamava, insurgia-se, revoltava-se, reivindicava direitos... É. Era uma panela de pressão falante poeta contista cronista romancista intelectual metida à besta crítica e temperamental.
A panela foi levada para o INMETRO e submetida a uma série de testes com vistas a descobrir a origem das vozes. O problema maior era a tampa. Ninguém conseguia retirá-la. Tentou-se de um tudo: força física, calor, frio, choque térmico, um instrumento parecido com um desentupidor de pia, ímãs. Tudo em vão, a tampa não se mexia. Thomas Green Morton, Uri Geller, Padre Quevedo, James Randi, Mister M, dentre outros paranormais e mágicos foram chamados às pressas e também tentaram, sem sucesso, remover a famigerada tampa. Apelaram para a espiritualidade. Pais-de-santo, padres, pastores, xamãs, caciques, monges, esotéricos e místicos de toda sorte fizeram seus cultos, rituais e mandingas. Nada. A panela, pelo visto, era não-sectária e atéia. O mais constrangedor era ouvir as troças malcriadas da dita cuja a cada novo fracasso. Além de tudo, ainda era uma pândega. Por fim, a panela foi levada, sob veementes protestos de baixo calão, para a NASA, onde foi submetida a novos testes e novas tentativas de remoção da tampa. Os dias foram passando, os testes fracassando e os xingamentos se acentuando. "Porcos imperialistas! Abaixo o imperialismo ianque! Abaixo a ditadura estaduniense! Deixem o povo iraquiano viver em paz! George Bush é a reencarnação de Adolf Hitler!" Além de tudo, a panela também tinha inclinações esquerdistas.
Quando os sucessivos insucessos somados às imprecações da panela já começavam a desanimar a equipe de especialistas, eis que aconteceu o fato que deslindou o mistério: um físico, exausto, a fim de abstrair do estressante trabalho e relaxar um pouco, iniciou a leitura, em voz alta, de uma tradução inglesa de um dos livros do escritor Saulo Joelho. Súbito, a panela interrompeu o palavrório e começou a expelir um vapor vermelho. À medida que o físico lia, mais vapor a panela expelia. Dentro em pouco, a panela passou a expandir-se e encolher-se, intermitentemente. Parecia uma maria-fumaça de desenho animado ou a respiração de uma pessoa colérica. O físico, estimulado pelos colegas, prosseguiu a leitura. O bufar da panela foi aumentando, aumentando, aumentando até que... explodiu! A tampa cravou-se no teto e da panela saíram centenas de homenzinhos e mulherezinhas que olharam para os atônitos especialistas e, em uníssono, disseram: "Porra, Saulo Joelho em inglês é demais! Não há panela de escritores que agüente!"

Carlos Cruz - 19/07/2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008


Arte é o caralho!



"Arte é o caralho!" - esbravejava, do alto da escada, o artista plástico gay ateu praticante, enquanto dava os últimos retoques na grande glande de sua última criação escultural, intitulada carinhosamente de "O Falo de Deus".

Carlos Cruz - 16/07/2008

El Sufridor



Miguel Pereira, 27 de junio de 2008

Queridos papá, mamá, hermanitos y hermanitas:

¿Qué tal? ¿Cómo están todos por ahí? Espero que estén todos bien y con salud.
Yo estoy bien, aunque un tanto aburrido de mi rutina que es muy desgastante. Después de leer mi carta, digame si no tengo motivos para desear volver a nuestra alegre y confortable casita. Echo de menos de mi vida con vosotros. Bien, lo que no tiene remedio, hay que remediarse.
Todos los días, a las 5 h en punto, el timbre del despertador suena en mi oído, haciéndome saltar de la cama. El sonido del despertador es tan estridente que, por veces, literalmente me caigo de la cama.
Siempre tengo mucha hambre por la mañana, sin embargo, no tengo tiempo para desayunar, por eso tomo un café, como una galleta y... a la calle. Empezó mi día.
Primero, a las cinco y media, entro en el autobús que generalmente está abarrotado de personas y animales, muchos y variados animales: pajaritos, gallinas, patos, perros, gatos, una vez o otra, hasta cerdos asoman. El hedor es casi insoportable, pero tengo de resignarme, pues el viaje es largo. El trabajo está muy lejos de mi apartamento, empiezo mi jornada laboral a las ocho en punto, trabajo hasta las 12 h. Después tengo un intervalo de una hora para almorzar. A la 1 h, estoy de vuelta al trabajo, donde me quedo hasta las 18 h. Tengo poco tiempo para bañarme y arregarme, a las 19 h tengo de estar en la escuela, de donde salgo a las 23 h, cuando vuelvo a mi apartamento. Nunca me acuesto antes de la 1 h de la mañana.
Muchos compañeros de trabajo estudian en la misma escuela, algunos en la misma clase que yo. Son todos muy animados y soñadores, quieren mucho vencer en la vida y abandonar el trabajo en la manufactura, así como yo.
Mis queridos, no pretendo dejarlos preocupados, el fin del curso y mis merecidísimas vacaciones están cerca. Soportaré la tormenta hasta allá. Mientras no llegan, recen por mi.
Muchos besos a todos.

Os quiero mucho.
Besos.
Carlos Cruz

terça-feira, 15 de julho de 2008


O Sacolão



Malgrado sua aversão por funk, vez ou outra, ao passar por certas vitrines reluzentes, Estanislau não resistia a lançar gulosas porém furtivas olhadelas para aquelas suculentas moças com nomes frutíferos e carnes abundantes rebolando animada e alegremente na tela da grande televisão de plasma.

Lambeu os lábios, esfregou as mãos e sorriu esperto quando leu o cartaz afixado à porta do puteiro: "Só hoje. Sensacional promoção no Tia Raimunda's Sacolão: leve a Mulher-berinjela, toda ela, pelo preço de uma banana nanica."

Era uma puta negra puta. "Que substância!" - pensou. Tamanho tesão fê-lo esquecer a precaução: deixou-se algemar na cabeceira da cama. Quando percebeu a origem do cognome da prostituta, era tarde. A negra era, na verdade, um negão dotado de uma assustadora e gigantesca estrovenga. Os gritos de Estanislau foram abafados pelos do MC Não-sei-das-quantas que esgoleava no pequeno mas potente aparelho portátil estrategicamente colocado ao lado do leito: "crééééééééu!"

Carlos Cruz - 15/07/2008