terça-feira, 10 de junho de 2008

A Alcova Sagrada



Os dias eram todos iguais. Sempre iguais. Iguais do início ao fim. Um após o outro. O mesmo. Sempre. Um dia, outro dia, mais um dia. Acordar, comer, cagar, ver Super Xuxa Contra o Baixo Astral, convulsionar-se, levar choque, escutar funk, tomar injeção, dormir. Depois acordar, comer, cagar, assistir Super Xuxa Contra o Baixo Astral, convulsionar-se, levar choque, ouvir funk, tomar injeção, dormir. Estavam a ponto de explodir. Não agüentavam mais a pressão. O sistema. A pressão do sistema opressor, o manicômio opressor. Os criadores do sistema eram loucos, todos loucos. Bando de sádicos lunáticos. Hospitalários hospitalares nada hospitaleiros. Açougueiros cerebrais devotos da Santa Lobotomia, era isso que eles eram. Mas, ao contrário do que "eles" pensavam, "eles" não eram mais fortes que eles. Iriam escapar. Precisavam escapar. Afinal, não eram malucos, aquele não era seu lugar. Eram Rubicundo & Nauseabundo, a dinâmica dupla, os eleitos, os contrafeitos, os rarefeitos, os arautos perfeitos da perfeita deidade, o supremo deus do bem, do mal, do aquém, do além, do sol e do sal. O sempiterno sem terno. O imorredouro não-nato.
Raramente se viam, mais raramente ainda se falavam. Tão perto e tão longe. Separados por paredes. Grossas paredes. Espessas. Toneladas e mais toneladas de argamassa dura sem som. Isolamento. Isolamento acústico. Silêncio rompido só por seus gritos. Gritos de angústia. Opressão. Dura opressão. Implacável opressão. Não era nada fácil a vida na casa dos loucos, na prisão dos loucos. Mas Rubi & Naus tinham planos. Pacientemente aguardavam, chegaria o momento de pô-los em prática.
Certo dia, durante mais uma sessão de tratamento eletroconvulsivo, o enfermeiro, que flagrara sua mulher divertindo-se com alguns amigos no doce aconchego do lar, decidiu descarregar sua fúria sobre o pobre Nauseabundo. Girou o botão do aparelho até a máxima potência. Nauseabundo sentiu o cérebro fritar, o cheiro de merda causticada tomou conta da pequena sala. Pensamentos confusos alternavam-se em sua cabeça escaldada: explosões de crânios, duendes verdes, astronautas, papas, aranhas, bocetas, teoremas, morcegos, o velho da aveia, paquitas e monstros do pântano compostos de bosta. Antes da inconsciência, veio a grande viagem astral atemporal: seu espírito ou alma ou ectoplasma ou etérea anti-matéria desprendeu-se do corpo e, rapidamente, atravessou as paredes, feito o homem da quarta dimensão. Esquadrinhou o manicômio, sala a sala, até finalmente encontrar o que buscava: o bom, velho e rubro Rubicundo, que dormia a sono solto. Houve imediata empatia espiritual. Qual um magneto irresistível, a alma de Nauseabundo atraiu a de Rubicundo, que num rompante projetou-se, fundindo-se ambas em incorpórea forma alada.
- Mas que porra é essa? - indagou, sonolenta, a alma de Rubicundo.
- Sou eu, seu amigo Nauseabundo.
- Ah, tá. Mas por que não te vejo? E que calor desgraçado é esse que estou sentindo? Por que estou tão leve? E esse cheiro de merda frita? To be or not to be?
- Devagar, amigo velho. A paciência é uma grande virtude e um jogo enfadonho presente em quase todos os microcomputadores domésticos. Como diria o meticuloso, intrigante e performático Jack, The Ripper: vamos por partes. Vossa Excelência não me vê porque somos um só. O calor é a forma de inserir energia térmica entre dois corpos que se vale da diferença de temperaturas existente entre eles, conquanto o calor que não faz sua alma suar porque sabidamente as almas são desprovidas de glândulas sudoríparas deve-se à eletricidade que escaldou o receptáculo composto de carne, ossos, músculos, sangue, água e bosta de propriedade do amigo que agora prazerosamente vos fala, o que explica de forma cabal e insofismável sua outra pergunta relativa ao futum. Quanto à leveza, isso tem a ver com metafísica, matéria imaterial, energia vibratória espírito, essas coisas legais, interessantes e sem as quais não podemos viver. Por derradeiro, a pergunta proferida no idioma derivado dos três dialetos falados pelos anglos, saxões e jutos, peço ao conspícuo amigo que se reporte a Sir William Shakespeare quando encontrá-lo casualmente no além-túmulo, entre uma e outra hosana à deusa e cantora Rosana ou ao (todo ele) Todo-Poderoso.
- Ah, tá. Entendi tudo. E o que faremos agora?
- A viagem.
- Sério? A viagem?
- É. A viagem.
- Puta que pariu! Sempre quis fazer a viagem.
- Vamos, então?
- Putz. Já é.
Olhos cerrados, concentração, força, evacuação de fluidos cósmicos e a viagem de volta para o passado. Anos, dias, horas, minutos, segundos atravessados, comprimidos, fragmentados tão-somente em um átimo sublime. Eram novamente crianças. Naus tinha seis anos e se chamava Astolfo; Rubi completava sete anos naquele dia e seu nome era Rodolfo, a faixa tremulante na fachada da casa não deixava dúvidas quanto a isso: "FELIZ ANIVERSÁRIO, RODOLFO! PAPAI E MAMÃE TE AMAM!". Seus pais não queriam que brincassem juntos, a amizade cultivada em anos e anos de boa vizinhança não resistira a um empréstimo não honrado. Mas crianças são crianças e nada entendiam nem queriam entender, nada sabiam nem queriam saber. A surpresa deu lugar aos gritos que deu lugar aos solavancos que deram lugar à punição quando seus austeros genitores os surpreenderam fazendo meias com as agulhas da vovó. O menino Astolfo, imerso durante seis dias no tanque número um do depósito municipal de tratamento de esgoto, onde papai trabalhava. Vez ou outra, emergia a cabeça para respirar e lia o grande cartaz: "ESGOTO É VIDA". O garoto Rodolfo também teve um castigo exemplar: nu, maçã argentina na boca, corpo todo pintado de vermelho (o pai era torcedor fanático do América carioca e fissurado em tomates, morangos e Brasinha), ficou vários minutos assando no forno industrial (papai também era um gourmet, um chef de cuisine refinadíssimo e requisitadíssimo, mesmo colando meleca no "coq au vin", escarrando no "blanquette de veau" ou limpando os vasos sanitários com as "cuisses de grenouilles"). Astolfo e Rodolfo nunca mais seriam os mesmos, as experiências mortificantes foram extremamente edificantes. Eram novos homens, transformados, super-poderosos, super-homens. Não mais simples, comuns, meros seres viventes humanos machos. Não mais Astolfo e Rodolfo. Doravante, a humanidade caótica e decadente conhecê-los-ia por "Rubicundo & Nauseabundo", o vermelho e o fétido, o sangue e a merda, os portadores do archote encarnado e da latrina dourada.
Alguém premiu a tecla RW. Hora de voltar, a viagem chegara ao fim. Nauseabundo estava de volta à mesa de eletrochoque. Agora dotado de sobre-humana força, arrebentou as correias e as correntes, rachou o crânio do enfermeiro na parede que veio abaixo com dois socos. Resgatou Rubi, libertou os internos, fez arremesso à distância de funcionários e médicos, entregando alguns aos antigos colegas que fizeram divertidas experiências com bisturis, tesouras, craniótomo, drill pneumático, desfibriladores, eletrochoque e outros instrumentos e equipamentos interessantes.
- Tudo pela ciência! - exclamou Super-Nauseabundo.
- É isso. Os fins justificam os meios. O que representa o sacrifício de alguns poucos quando o que está em jogo é a salvação de milhões?
- Só. Disse tudo, Big Red. Sabe de uma coisa, queria fazer algo que não faço há muito tempo.
- O quê?
- Espremer os furúnculos da sua bunda.
- Oh, sí! Exprime los diviesos de mi culo, apestoso amigo.
- Volve.
Furúnculos espremidos, erupções de pus amarelo, desejo recíproco saciado, sorriso nos lábios, a dupla iniciou novas maquinações divagatório-filosóficas.
- Andei refletindo sobre a importância do nobre Marquês de Sade para a filosofia, a psicanálise, a política, a religião e as artes. - falou Nauseabundo.
- Sério? Mas ele não era maluco?
- Não. Malucos são os outros, aqueles que o detratam, vão à missa, engolem os pedaços de Cristo, arrotam a palavra dita de Deus, comem as próprias filhas, almoçam alegremente o frango de domingo com o dedo mingo enfiado no ânus e apregoam aos quatro ventos sua fé inabalável no Onisciente.
- Lembro de masturbar-me lendo os livros dele. Simpáticas as personagens Julieta e Justine, certamente elas foram para o Céu.
- Decerto. A libertinagem e a perversão são o caminho do Paraíso Divino.
- Que tal empreendermos a busca?
- Eia.
Sade's Club. Rubicundo é açoitado pela dominatrix gorda gargalhante, enquanto Nauseabundo leva um grande consolo na bunda e é lambido por coprófilos ensandecidos. A orgia é geral. Sexo, heterossexo, homossexo, zoossexo, látex, urina, esperma, excremento humano e animal, dor, sangue, alguém morre, necrossexo.
- Alvíssaras, Mr. Red! Estou prestes a ver a Luz. Acho que é essa coisa em meu reto, dói pacas!
- Sim, também vejo muitas estrelas. A Santa Vergasta da Santa Mulher Obesa Vestida de Negro mostrar-nos-á o caminho.
- Vejo aproximar-se o zênite.
- Dois.
Orgasmo simultâneo. Depois outro. E mais outro. Bacantes fanáticos, em devoto frenesi, rendem-lhe louvores. Da parede, o marquês pictórico, com seus gulosos olhos, a tudo aprova. Satisfeito, sorri.

Carlos Cruz - 09/06/2008

2 comentários:

Flávia Valente disse...

muito maneiro o blog.

mas comé que cê tem coragem de botar tua foto no título 'o feio'? cara de pau! hahahahaha

Muryel De Zoppa disse...

prima-obra!