segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Estróina Letrado, a Fortuna e o Desassossego




Vovó era rica, muito rica. Em virtude dessa circunstância financeiramente interessante, e somente por isso, todos a bajulavam. Todos menos eu. Achava um tremendo pé-no-saco aquelas histórias do tempo do onça, de quando ela dançou com Jorginho Guinle no suntuoso salão do Copacabana Palace ou da inesquecível noite de gala em que ela assistiu, ao vivo e a cores, o sapateado vivaz de Fred Astaire, derrubando cadeiras na Broadway. Mas, sem dúvida, a história campeã no quesito "dedo na goela" era a que narrava o romântico encontro dela com vovô, no interior do Cine Caruso. Não que aquela segurada de mão no escurinho do cinema fosse algo sem importância, afinal, se isso não houvesse acontecido, eu não estaria aqui. O problema era o filme. Ouvir, durante muitos e intermináveis minutos e com extrema riqueza de detalhes, o roteiro de Casablanca era um tremendo exercício de paciência e tolerância. Sem dúvida, se dependesse de vovó, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman ganhariam vários Oscar por sua atuação naquele maldito filme.
Por essas e outras, eu não visitava vovó. Ou melhor, visitava no Natal. A família reunida, todos disputando renhidamente aquele que tinha os melhores presentes: o saco da vovó. O do pobre bom velhinho era jogado para escanteio, ninguém queria saber de brinquedinhos de um e noventa e nove made in china. O que todos queriam era colocar as mãos na fortuna da vovó. E puxavam o saco, digo, os peitinhos murchos da vovó. Ora bolas, vovô tinha bolas, tinha saco; vovó não.
O tempo passou e o inevitável aconteceu: vovó morreu. Tal qual no Natal, todos se reuniram para enterrá-la bem rápido e ouvir a leitura do testamento, bem rápido. Após a leitura, choradeira geral e uma boca aberta: a minha. Jamais vou saber porque vovó deixou toda sua fortuna para mim. Logo eu que nunca a havia adulado, nem dado sonoros beijinhos no rosto, nem sorrido sorrisos idiotas enquanto elogiava sua aparência jovial, nem ficado horas ouvindo suas obsoletas histórias. A verdade é que a despeito das caras-de-bebê-cagado ao meu redor, eu, somente eu e mais ninguém, fora o agraciado pela generosidade da minha simpática (ficou de repente, o que posso eu fazer?) progenitora.
Bom, fiquei rico. No início era legal, muitas coisas a fazer, muitas coisas a comprar, muitos lugares a conhecer. Depois, com o tempo, ficou chato, muito chato. A fim de matar o tempo e esquecer o tédio, passei a escrever. Um poema daqui, um conto de lá, entretinha-me. Daí, surgiu um convite para publicar. Uma antologia. Aceitei. Paguei. Recebi vinte e dois livros. Meu conto ocupava menos de um quarto de uma página. Mas a sensação de vê-lo ali naquele menos de um quarto de página, o pequeno conto que escrevi, era muito boa. Não vendi os livros, afinal sou rico. Distribuí para os amigos e familiares. Os que leram - as pessoas não valorizam as coisas dadas - disseram que o livro era mediano, alternava contos mais ou menos com contos meia-boca com contos ruins. "E o meu, o que acharam? Ficou mais ou menos, meia-boca ou ruim?" Invariavelmente, todos disseram haver gostado por demais, que o conto era ótimo. Estarão eles me bajulando só porque sou rico? Acho que jamais saberei se realmente tenho talento com as letras ou se sou só mais um milionário metido à besta. Maldito dinheiro da vovó!

Carlos Cruz - 31/08/2008

3 comentários:

Marcelo disse...

Solução: valorize aquele me menos valoriza sua arte e aquele que mais a critica. Encontramos mais sinceridade numa crítica que nos amarga do que em um elogio que nos adoça.
A vovó sacou isso cedo.

THORPO disse...

hehehehe Muito bom, CC. Tinha lido, acho q no BDE.

Abraço

Anna Paula disse...

Pra acabar com suas dúvidas... dê-me o dinheiro da vovó. Prometo não criar nenhuma polêmica!
rsrsrs
ótimo texto, adorei!
ops!não é pelo$ da vovó não, tá?