quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Pastor João



Convicto da missão que o próprio Deus lhe confiara, Pastor João apenas observava, compadecido, os policiais que o conduziam. Acusavam-no de estelionato, formação de quadrilha, associação para fins de tráfico, corrupção de menores, mediação para servir à lascívia de outrem, a lista era extensa. Quanta babaquice. Afinal, o que era a lei dos homens se comparada à Lei do Todo-Poderoso? Jamais esqueceria a noite em que Ele aparecera, na forma de um cabeçudo alienígena verde-oliva, grandes olhos flamejantes, dentro da fulgurante bola de fogo amarela, dizendo, com aquela voz tonitruante, as palavras que mudariam para sempre a vida de João:
- João! Esqueçe tudo o que aprendeste sobre bem, mal, certo, errado, pecado, Céu, Inferno e Purgatório. Queima tua Bíblia. São mentiras, invencionices de Lúcifer, visando privar os homens dos prazeres da vida e levá-los à perdição. Poucos conhecem o caminho da verdade. Mostrar-to-ei. Ouve. Procura um livro chamado Código Penal. Segue as instruções que ali estão. Pratica o que o livro chama de crimes. Assim agindo, alcançarás a felicidade na Terra e a salvação no Céu.
Lembrou-se de sua ingênua audácia, ao questionar Aquele Que Tudo Sabe:
- Mas... Senhor... Tornar-me-ei um criminoso?
- Serás um servo de Deus. Vai, João, combate o bom combate. Não temas, sempre estarei contigo. - respondeu o Onipotente, desaparecendo numa nuvem de fumaça que provocava ardência nos olhos e nas narinas.
Fitou novamente os policiais, as algemas comprimindo dolorosamente seus pulsos. "Eles não sabem o que fazem" - pensou.

Polinter, Base Neves. Acautelado, à disposição do MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Capital. Os presos, todos crentes, conheciam-no e o respeitavam. Não é todo dia que viam uma celebridade do mundo do crime, inda mais um homem de Deus. Ministrava fervorosos cultos, ensinando às ovelhas o verdadeiro caminho do Céu, que todos conheciam de uma à outra ponta e muitos já o haviam trilhado várias vezes. Conquistou dezenas de almas no xadrez, deixando os antigos pastores a catequizar as paredes. Tudo transcorria bem na Seara do Pastor João, até aquela fatídica noite de 25 de agosto, a noite do eclipse lunar...
Todos dormiam na cela, à exceção de Pastor João, que meditava sobre os intrincados e tortuosos caminhos do Senhor. Viu o pequeno facho de luz surgir na parede, bem em frente ao poster da Viviane Araújo. Recordou-se de imediato. Caiu de joelhos.
- Senhor! Finalmente vieste me socorrer!
O diminuto clarão foi aumentando de tamanho, adquirindo a forma do Deus marciano. Pastor João alternava choro e riso, em seu rosto uma expressão desvairada. Tremeu quando ouviu a voz de trovão:
- João, meu servo, regozijo-me contigo. Vejo que és valoroso. Mesmo diante de tantas e tamanhas adversidades, não titubeaste nem arrefeceste. És valente e constante. Mereces teu galardão. Queres vislumbrar o que te aguarda?
- Senhor, não sou merecedor. Fiz apenas o que me ordenaste. Combati o bom combate, visando ao cumprimento de minha missão. Se achares que sou digno, mostra-me minha recompensa.
O ser verde luminoso, então, soltou uma gargalhada estereofônica, ao mesmo tempo em que suas formas foram se transformando: a pele verde tornou-se rubra, os olhos de fogo enegreceram, surgiram chifres, cauda e cascos de bode. O cheiro de enxofre era quase insuportável. Pastor João contemplava, boquiaberto, o ser venerado que transformara sua vida, transmutar-se na figura do Príncipe das Profundezas, o Tinhoso, o Cão do Pé Preto! Aturdido, viu, na parede, imagens de um filme de terror, saídas de um projetor invisível, cujo protagonista era ele próprio! Viu-se mergulhado em um lago de magma, destrinchado e devorado por demônios alados, suas vísceras lançadas aos cães; viu jacas gigantescas serem enfiadas em seu ânus, viu seu corpo ser corroído por urina ácida lançada por íncubus horrendos; viu sofrimento, muito sofrimento.Súbito, a tela sumiu, o Diabo riu zombeteiro. Olhou para o aturdido Pastor João e falou:
- Te vejo no Inferno, babaca!
Dito isto, desapareceu numa nuvem de fumaça com cheiro de enxofre. Pastor João ficou ali ajoelhado, imóvel, durante vários minutos. Alguém sacudiu seu ombro.
- Ô pastor! Algum problema?
Era Alcebíades, preso por haver assassinado a mulher e a sogra. Após alguns minutos, Pastor João fitou o rosto perscrutador de Alcebíades e ordenou:
- Alcebíades, coma meu cu!
- O quê? Tá doido, pastor?
- Você quer padecer no lago de fogo e enxofre do Inferno? Faça o que estou mandando, coma meu cu!
- Tá legal, pastor. Se é pra me livrar do Inferno, vamulá.
Os gemidos acordaram os demais presos. Pastor João mandou que todos o comessem, sob pena de arder no fogo do Inferno. Temerosos de perder a alma, um a um, ininterruptamente, os presos sodomizaram-no durante várias horas.
Dias depois, Pastor João foi transferido para o manicômio judiciário, onde passa os dias olhando para as lâmpadas do teto, babando e balbuciando:
- Deus é verde, o Diabo é vermelho, Deus é o Diabo verde, Deus é o Diabo. Vinde a mim e meterei meu ferro em brasa no vosso cu. Deus é o Diabo...
Após a internação de Pastor João, os demais ministros do Evangelho, dantes rechaçados, voltaram normalmente às suas agradáveis e rentáveis atividades na cadeia.

Carlos Cruz - 27/08/2007

domingo, 17 de agosto de 2008

Ensaio Sobre a Mina




Belos e distorcidos acordes, extraídos com esmero e paixão da negra Fender Stratocaster, rompem o silêncio daquela ensolarada manhã em Kandahar. A cozinha entra em cena. O baixista golpeia as cordas de seu instrumento, o som grave e sujo une-se ao da guitarra em peculiar e perfeita harmonia. Chega o "gran momento". O baterista ergue as baquetas, fita os amigos, sorri e desce os braços com toda a força.

Inferno. Ala da facção muçulmana. O barulhento death metal reverbera nas paredes da enorme gruta, abafando a cantilena, as lamentações e os gemidos.
- Não falei que a "Demônios de Allah" um dia ia estourar?
- Yeah! Inshallah!

Carlos Cruz - 17/08/2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Submergente



Estudante, operário, comerciante, marchant, empresário. Após a falência, estelionatário, escroque, rufião, traficante, ladrão.
Entrou no casarão. Como uma mansão daquelas não tinha alarme, vigia, sistema de câmeras, nem ao menos um cachorro? Portas, cadeados, grades reforçadas eram moleza. Passou os olhos pela grande sala. A dona da casa, indubitavelmente, tinha bom gosto, uma bela coleção de obras de arte. Mas não estava ali para furtar, não hoje. Andou pela sala, vasculhando-a de uma ponta a outra. Finalmente encontrou, num canto escuro sobre uma mesinha de madeira no estilo art nouveau, o objeto desejado: o vaso de porcelana feito no século 14, no período Hongwu da dinastia Ming. Segurou com todo cuidado, retirou da mesa com mais cuidado, depositou-o no chão com mais cuidado ainda. Desafivelou o cinto, arriou a calça, vergou o corpo, cautelosamente, até suas nádegas tocarem a borda do raro e caro artefato. Necessário não foi forçar muito para fazer aquilo que, forçosamente, tinha de fazer, dada a eficiência bombástica da buchada de bode consumida no almoço. A merda esguichou, veemente e impetuosa, no interior do vaso. Pronto. Estava feito. Se a cigana estava certa, sua vida começaria a mudar ainda naquela noite. Dirigiu-se ao banheiro, onde limpou-se com fino e macio papel higiênico de tripla camada. Saiu da casa, satisfeito, preparado para sua nova vida de braço dado com a fortuna, novamente. De novo a luz dos holofotes, de novo seu nome aclamado pelo high society, de novo seu rosto estampado nas colunas sociais dos grandes jornais. Ao cruzar o portão, uma forte luz no rosto fê-lo emergir de seus devaneios.
- Polícia! Você está preso, Gastão Hepaminondas!
Na manhã do dia seguinte, pediu emprestado o jornal do carcereiro, sua foto estampada na primeira página. "É." - pensou - "mesmo sendo uma gradessíssima filha da puta, a cigana estava certa."

Carlos Cruz - 01/08/2008

O Último dos Moicanos



Assistiu, com tremendo desprazer, seus semelhantes rasparem os cabelos e tatuarem suásticas nos braços, nas costas, nos tórax, nas nádegas e nas testas.
Agora, sozinho na metrópole, diferente, perseguido e acuado, vê-se em um beco sem saída, à mercê da salivante gangue de emos que aproxima-se ameaçadoramente. Sem vislumbrar melhor desfecho para o crucial impasse existencial, decide praticar o "do it yourself", antigo lema do outrora glorioso movimento punk. Espada em riste, impiedosa e impetuosamente, ataca. Sodomiza um, dois, três, quatro. O suor escorre copioso testa abaixo, provocando ardência nos olhos; a camisa, com a gravura de Sid Vicious, empapa. Exausto, espada vacilante, percebe a iminência do amargo fim. Os emos são muitos, jovens como o movimento do qual são sectários, vorazes, insaciáveis, multiplicam-se como baratas. Quando tudo parece perdido, eis que surge a salvação, ela é careca, musculosa, tatuada e bastante numerosa. Por deliberação unânime em assembléia, os carecas decidiram acrescentar à sua negra lista, na qual já constavam negros, judeus, orientais e nordestinos, os integrantes do movimento Emo. Caíram sobre eles aos socos ingleses, tapas e pontapés. Ao final do rápido e fulminante ataque, a praça era um mar de corpos maquiados, franjas, cabelos coloridos e roupas pretas espalhafatosas. O combate terminara com baixas maciças em apenas um dos polos.
Minutos depois, vieram os judeus ortodoxos que dizimiram os skins. Depois, apareceram os palestinos que destroçaram os semitas. O moicano virou crente de terno, gravata, Bíblia e cabelo moicano, que virou moda.
Alheio a tudo, o mundo prosseguiu seus movimentos ao redor do sol e de si mesmo, azul, redondo e careca como uma bola de bilhar.

Carlos Cruz - 04/08/2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Patinho Feio



Resignado, tolerou, durante anos, as chacotas dos irmãos, a rejeição dos pais, os olhares de viés, comentários abafados com a mão na boca e risinhos de escárnio dos vizinhos. Preterido do pueril convívio social, escorraçado pelos de sua idade, descobrira, desde muito cedo, o fascinante mundo dos livros e da música erudita. Devorava livros e músicas, seu apetite cultural era diretamente proporcional à sua infelicidade.
Certo dia, caiu-lhe nas mãos um sebento volume de um tal Hans Christian Andersen. Não gostava de contos infantis, mas mesmo assim leu. Leu e sorriu. Pela primeira vez em sua vida, gargalhou alto, leve e solto. Lá estava sua história e seu futuro, traçados pela pena mágica do mágico escritor. Isso explicava sua predileção pelO Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Eufórico, saiu para passear e admirar a natureza. Tudo parecia haver adquirido uma coloração especial, matizes especiais, sons especiais. O mundo estava mais bonito. Cumprimentou todos por quem passou. Atônitos, fitavam-no e comentavam, entredentes: "Terá bebido? Estará louco? Cheirou loló?". "La vita è bella." - pensava Agnelo, imerso até os pêlos em seu êxtase particular.
Entretanto, como outrora dissera um gaiato qualquer, "tudo que é bom dura pouco." Treze minutos e vinte e três segundos. Essa a exata duração do interregno feliz de Agnelo. Vinha chegando a segunda descoberta do dia. Era branca, com pêlos só no alto do cocuruto, bípede, de bermuda azul, tênis Ortopé, camisa de malha branca com estampa do Pica-pau, maior que Agnelo porém menor que o outro da mesma espécie de quem segurava uma das mãos e para quem gritou:
- Olha, pai! Um ornitorrinco!
- Jesus! Que bicho feio! Não chegue perto, filho. Ele pode morder!

Carlos Cruz - 01/08/2008

sexta-feira, 25 de julho de 2008

A Cruz e a Vaca




Desgarrada do redil hindu, a vaca prosterna-se e persigna-se ante a cruz de caravaca. Entrementes, iracundos brâmanes riscam facas, salivam e gritam a plenos pulmões: "Morte à traidora!"
Horas depois, todos satisfeitos. Roda de mantra, Brahma gelada, churrasco. Os fumos aplacam a fúria de Brahma, o deus. A vaca cumpriu seu destino inexorável juntando-se às semelhantes no grande rebanho das condenadas. Virou mártir. Virou santa. Virou janta.

Carlos Cruz - 22/07/2008

sábado, 19 de julho de 2008

A Panela



À primeira vista, era uma panela como outra qualquer. De pressão. Uma panela de pressão como outra qualquer. Tinha forma circular, tinha cabo, tampa e aquela coisa vermelha com furos que roda e expele vapor. Quem passasse casualmente por ela, quem a visse ainda que de relance, quem a observasse detidamente ou não, quem a analisasse profundamente ou superficialmente, diria, sem titubear: é uma legítima panela de pressão. Mas não. Não, não e não. De novo não. Havia um diferencial, algo que não se podia observar de fora e fazia única aquela panela: ela falava. Sim, é isso mesmo, a panela era uma panela falante, mas não uma panela falante qualquer. Não! Era uma panela falante de muitas vozes, meio poeta, meio contista, meio cronista, lá uma vez ou outra até mesmo meio romancista. Uma panela de pressão falante intelectual metida à besta? Talvez. O fato é que a panela não parava de falar, recitava poemas, contava histórias, fazia crônicas e... xingava! Pestanejava, proferia impropérios, reclamava, insurgia-se, revoltava-se, reivindicava direitos... É. Era uma panela de pressão falante poeta contista cronista romancista intelectual metida à besta crítica e temperamental.
A panela foi levada para o INMETRO e submetida a uma série de testes com vistas a descobrir a origem das vozes. O problema maior era a tampa. Ninguém conseguia retirá-la. Tentou-se de um tudo: força física, calor, frio, choque térmico, um instrumento parecido com um desentupidor de pia, ímãs. Tudo em vão, a tampa não se mexia. Thomas Green Morton, Uri Geller, Padre Quevedo, James Randi, Mister M, dentre outros paranormais e mágicos foram chamados às pressas e também tentaram, sem sucesso, remover a famigerada tampa. Apelaram para a espiritualidade. Pais-de-santo, padres, pastores, xamãs, caciques, monges, esotéricos e místicos de toda sorte fizeram seus cultos, rituais e mandingas. Nada. A panela, pelo visto, era não-sectária e atéia. O mais constrangedor era ouvir as troças malcriadas da dita cuja a cada novo fracasso. Além de tudo, ainda era uma pândega. Por fim, a panela foi levada, sob veementes protestos de baixo calão, para a NASA, onde foi submetida a novos testes e novas tentativas de remoção da tampa. Os dias foram passando, os testes fracassando e os xingamentos se acentuando. "Porcos imperialistas! Abaixo o imperialismo ianque! Abaixo a ditadura estaduniense! Deixem o povo iraquiano viver em paz! George Bush é a reencarnação de Adolf Hitler!" Além de tudo, a panela também tinha inclinações esquerdistas.
Quando os sucessivos insucessos somados às imprecações da panela já começavam a desanimar a equipe de especialistas, eis que aconteceu o fato que deslindou o mistério: um físico, exausto, a fim de abstrair do estressante trabalho e relaxar um pouco, iniciou a leitura, em voz alta, de uma tradução inglesa de um dos livros do escritor Saulo Joelho. Súbito, a panela interrompeu o palavrório e começou a expelir um vapor vermelho. À medida que o físico lia, mais vapor a panela expelia. Dentro em pouco, a panela passou a expandir-se e encolher-se, intermitentemente. Parecia uma maria-fumaça de desenho animado ou a respiração de uma pessoa colérica. O físico, estimulado pelos colegas, prosseguiu a leitura. O bufar da panela foi aumentando, aumentando, aumentando até que... explodiu! A tampa cravou-se no teto e da panela saíram centenas de homenzinhos e mulherezinhas que olharam para os atônitos especialistas e, em uníssono, disseram: "Porra, Saulo Joelho em inglês é demais! Não há panela de escritores que agüente!"

Carlos Cruz - 19/07/2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Arte é o caralho!




"Arte é o caralho!" - esbravejava, do alto da escada, o artista plástico gay ateu praticante, enquanto dava os últimos retoques na grande glande de sua última criação escultural, intitulada carinhosamente de "O Falo de Deus".

Carlos Cruz - 16/07/2008

El Sufridor



Miguel Pereira, 27 de junio de 2008

Queridos papá, mamá, hermanitos y hermanitas:

¿Qué tal? ¿Cómo están todos por ahí? Espero que estén todos bien y con salud.
Yo estoy bien, aunque un tanto aburrido de mi rutina que es muy desgastante. Después de leer mi carta, digame si no tengo motivos para desear volver a nuestra alegre y confortable casita. Echo de menos de mi vida con vosotros. Bien, lo que no tiene remedio, hay que remediarse.
Todos los días, a las 5 h en punto, el timbre del despertador suena en mi oído, haciéndome saltar de la cama. El sonido del despertador es tan estridente que, por veces, literalmente me caigo de la cama.
Siempre tengo mucha hambre por la mañana, sin embargo, no tengo tiempo para desayunar, por eso tomo un café, como una galleta y... a la calle. Empezó mi día.
Primero, a las cinco y media, entro en el autobús que generalmente está abarrotado de personas y animales, muchos y variados animales: pajaritos, gallinas, patos, perros, gatos, una vez o otra, hasta cerdos asoman. El hedor es casi insoportable, pero tengo de resignarme, pues el viaje es largo. El trabajo está muy lejos de mi apartamento, empiezo mi jornada laboral a las ocho en punto, trabajo hasta las 12 h. Después tengo un intervalo de una hora para almorzar. A la 1 h, estoy de vuelta al trabajo, donde me quedo hasta las 18 h. Tengo poco tiempo para bañarme y arregarme, a las 19 h tengo de estar en la escuela, de donde salgo a las 23 h, cuando vuelvo a mi apartamento. Nunca me acuesto antes de la 1 h de la mañana.
Muchos compañeros de trabajo estudian en la misma escuela, algunos en la misma clase que yo. Son todos muy animados y soñadores, quieren mucho vencer en la vida y abandonar el trabajo en la manufactura, así como yo.
Mis queridos, no pretendo dejarlos preocupados, el fin del curso y mis merecidísimas vacaciones están cerca. Soportaré la tormenta hasta allá. Mientras no llegan, recen por mi.
Muchos besos a todos.

Os quiero mucho.
Besos.
Carlos Cruz

terça-feira, 15 de julho de 2008

O Sacolão



Malgrado sua aversão por funk, vez ou outra, ao passar por certas vitrines reluzentes, Estanislau não resistia a lançar gulosas porém furtivas olhadelas para aquelas suculentas moças com nomes frutíferos e carnes abundantes rebolando animada e alegremente na tela da grande televisão de plasma.

Lambeu os lábios, esfregou as mãos e sorriu esperto quando leu o cartaz afixado à porta do puteiro: "Só hoje. Sensacional promoção no Tia Raimunda's Sacolão: leve a Mulher-berinjela, toda ela, pelo preço de uma banana nanica."

Era uma puta negra puta. "Que substância!" - pensou. Tamanho tesão fê-lo esquecer a precaução: deixou-se algemar na cabeceira da cama. Quando percebeu a origem do cognome da prostituta, era tarde. A negra era, na verdade, um negão dotado de uma assustadora e gigantesca estrovenga. Os gritos de Estanislau foram abafados pelos do MC Não-sei-das-quantas que esgoleava no pequeno mas potente aparelho portátil estrategicamente colocado ao lado do leito: "crééééééééu!"

Carlos Cruz - 15/07/2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vaga Bunda




Ainda que não abundasse na movimentada calçada flutuante, esforçava-se por rebolar-se. Ainda que não sobressaísse no colorido mar abundante, esforçava-se por irromper-se. Ainda que não inflasse no arregalado olhar esfuziante, esforçava-se por estourar-se. Ainda que não acendesse no estrelado céu resplendente, esforçava-se por ascender-se. Ainda que não regurgitasse no inteiriçado pênis pujante, esforçava-se por engolir-se. Extremar-se. Implodir-se. Inexistir-se.

Carlos Cruz - 09/07/2008

* Ilustração: "The Bath" de Fernando Botero.

domingo, 6 de julho de 2008

Penosa Paixão



Era uma vez Jorge Ferrão, um indivíduo da espécie dita humana, do tipo tremendamente malvisto por ser afeito àquilo que virou moda execrar à boca grande: macheza. Sim, um espécime macho da espécie que não mais admitia o uso público e notório de tal designativo, relegado às distantes e jecevaladanianas décadas de setenta e oitenta. O mundo, virado do avesso como estava, à vista de tão hedionda aberração, não tardou a virar-lhe a cara, as costas e, por vezes, a lançar torpedos escarratórios ao chão à sua passagem. Não que o mundo dotado fosse de cara, costas e sistema produtor de catarro, já que aqui me refiro a seus ilustres, preeminentes, ínclitos, conspícuos e - por que não dizer? - nobilíssimos habitantes, defensores ferrenhos dos valores basilares da moral, dos bons costumes e, em especial, do que se convencionou chamar de "o politicamente correto" ou "A Nova Ordem". O fato é que Jorge Ferrão, ou apenas Ferrão ou Ferrabrás, como era mais conhecido, era macho até a raiz dos cabelos, macho à moda antiga, como gostava de alardear quando degustava seus pés de galinha regados a cachaça no Bar do Tião, cabeça-de-bode cuja freguesia era composta basicamente pelos integrantes da classe "ralé", também denominados párias, indivíduos considerados "lixo irreciclável" pela classe dominante: a "magna" ou os neoaristocratas. Jorge não estava nem aí nem aqui nem acolá: coçava o saco, visivelmente e despudoradamente, a cada dois minutos. Via uma mulher atraente, mandava logo um "gostosa!". Brigava por qualquer motivo com qualquer um. Ria-se e pilheriava, troçando dos que repreendiam seu comportamento com palavras ou olhares reprovadores. Referia-se a eles como os "BBB" - bando de babacas boçais. Jorge "Ferrabrás" Ferrão era o último dos machões do século XXI.
Mas o que poucos sabiam é que Ferrão, lá no fundo, nos recônditos penumbrosos e secretíssimos de sua alma-espírito, escondia algo que poria todo seu auto-cultivado, auto-cultuado e auto-estimado prestígio a perder: apreciava Bossa Nova. É isso aí: Jorge, o Ferrabrás, era fã de Vinícius, Jobim, João Gilberto e Cia. Mandara forrar as paredes de seu quarto com uma grossa camada de cortiça para não correr o risco de ser flagrado por algum vizinho mexeriqueiro enquanto imerso estivesse em seu musical e muito particular êxtase. Jorge era um paradoxo ambulante. Jorge, indubitavelmente, e a despeito das opiniões contrárias, era humano, bastante humano.
Certo dia, Jorge caminhava a passos largos com destino ao retromalfalado botequim, quando deparou-se, numa curva da estrada, com aquela que seria a razão de sua perdição: a galinha. Sua visão turvou-se, sua face enrubesceu-se, seu corpo acalorou-se, seu coração palpitou-se: o que fora não mais era, era a mais nova vítima da frechada do Cupido. Lá estava ela, linda, deslumbrante, com seu ar altivo, sua crista carnuda encarnada, suas belas penas negras-brilhantes, seu pequeno bico amarelo. Jorge estava apaixonado. Apressuradamente, tratou de arrebatar e levar para sua casa a nova e penosa dona de seu coração. Deu-lhe o milho mais caro que achou no mercado, a melhor água mineral, trocou os travesseiros de penas por outros, sintéticos. Chamou-a Efigênia – gostava desse nome e, ao que parece, ela também gostou pois cacarejou e olhou para Jorge. Tratou-a como uma deusa, uma rainha, mas não fizeram sexo. Tinha receio de estuporá-la considerando as desiguais dimensões de seus órgãos genitais. Jorge, enfim, era um homem plenamente feliz, feliz e transformado: não mais coçava o saco, não mais cantava as mulheres na rua, não mais freqüentava o Bar do Tião. Vivia para Efigênia, para agradar Efigênia, para amar Efigênia.
Entretanto (sempre tem que ter um entretanto, contudo, mas, todavia ou porém), alheia a todos os mimos e agrados do (pensava ele) amado, certo dia anuvioso-chuviscoso, Efigênia bateu asas e voou não se sabe para onde nem por quê. Perplexo, Ferrão a procurou em todos os cômodos, em todos os cantos e recantos internos e externos da casa. Nada de Efigênia. Ela partira, fugira, escafedera-se. “Aquela ingrata. Depois de tudo que fiz por ela, depois de tudo que vivemos juntos...” Ferrabrás pensou em traição, seqüestro, estupro, assassinato, abdução, migração e, por fim, conformou-se com a hipótese do nada simples, nada puro e todo doloroso abandono. Já a refletir viagens de vira-e-revira-mundo e idéias suicidas, eis que ouve um ruflar de asas advindo da janela da sala. Volveu os olhos na direção do ruído e foi tomado novamente pelo êxtase, desta feita, mais intenso: lá estava sua amada, adorada e idolatrada Efigênia, em carne, ossos, bico e penas. Correu a abraça-la, quase esquecendo-se da fragilidade do corpo da galinácea. “Meu amor, você voltou! Onde você estava, por onde andou, digo, voou?” – dava beijos e mais beijos. A galinha retrucou com regulares e breves cacarejares. Jorge não pensou, agiu: trancou todas as janelas e portas, depositou suavemente Efigênia na cama, acendeu o fogão e colocou o caldeirão com água para ferver. Quando a água borbulhou e começou a evaporar, com lágrimas nos olhos, pegou delicadamente Efigênia, olhou fixamente para seus olhos ariscos e disse: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim.” Afundou-a no caldeirão e tampou, segurando com toda a força, as lágrimas a gotejar e vaporizar tamborilando sobre a tampa. A agitação no interior da grande panela foi breve. Foi o melhor jantar da vida de Jorge Ferrão, jantar à luz de velas. Doravante, ele e sua amada Efigênia jamais se separariam novamente, estavam juntos, fundidos, seriam um só, eternamente.

Carlos Cruz - 23/05/2008

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Joãozinho Nerd Faz Poesia



Joãozinho inscreveu-se no concurso de poesias da universidade. Mostraria a todos que em sua gigantesca cabeça, além da Álgebra, da Trigonometria, da Biologia, da Química e da Física Quântica, havia espaço para a Lírica. Escreveria sobre o amor, algo assim bastante singelo. Horas depois, meio zonzo e muito exausto, concluiu a árdua tarefa. Sorriso nos lábios, satisfeitíssimo com o resultado, sentindo-se o poeta, leu seu texto em voz alta:

Poesia do Amor, da Paixão e do Coração

Com A escrevo Amor,
Com P escrevo Paixão,
Com C, C, V, V, A, A, V, A, V, A, V, M, C, V, V, V escrevo Coronária Direita, Coronária Descendente Anterior Esquerda, Coronária Circunflexa Esquerda, Veia Cava Superior, Veia Cava Inferior, Aorta, Artéria Pulmonar, Veias Pulmonares, Átrio Direito, Ventrículo Direito, Átrio Esquerdo, Ventrículo Esquerdo, Músculos Papilares, Cordoalhas Tendíneas, Válvula Tricúspide, Válvula Mitral e Válvula Pulmonar,
Que moram no meu coração.

Carlos Cruz - 12/06/2008

terça-feira, 10 de junho de 2008

A Alcova Sagrada



Os dias eram todos iguais. Sempre iguais. Iguais do início ao fim. Um após o outro. O mesmo. Sempre. Um dia, outro dia, mais um dia. Acordar, comer, cagar, ver Super Xuxa Contra o Baixo Astral, convulsionar-se, levar choque, escutar funk, tomar injeção, dormir. Depois acordar, comer, cagar, assistir Super Xuxa Contra o Baixo Astral, convulsionar-se, levar choque, ouvir funk, tomar injeção, dormir. Estavam a ponto de explodir. Não agüentavam mais a pressão. O sistema. A pressão do sistema opressor, o manicômio opressor. Os criadores do sistema eram loucos, todos loucos. Bando de sádicos lunáticos. Hospitalários hospitalares nada hospitaleiros. Açougueiros cerebrais devotos da Santa Lobotomia, era isso que eles eram. Mas, ao contrário do que "eles" pensavam, "eles" não eram mais fortes que eles. Iriam escapar. Precisavam escapar. Afinal, não eram malucos, aquele não era seu lugar. Eram Rubicundo & Nauseabundo, a dinâmica dupla, os eleitos, os contrafeitos, os rarefeitos, os arautos perfeitos da perfeita deidade, o supremo deus do bem, do mal, do aquém, do além, do sol e do sal. O sempiterno sem terno. O imorredouro não-nato.
Raramente se viam, mais raramente ainda se falavam. Tão perto e tão longe. Separados por paredes. Grossas paredes. Espessas. Toneladas e mais toneladas de argamassa dura sem som. Isolamento. Isolamento acústico. Silêncio rompido só por seus gritos. Gritos de angústia. Opressão. Dura opressão. Implacável opressão. Não era nada fácil a vida na casa dos loucos, na prisão dos loucos. Mas Rubi & Naus tinham planos. Pacientemente aguardavam, chegaria o momento de pô-los em prática.
Certo dia, durante mais uma sessão de tratamento eletroconvulsivo, o enfermeiro, que flagrara sua mulher divertindo-se com alguns amigos no doce aconchego do lar, decidiu descarregar sua fúria sobre o pobre Nauseabundo. Girou o botão do aparelho até a máxima potência. Nauseabundo sentiu o cérebro fritar, o cheiro de merda causticada tomou conta da pequena sala. Pensamentos confusos alternavam-se em sua cabeça escaldada: explosões de crânios, duendes verdes, astronautas, papas, aranhas, bocetas, teoremas, morcegos, o velho da aveia, paquitas e monstros do pântano compostos de bosta. Antes da inconsciência, veio a grande viagem astral atemporal: seu espírito ou alma ou ectoplasma ou etérea anti-matéria desprendeu-se do corpo e, rapidamente, atravessou as paredes, feito o homem da quarta dimensão. Esquadrinhou o manicômio, sala a sala, até finalmente encontrar o que buscava: o bom, velho e rubro Rubicundo, que dormia a sono solto. Houve imediata empatia espiritual. Qual um magneto irresistível, a alma de Nauseabundo atraiu a de Rubicundo, que num rompante projetou-se, fundindo-se ambas em incorpórea forma alada.
- Mas que porra é essa? - indagou, sonolenta, a alma de Rubicundo.
- Sou eu, seu amigo Nauseabundo.
- Ah, tá. Mas por que não te vejo? E que calor desgraçado é esse que estou sentindo? Por que estou tão leve? E esse cheiro de merda frita? To be or not to be?
- Devagar, amigo velho. A paciência é uma grande virtude e um jogo enfadonho presente em quase todos os microcomputadores domésticos. Como diria o meticuloso, intrigante e performático Jack, The Ripper: vamos por partes. Vossa Excelência não me vê porque somos um só. O calor é a forma de inserir energia térmica entre dois corpos que se vale da diferença de temperaturas existente entre eles, conquanto o calor que não faz sua alma suar porque sabidamente as almas são desprovidas de glândulas sudoríparas deve-se à eletricidade que escaldou o receptáculo composto de carne, ossos, músculos, sangue, água e bosta de propriedade do amigo que agora prazerosamente vos fala, o que explica de forma cabal e insofismável sua outra pergunta relativa ao futum. Quanto à leveza, isso tem a ver com metafísica, matéria imaterial, energia vibratória espírito, essas coisas legais, interessantes e sem as quais não podemos viver. Por derradeiro, a pergunta proferida no idioma derivado dos três dialetos falados pelos anglos, saxões e jutos, peço ao conspícuo amigo que se reporte a Sir William Shakespeare quando encontrá-lo casualmente no além-túmulo, entre uma e outra hosana à deusa e cantora Rosana ou ao (todo ele) Todo-Poderoso.
- Ah, tá. Entendi tudo. E o que faremos agora?
- A viagem.
- Sério? A viagem?
- É. A viagem.
- Puta que pariu! Sempre quis fazer a viagem.
- Vamos, então?
- Putz. Já é.
Olhos cerrados, concentração, força, evacuação de fluidos cósmicos e a viagem de volta para o passado. Anos, dias, horas, minutos, segundos atravessados, comprimidos, fragmentados tão-somente em um átimo sublime. Eram novamente crianças. Naus tinha seis anos e se chamava Astolfo; Rubi completava sete anos naquele dia e seu nome era Rodolfo, a faixa tremulante na fachada da casa não deixava dúvidas quanto a isso: "FELIZ ANIVERSÁRIO, RODOLFO! PAPAI E MAMÃE TE AMAM!". Seus pais não queriam que brincassem juntos, a amizade cultivada em anos e anos de boa vizinhança não resistira a um empréstimo não honrado. Mas crianças são crianças e nada entendiam nem queriam entender, nada sabiam nem queriam saber. A surpresa deu lugar aos gritos que deu lugar aos solavancos que deram lugar à punição quando seus austeros genitores os surpreenderam fazendo meias com as agulhas da vovó. O menino Astolfo, imerso durante seis dias no tanque número um do depósito municipal de tratamento de esgoto, onde papai trabalhava. Vez ou outra, emergia a cabeça para respirar e lia o grande cartaz: "ESGOTO É VIDA". O garoto Rodolfo também teve um castigo exemplar: nu, maçã argentina na boca, corpo todo pintado de vermelho (o pai era torcedor fanático do América carioca e fissurado em tomates, morangos e Brasinha), ficou vários minutos assando no forno industrial (papai também era um gourmet, um chef de cuisine refinadíssimo e requisitadíssimo, mesmo colando meleca no "coq au vin", escarrando no "blanquette de veau" ou limpando os vasos sanitários com as "cuisses de grenouilles"). Astolfo e Rodolfo nunca mais seriam os mesmos, as experiências mortificantes foram extremamente edificantes. Eram novos homens, transformados, super-poderosos, super-homens. Não mais simples, comuns, meros seres viventes humanos machos. Não mais Astolfo e Rodolfo. Doravante, a humanidade caótica e decadente conhecê-los-ia por "Rubicundo & Nauseabundo", o vermelho e o fétido, o sangue e a merda, os portadores do archote encarnado e da latrina dourada.
Alguém premiu a tecla RW. Hora de voltar, a viagem chegara ao fim. Nauseabundo estava de volta à mesa de eletrochoque. Agora dotado de sobre-humana força, arrebentou as correias e as correntes, rachou o crânio do enfermeiro na parede que veio abaixo com dois socos. Resgatou Rubi, libertou os internos, fez arremesso à distância de funcionários e médicos, entregando alguns aos antigos colegas que fizeram divertidas experiências com bisturis, tesouras, craniótomo, drill pneumático, desfibriladores, eletrochoque e outros instrumentos e equipamentos interessantes.
- Tudo pela ciência! - exclamou Super-Nauseabundo.
- É isso. Os fins justificam os meios. O que representa o sacrifício de alguns poucos quando o que está em jogo é a salvação de milhões?
- Só. Disse tudo, Big Red. Sabe de uma coisa, queria fazer algo que não faço há muito tempo.
- O quê?
- Espremer os furúnculos da sua bunda.
- Oh, sí! Exprime los diviesos de mi culo, apestoso amigo.
- Volve.
Furúnculos espremidos, erupções de pus amarelo, desejo recíproco saciado, sorriso nos lábios, a dupla iniciou novas maquinações divagatório-filosóficas.
- Andei refletindo sobre a importância do nobre Marquês de Sade para a filosofia, a psicanálise, a política, a religião e as artes. - falou Nauseabundo.
- Sério? Mas ele não era maluco?
- Não. Malucos são os outros, aqueles que o detratam, vão à missa, engolem os pedaços de Cristo, arrotam a palavra dita de Deus, comem as próprias filhas, almoçam alegremente o frango de domingo com o dedo mingo enfiado no ânus e apregoam aos quatro ventos sua fé inabalável no Onisciente.
- Lembro de masturbar-me lendo os livros dele. Simpáticas as personagens Julieta e Justine, certamente elas foram para o Céu.
- Decerto. A libertinagem e a perversão são o caminho do Paraíso Divino.
- Que tal empreendermos a busca?
- Eia.
Sade's Club. Rubicundo é açoitado pela dominatrix gorda gargalhante, enquanto Nauseabundo leva um grande consolo na bunda e é lambido por coprófilos ensandecidos. A orgia é geral. Sexo, heterossexo, homossexo, zoossexo, látex, urina, esperma, excremento humano e animal, dor, sangue, alguém morre, necrossexo.
- Alvíssaras, Mr. Red! Estou prestes a ver a Luz. Acho que é essa coisa em meu reto, dói pacas!
- Sim, também vejo muitas estrelas. A Santa Vergasta da Santa Mulher Obesa Vestida de Negro mostrar-nos-á o caminho.
- Vejo aproximar-se o zênite.
- Dois.
Orgasmo simultâneo. Depois outro. E mais outro. Bacantes fanáticos, em devoto frenesi, rendem-lhe louvores. Da parede, o marquês pictórico, com seus gulosos olhos, a tudo aprova. Satisfeito, sorri.

Carlos Cruz - 09/06/2008

O Dia em que Monteiro Lobato Encontrou Clive Barker




E foi que aconteceu porque tinha que acontecer: Emília teve um caso tórrido com o Saci. Nove meses depois, nascia Curupinhead, a boneca vudu de uma perna só, touca vermelha, cachimbo, cabelos coloridos, cara cheia de alfinetes.

Carlos Cruz - 09/06/2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

A Hora da Caça



Estava encurralado. Correra desabaladamente, tentando escapar. Mas não fora tão rápido. Agora, ali estava, esbaforido, à mercê das criaturas. A primeira a atacar foi a onça pintada, com seus dentes e garras afiadas. Depois dela, vieram todos: o leão, o urso cinzento, o albatroz, a águia americana, o tigre dentes-de-sabre,a harpia, todos com aqueles olhos vidrados, opacos. Devoraram-no, destrincharam sua carne, alimentaram-se de seus órgãos, reduzindo-o a um amontoado de ossos e pele. Sim, deixaram a pele, quase intacta. Trouxeram a palha, com a qual preencheram o espaço dantes ocupado por seus órgãos, ossos e músculos. Agora era um boneco, com olhos vidrados e lustrosos. Penduraram-no na parede e foram embora.
Despertou, num sobressalto, banhado em suor. Recolheu as garrafas de absinto e os instrumentos, jogando-os na lata de lixo.
- Pra mim, chega! Vou ser motorista de táxi. - disse, em voz alta, o velho taxidermista.

Carlos Cruz - 21/06/2007

sábado, 24 de maio de 2008

Mastiga Sons



Cidade alta. Corada, a bochechuda criança rica mastiga o biscoito fino comprado na delicatessen.
Crec! Crec! Crec!
Cidade baixa. Raquítica, a cabeçuda criança pobre mastiga o biscoito podre garimpado no lixão.
...! ...! ...!
Periferia. Espasmódico, o pálido junkie rico mastiga o entorpecente amargo sob os golpes implacáveis do negro cassetete.
Crac! Crac! Crac!
Zona rural. Cadavérico, o pelado cachorro pobre mastiga o osso duro surrupiado do matadouro.
Croc! Croc! Croc!

Carlos Cruz - 25/01/2008

Achados & Perdidos



Perdeu a esposa para o melhor amigo. Perdeu o emprego. Perdeu o carro para o ladrão, a casa para a financeira. Infeliz, passou a andar encurvado, cabisbaixo, olhos no chão. Certo dia, achou um maço de cédulas de cem reais na calçada. Gritou, pulou de alegria. Sua sorte, enfim, mudaria... Preso em flagrante por uso de moeda falsa, perdeu a liberdade. No xadrez, achou uma corda. Fitou a grade na janela da cela. "Dessa vez" - pensou - "eu decido o que vou perder."

Carlos Cruz - 21/04/2008

Fodix / Precocix (poetrix / duplix)



O penix entra na bocetrix / copulix
O homix dá duas bombadix / ejaculix
Paga cem para a meretrix / prejuix

Carlos Cruz - 25/07/2007

segunda-feira, 12 de maio de 2008

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Agente Laranja




Disfarçado de gari da Conlurb encontrou, na lata de lixo do descuidado deputado, as provas das fraudes nas licitações. Lixo recolhido, parlamentar indiciado, faxina concluída, partiu para a casa do vereador - mais um - suspeito de desvio de verbas públicas. Por vezes, sobrevinha-lhe o desânimo. Por mais que limpasse, parecia que a sujeira só fazia aumentar.

Carlos Cruz - 12/04/2008

O Fim da Picada



Junkie irrecuperável, provou toda sorte de drogas. Cheirou, fumou, ingeriu, injetou, introduziu no ânus. Certo dia, ouviu alguém dizer que cheirar cu de cobra dava onda. Não deu onda, deu azar. Escolheu justo uma coral verdadeira dotada de enormes peçonhas. Picada. Dor. Convulsões. Parada Cardíaca. Morte. Fim.

Carlos Cruz - 12/04/2008

A Origem da Sabedoria



Experimentarei o caos telúrico
sepultado nas entranhas da terra
uterina
de odores, livores e calores
carnívoros
ígneos
rubro-brilhantes
lumino-trevosos
fluidos vaginais
causticantemente interessantes
cuspe da vulva falante
profética
homérica
espaçosamente hermética
vaticina o fim
da existência
do homo sapiens
sapientíssimo
mediano
puritano
e burro
como a porta
do mercado
das pulgas humanas
racionais
empíricas
behavioristas
jactanciosas
pedantes e esquisitas

O mundo é lindo
A vida é bela
O amor é bom
O homem é feliz

Sorria.

Carlos Cruz - 09/04/2008

sexta-feira, 11 de abril de 2008

O Massacre do Ferro Elétrico ou A Fábula da Consolação




Cena I: O Grito
"AAAAAAAaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Desgraçada!!!! Filha da puuuuutaaaaa!!!"

Cena II: Os Cadáveres
Elas não tiveram a menor chance, nenhuma escapou. Todas queimadas, todas perdidas, todas irrecuperáveis. Todas. Algumas tinham manchas; outras, buracos. Sempre o mesmo desenho, nas costas ou na frente, nas costas e na frente. Retorcidas de um jeito macabro, pareciam rostos em agonia. Rodolfo não queria acreditar no que seus olhos viam. Gritava, xingava, chorava. Suas adoradas camisas de seda haviam virado trapos.

Cena III: A Motivação
O amontoado de camisas ocultava o elemento fundamental ao entendimento da atitude tresloucada da criminosa: a bela e vermelha mancha de batom em forma de boca no colarinho da camisa branca.

Cena IV: O Desequilíbrio
"Isso não é justo. Deixo-a à vontade para sair com quem quiser, dar para quem quiser. E eu? Não posso sequer dar uns amassos na secretária? Sacanagem isso. Sacanagem da grossa."

Cena V: O Desejo
Vingança. Retaliação. "Vendetta". Tais palavras alternavam-se no cérebro de Rodolfo. Tinha de dar o troco à altura, degustar o tal prato frio. Destruir aquilo que ela mais prezava. Mas o quê? Refletiu, pensou, pensou, refletiu... Súbito, os olhos brilharam, a boca esboçou um sorriso malévolo. "Já sei." - falou, entredentes, antes de dirigir-se ao quarto de ferramentas.

Cena VI: O Morticínio
Eles bem que tentaram escapar. Pularam para cá, pularam para lá. Um grandão quis esconder-se no ânus de Beethoven, que ganiu, mordeu e destroçou com os dentes. Talvez alguns até conseguissem fugir se acaso não fossem desprovidos de pernas. Ademais, Rodolfo estava furioso, os olhos injetados, a cara vermelha, não teria compaixão. E não teve. Martelo em punho, perseguiu e capturou um a um, depositando-os na gaiola do canário belga, o qual, espertamente, preferiu não ficar para ver o desfecho: aproveitando-se da confusão, tratou de bater as asas e voar para bem longe. Após encarcerar o último fugitivo, teve início a sessão de tortura e morte. Rodolfo prendeu o primeiro na morsa, ergueu o martelo e... cravou-lhe o prego no alto da cabeça, de onde escorreu um filete de látex branco, formando uma pequena poça leitosa numa das mandíbulas da morsa. Depois veio outro prego. E mais outro. Da gaiola, os outros apenas observavam, apavorados, o companheiro transformar-se em um autêntico Pinhead, aquele sinistro personagem do filme Hellraiser. Alguns choravam, outros gritavam, outros mais rezavam, à espera de um milagre que não aconteceu. Tiveram todos o mesmo destino do primeiro.

Cena VII: O Conflito
- AAAAAAAaaaaaaahhhhhhhhhhh!!!!!!!!!! Desgraçado!!!! Filho da puuuuutaaaaa!!! - gritou Sabrina ao deparar-se, estupefacta, com a pilha macabra cuidadosamente montada ao lado da grande cama de mogno.
- Olho por olho, dente por dente, querida. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Destruiu minhas camisas de seda importadas, acabei com sua coleção de consolos.
- Seu corno! Traidor! Você mereceu!
- Mereci o cacete! Só porque dei uns pegas na secretária? Porra, você já deu pra um monte de caras!
- Mas o que foi que combinamos? Eu podia transar com quem eu quisesse, você não!
- Tá. Mas não precisava estragar minhas camisas. Você sabia o quanto eu gostava delas.
- E você sabia que eu sou ciumenta... Porra... Precisava sacrificar até os vibradores?...

Cena VIII: A Reconciliação
- Amor... Você me perdoa? - indaga Rodolfo, olhos mareados.
- Claro... E você, também me perdoa? - soluça Sabrina.
- Claro que sim. Eu te amo.
- Também te amo.
Lágrimas. Abraços. Beijos. Sexo.

Cena IX: A Felicidade
Manhã do dia seguinte. Shopping e Sex Shopping. Rodolfo comprou logo duas dúzias de novas e reluzentes camisas de seda, importadas e de diversas cores, enquanto Sabrina, radiante, pagava com cartão suas novas aquisições: trinta consolos de cores e tamanhos diferentes, duros, vibrantes e até mesmo alguns falantes. A vida do casal normal voltou ao normal no mundo normal das pessoas normais.

Carlos Cruz - 12/04/2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Processo ou A Multiplicação das Mães



Reinaldo não sabia lidar com perdas. Quase enlouqueceu de vez no dia em que sua mãe se foi. O apagão provocado pela manutenção deficiente nas linhas de distribuição de energia elétrica fez o aparelho que a mantinha viva parar de funcionar. Ao fim do processo, recebeu um milhão de reais de indenização. Pôs um anúncio nos classificados de um jornal de grande circulação: "Contrata-se mulher branca, baixa, gorda, com idade entre cinqüenta e cinco e sessenta anos, que use óculos e saiba preparar bolinhos de chuva, para exercer a função de mãe. Paga-se bem." A fila de idosas que se formou em frente à sua casa, no dia seguinte, de tão longa, dava duas voltas no quarteirão. Contratou logo cinco mães. Alguns meses depois, uma delas veio a falecer. Contratou outras cinco para ocuparem seu lugar. Após dois anos, já contava com dezessete mães, todas muito parecidas, carinhosas, sorridentes e bem remuneradas.
Os anos se passaram, anos de felicidade e muito amor maternal. Numa chuvosa manhã, lá pelas dez horas, uma das velhinhas achou estranho o fato de Reinaldo, que acordava cedo, ainda não ter saído do quarto. Interrompeu o preparo dos bolinhos de chuva e foi despertá-lo. Ele não acordou, malgrado os sacolejos frenéticos da anciã. Estava morto. Estampada no rosto, uma expressão de serena felicidade. Morrera sorrindo, feliz, rodeado por suas adoráveis mães. O funeral entrou para a história da pequena e bucólica cidade, dada a quantidade e homogeneidade das integrantes do séquito que acompanhava o caixão: exatas cento e oitenta e uma senhoras, todas idosas, brancas, de baixa estatura, gordas e usando óculos. Quando o esquife desceu, em vez de cal, lançaram bolinhos de chuva na cova, o cheiro agradável espalhando-se pelo cemitério. Parte dos cidadãos que acompanhavam a cerimônia fúnebre, ao final, seguiram para suas casas, beijaram e abraçaram suas genetrizes. Aqueles cujas mães haviam partido para o Além ou para outras partes do Globo, apenas choraram. Choveu durante todo aquele dia e nas duas semanas que se seguiram. Ninguém soube explicar mas, após o óbito de Reinaldo, o ar da cidade impregnou-se do odor inconfundível de bolinho de chuva, trazendo à memória dos visitantes que por ela passavam, vivências da infância, reminiscências do passado, imagens saborosamente nostálgicas de suas avós e de suas mães, preparando os tais bolinhos, em dias chuvosos.

Carlos Cruz - 11/07/2007

sábado, 29 de março de 2008

O Pe(i)dante



Julgava-se a magna quintessência da virtuosa perfeição. O supra-sumo. O eleito. O belo-mor, o inteligente-mor, o irresistível-mor. Refletiu, maquinou, calculou, pensou. Tanto fez que conseguiu: engendrou a fórmula do perfume borbulhante. O incômodo e destoante fedor estava com os dias contados. Finalmente, peidaria cheiroso. Ávido, bebeu dois litros quase de um só gole. A forte pontada no peito arremessou-o de encontro ao chão. O longo e musical flato veio pouco antes do último batimento. Apavorado, constatou que, de todos os anteriores, foi aquele o traque mais fedorento.

Carlos Cruz - 29/03/2008

Um Copo Que Cai



Arduamente, o dia inteiro, labutara sob aquele implacável sol escaldante. Ao cair da noite, voz roufenha, quase afônico, finalmente, uma alma generosa demonstrou compaixão. A reluzente moeda girou no espaço, tilintou na calçada pedregosa, rodou, rodou, acomodando-se, por fim, próximo ao pé direito de Salomão. "Cara. Pé direito. Bons sinais.", pensou.
- Deus lhe pague. - agradeceu ao transeunte caridoso que já ia longe, imerso em seus próprios problemas.
Salomão correu para o Bar do Juvenal, cabeça-de-porco célebre entre a mendicância. Foi direto ao balcão, seus olhos luziam aquele brilho cinza-opaco.
- Aí, Juvenal! Manda uma dose da especial, aquela de rolha.
- É um real.
- Taí. - falou, depositando a moeda sobre a mesa, o cinza-opaco dos olhos acentuando-se ainda mais.
O dono da birosca recolheu a moeda, retirou com cuidado a bonita garrafa de cima da prateleira, pôs o pequeno copo sobre o balcão, serviu a dose do altamente alcoólico líquido amarelo. Salomão salivava, saboreando o momento. Corpo, alma e espírito imersos na agradável liturgia, o ritual tantas vezes repetido, os movimentos de Juvenal, São Juvenal. Rezou em silêncio: "Pai da Desgraça, Santíssimo Deus Que Habita a Garrafa de Cachaça, dai-me a fuga, ministrai-me o santo elixir do esquecimento, enchei-me do suave e benfazejo torpor. Fazei-me nada, porque nada sou."
Circunspecto, levou as mãos ao copo. Antes de alcançá-lo, eis que surge um braço longo e nefasto, um cotovelo profano. Atinge o copo, que cai, cai, cai, espatifando-se no chão do boteco. Salomão fita com raiva o dono do braço, um sujeito bem vestido que bebericava uma garrafa de água mineral com gás, certamente um transeunte que ali detivera-se para aplacar a sede.
- Olhe o que você fez!
- Desculpe. Foi sem querer. Eu pago. A bebida e o copo. Quanto é?
- Não quero seu dinheiro! Não quero que pague outra! Nada trará de volta o que se perdeu! A terra absorveu o líquido assim como absorve a carne, o sangue e a malignidade humana. O homem é um ser rude e mau, merece a dor e o sofrimento por toda a eternidade finita e efêmera de sua desprezível existência!
O homem bem vestido virou as costas para Salomão, dirigindo-se ao dono do bar:
- Caramba! Como tem maluco nesse mundo. Quanto é a cachaça, o copo e a água mineral?
Salomão sentiu a ira aumentar, fluidificar-se e percorrer seu corpo, borbulhante, cáustica, ácida, venenosa. Sacou o pequeno e afiado canivete e não titubeou: agarrou os cabelos do homem bem vestido com uma das mãos, puxando violentamente sua cabeça para trás. Com a outra, cortou-lhe o pescoço de um lado a outro. Um semi-círculo preciso, uma degola cirúrgica, como quando sacrificava frangos no abatedouro. O homem bem vestido levou as mãos ao pescoço, o sangue esguichando aos borbotões, empapando seus belos trajes, tingindo de rubro sua fina e branca camisa de seda. Caiu pesadamente, ainda constringindo o pescoço, numa última e desesperada tentativa de interromper o fluxo, de agarrar-se à vida. Os olhos arregalados, a escancarada boca silenciosa perguntavam a mesma pergunta: por quê?
Salomão ficou ali, parado, observando os derradeiros estertores do desconhecido prestes a conhecer o desconhecido. "Sujeito de sorte". O proprietário do bar há muito havia debandado, em busca de um telefone para chamar a polícia, que logo apareceu. Salomão não reagiu à prisão. Foi algemado e conduzido à Delegacia, onde foi interrogado. Expressão serena, imperturbável, olhos fixos nos do Delegado, disse, em tom baixo:
- A justiça prevaleceu. Olho por olho, dente por dente, fluido por fluido. O infiel estouvado profanou o sagrado ritual com sua atitude aparvalhada, ofendeu o Supremo Ser Alcoólico Aquoso Cáustico, regou a terra com a santa beberagem oriunda dos alambiques divinais. O sacrilégio só poderia ser reparado, a ira do Deus Etílico só poderia ser aplacada com o sacrifício do ímpio. Sinto-me honrado porque Ele me escolheu. Tornei-me o braço da justiça divina, o anjo da morte, o precursor do Messias Ébrio. Desenrolei o tapete vermelho, o tapete de sangue, onde Aquele-Que-Tudo-Sabe-E-Tudo-Bebe caminhará trazendo consigo as boas-novas de dor, morte, sofrimento, vômito e paz. Estou feliz. Cumpri minha missão.
O Delegado fitou o escrivão que fitou o Delegado. A sentença veio fluida, imediata, uníssona:
- Preciso tomar uma.

Carlos Cruz - 28/03/2008

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Evangelho de São João Barba de Bode Capítulo I



Olhe.
Pare, olhe, escute.
Sempre olhe para os lados antes de atravessar a via.
O dono do carrão reluzente total flex não merece atropelar você.
O seguro vai cobrir as despesas decorrentes do acidente.
Sua família contratará um advogado.
O advogado vai fazer a engrenagem burocrática funcionar.
Sua família receberá o DPVAT.
O advogado abocanhará, alegremente e com expressão de pesar
os trinta porcento do bolo a que faz jus.
O motorista atropelador ganhará um novo carrão reluzente.
Você não vai ganhar nada, tornar-se-á nada.
Olhe.

Ouça.
Ouça a voz do diabinho verde.
Ele sabe o que diz.
Ele sabe tudo.
Não ouça os crentes, os devotos-autômatos de Cristo-Buda-Confúcio-Maomé.
Ouça o diabinho verde de orelhas pontudas e dentes muito brancos.
Faça o que der na sua telha.
Ainda que cause danos à sua saúde.
Porra, de quem é o corpo?
Foda, foda muito. Refestele-se de carne.
Empanturre-se de carne.
Beba, fume, drogue-se.
Faça o que quiser.
Desde que não prejudique outro.
Ouça.

Cheire.
Sinta os odores do mundo, do sub e do infra-mundo.
Embriague-se de cheiros.
O cheiro do sexo, do perfume barato, do estrume.
Cheire o sovaco, a boceta, o saco.
Cheire o cachorro morto, o marimbondo, o rato.
Cheire a chuva, o esgoto, o mato.
Impregne-se dos olores de vida, morte, coma e sorte.
Aspire a fumaça do pneu queimado.
Queime suas roupas na fogueira santa.
Cozinhe seu cérebro na frigideira de aço inox.
Tempere com salmos, salmonelas e idéias idiotas.
Deixe passar do ponto e coma.
Regue com vinho tinto barato.
Depois, defeque no chão.
Cheire.

Carlos Cruz - 30/01/2008

Tudo o que você queria saber sobre a pia e tinha medo de perguntar




A pia tem um ralo pequeno por onde escoam os recém-nascidos vícios batismais... Mas eles voltam depois em forma de deliciosas, concupiscentes e sinuosas víboras. Vorazes, devoram pênis intrometidos e vulvas recatadas. A moral, espavorida, sempre dá um jeito de debandar e refugiar-se na sacrossanta e úmida gruta da Santa Sé, enquanto serpentes de medusas e cleópatras embatem-se renhidas com leões voadores de pau duro na arena do pecado, do sexo, da morte, da dor e da redenção. Daí, vem a pia, o ralo, o esgoto, o rio do esquecimento. O nada.

Carlos Cruz - 19/03/2008

sábado, 15 de março de 2008

O Piedoso



Furou os olhos com o aguilhão em brasa, pacientemente aquecido na chama do pequeno maçarico. Para os tímpanos, usou longas e finíssimas agulhas de aço inoxidável. Amputou o pênis, o saco escrotal, as mãos, os pés. Deixou a língua por último, gostava de ouvir os gritos. Apontou a reluzente Glock 9 mm para a cabeça da agonizante vítima, premiu o gatilho, uma, duas vezes. Durante alguns minutos, ficou ali, estático, olhando para o cadáver. Suspirou. Era a primeira vez que descumpria uma cláusula contratual. O cliente havia sido enfático: “Quero que o filho da puta sofra, que sangre até morrer.” “Mas que merda! Estarei amolecendo?”, pensou. Precisava, a qualquer custo, preservar sua reputação, adquirida em anos de sacrifício e dedicação à profissão. Seguiu até à casa do cliente, que o recebeu, ansioso: “E aí, está feito? Ele sofreu? Gritou? Implorou por sua vida? Sangrou até morrer? Conte-me tudo, quero detalhes!” Volveu a arma na direção do cliente, um tiro certeiro, à queima-roupa, no centro da testa. Era um paradoxo: matava homens, velhos, mulheres, crianças, mas era absolutamente incapaz de mentir. “Não. Não sangrou até a morte. Matei-o antes. Tive pena.” Saiu da casa. Antes de amassar e jogar fora o folheto entregue pela sorridente menina de saia comprida e cabelos cacheados, leu, uma vez mais, a mensagem nele impressa: “Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia.”

Carlos Cruz – 06/03/08

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Sopa de Letrinhas



Dócil e obediente, sorveu contente a diária porção do letrado macarrão. Certo estava que a colorida iguaria decerto lhe daria a ansiada sapiência para concluir a sentença. Austregésilo, Sábio Mestre, fornecera-lhe a receita da escrita perfeita: "se quiseres bem exercer o mister do bem escrever, muitos livros vender, muitas mulheres foder, primeiro tens de aprender a arte do bem comer. Ao contrário do que se apregoa, o centro criativo do homem fica entre o estômago e o pâncreas. Toma sopa de letrinhas. Descortinar-se-á, para ti, o anelo do escriba legionário, a Palavra-Martelo, o Verbo-Luz."
Por meses e meses e outros meses aplicou-se em seguir, com disciplinada disciplina, a degustativa exortação. Letras no almoço, letras no jantar. Vez ou outra, uns leguminosos para acompanhar. Entretanto, malgrado o alfabético sopão, a conclusão da sentença mais distante parecia. O Mestre desaparecera no topo da montanha, provavelmente arrebatado pelo carro de fogo azul azulado.
Revoltado, entregou-se com paixão à etílica libação. Cambaleante, calvária rodopiante, regurgitou a malfadada e recém-devorada sopa. Esfuziante, divisou na pista a pista elucidativa da aniversariante assertiva, a palavra final, o verbo ideal. Em meio ao vômito fedorento, lá estava, para quem quisesse ver e soubesse ler. Enfim, o fim do aforismo, o axioma com final, bradado aos céus em tom de afronta divinal: "Escrevinha o escrevinhador, canta o cantador, escreve o escritor, conta o contador. O sucesso sobrevêm àqueles que têm MIOJO." Riu leve e solto. Agora sabia onde encontrar a tal Luz que alimentaria seu criativo cérebro abdominal. O Mestre, Iluminado, estivera muito próximo da Verdade. A Verdade instantânea oriunda do Japão. A Verdade-macarrão.

Carlos Cruz - 26/02/2008

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Idiossincrasias


Tinham gostos semelhantes, opiniões semelhantes, temperamentos semelhantes, ideologias semelhantes, genitálias semelhantes. Duas mulheres lindas, exuberantes, inteligentes, bem-sucedidas, perfeitas! Amavam-se com um amor de fêmea: intenso, sutil, oral. Certa noite, surgiu um falo. Não um falo qualquer, mas um falo grande, volumoso, de avantajado diâmetro e envergadura. Duro, vibrante, pujante. Meteu-se no meio das amantes, separando-as. Foi o racha, a divisão das rachas. Tempos depois, surgiu outro falo, tão grande, volumoso, de avantajado diâmetro e envergadura, duro, vibrante e pujante quanto o primeiro. Meteu-se no orifício que fica atrás do saco. Após o encontro dos falos, as rachas uniram-se novamente, as fêmeas reconciliaram-se. Os quatro concupiscentes promoveram bacanais, muitos. Falo e falo. Vulva e vulva. Vulva e falo. Falo e ânus. Falo e vulva e falo e ânus. Gozaram e viveram felizes para sempre.

Carlos Cruz - 06/11/2007

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Lingüística I



Paris. Ano 1903. Ferdinand de Saussure, durante a realização de um experimento ilustrativo sobre o uso do caso genitivo em sânscrito, tenta mesclá-lo ao gótico e ao alto alemão. Às cãibras na língua sobrevêm os movimentos involuntários e, por fim, o nó. O rebuliço causado pelo inusitado fenômeno leva os estudiosos a criar uma nova ciência a fim de estudá-lo, à qual, arrazoada e apropriadamente, houveram por bem chamar de Lingüística.

Carlos Cruz - 13/12/2007

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O Caso do Piolho Hermafrodita


Foi acusado de ser o mandante do crime. E de ser narcisista. E de ter caso com a viúva. Tudo mentiras. Calúnias dos oposicionistas invejosos. As declarações da principal testemunha - a joaninha gay - trouxeram à tona a verdade dos fatos: a viúva havia comido o marido, após ser comida por ele enquanto tecia um belo cachecol com gravuras escorpiônicas. De fato, esse ato incomum - ela sempre fazia palavras cruzadas durante a cópula - já deixava transparecer suas intenções maléficas. Sorte a joaninha ser, além de gay, voyeur. Além de voyeur, fofoqueira. Caso contrário, estaria fodido. Hóspede na teia, praticava o auto-coito durante os fatídicos, funestos, trágicos, lúbricos e entomofágicos instantes. Quando amava-se a si mesmo, entrava em transe. Mergulhava em seu próprio mundo, em seu próprio ser, em seu próprio biprazer. Jamais saberia das comidas. Nem do viúva, nem da viúva, nem do escorpião escarlate dotadão de ferrão destruidor de portas de guarda-roupas e arrombador de viúvas. Escapou. Por um triz. Tremeu só de pensar do que se livrara. A terrível morte na câmara de gás, a coisa verde e vermelha com letras em branco. Chamavam de "O Nefasto Baygon". Sentiu outro arrepio na carapaça. Agradeceu a São Louva-a-Deus por atravessar ileso o vale da sombra da morte. Prometeu não mais foder-se a si mesmo, nem chupar sangue de égua no cio, nem desejar pueris cabeludos couros. No primeiro retesamento peniano e vaginal umedecimento, descumpriu a porra toda. Sentiu-se vil. Ignóbil. Execrável. Piolho. Hermafrodita. Quase humano.

Carlos Cruz - 16/01/2008

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Filosofia Popular Brasileira




Juvenal seguiu à risca o conselho dos mestres quando ingressou na faculdade de Filosofia: leu dois livros por dia, todos os dias, durante exatos quatro anos. Anos de suplício. Sim, suplício. Sofrimento. Enfado. Exaustão. A disciplina auto-imposta suprimira todo o prazer dantes suscitado pelas incursões noturnas aos intrincados meandros filosóficos. Mas, hoje tudo acabaria. Faltavam apenas alguns minutos para sua apresentação diante da banca composta pelos honoráveis doutores e mestres. Depois, entregar-se-ia aos prazeres instintivos da carne, como nunca havia se entregado. Foderia muito, beberia muito, fumaria muito, drogar-se-ia muito. Escolheu seu filósofo favorito para a dissertação: Friedrich Nietzsche. Falaria sobre o advento do super homem na antigüidade, suas múltiplas e mutatórias facetas ao longo das eras, seu impacto na sociedade capitalista pós-moderna e a aplicabilidade pragmática do conceito intrínseco em suas variadas formas de representação. Nada escreveu. Não precisava. Lera e relera todas as obras de Nietzsche dezenas de vezes, ao som de seu cantor predileto, aliás, o único que ouvia: Belchior. Adorava as músicas de Belchior. Quatro anos lendo Filosofia e ouvindo Belchior. Talvez fosse uma forma inconsciente de auto-flagelação. Talvez fosse a semelhança entre os bigodes. Talvez realmente gostasse. Talvez. Ouviu alguém chamar seu nome. Era chegada a hora. Dali a alguns minutos, seria um homem livre.
Entrou no auditório. A banca era formada por quatro homens e duas mulheres, todos acima dos cinqüenta, a julgar pelas feições. Todos com expressões graves, austeras.
- Comece. - disse, secamente, um deles.
Algo aconteceu naquele instante crucial. Alguns chamariam de amnésia, outros de esquecimento temporário, outros chamariam de "branco" mesmo. O fato é que Juvenal esquecera por completo o tema de sua apresentação. Sequer recordava-se do nome de seu filósofo preferido. Fez um tremendo esforço para se lembrar. Os membros da banca já demonstravam impaciência:
- E então? - indagou a mulher com grandes óculos.
Juvenal suava em bicas, seu rosto cada vez mais vermelho, afogueado. O esforço era enorme. Estava zonzo. Sua cabeça rodava, rodava. Súbito, alguma coisa dentro de seu cérebro despertou. Meio entorpecido, meio extático, Juvenal começou a cantarolar um mantra, feito um monge tibetano. Os anciãos apuraram os ouvidos. Não. Não era um mantra. Era uma música conhecida de um conhecido cantor bigodudo.

"Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim
Que coisa adolescente, James Dean
Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez na tua mão
Não fico mais nervoso, você já não grita
E a aeromoça, sexy, fica mais bonita."

- REPROVADO! - a voz da mulher com grandes óculos de aro de tartaruga ecoou no auditório e no interior do crânio de Juvenal, tirando-o do transe.
- Reprovado?!? Não pode ser! Estudei muito para chegar até aqui! Vocês nada sabem! São um bando de engomados obtusos com mentes atrofiadas e idéias pré-concebidas e tacanhas! Não me submeterei aos grilhões que cerceiam a evolução da raça humana! Sou homem! Sou super! Estou além do bem e do mal!
Completamente fora de si, Juvenal lançou mão do pedestal do microfone. A primeira a cair foi a gorda de óculos, o sangue a jorrar de sua têmpora esquerda. Os demais tentaram fugir do tresloucado Juvenal, que arremeteu com fúria, desferindo golpes precisos com sua arma-pedestal, derrubando mais dois, mortalmente feridos. Três dignitários conseguiram escapar. Os seguranças da universidade entraram na sala. Após muita luta, subjugaram Juvenal, que foi levado para o manicômio judiciário, onde aguarda julgamento, sem receber visitas. Submetido a duas sessões de tratamento eletro-convulsivo e a dezesseis horas de trash, black e doom metal por dia, apresentou significativa melhora. Como recompensa, ganhou uma caixa de giz de cera e vinte folhas de papel. Preferiu adornar as paredes de sua cela com uma inscrição, transcrita centenas de vezes: "deus está morto. assinado Nietzsche".

Carlos Cruz - 30/11/2007

Mêta Linguagem









Meta linguagem

na boca sem língua
na língua lépida
na mente com íngua
na palavra tépida

Meta linguagem

na prosa verborrágica
na letargia cíclica
na poesia hemorrágica
na vanguarda tísica

Meta linguagem

na crítica estúpida
na frase esdrúxula
na visão insípida
na vertente pústula

Meta linguagem

no velho panegírico
na sagrada epístola
no pensar raquítico
na cultuada fístula

Meta linguagem

no túnel hermético
no exegeta fétido
no destempero léxico
no escritor intrépido

Meta linguagem

na douta arrogância
no inútil semanário
na editorial ganância
no rectu literário

Carlos Cruz - 23/12/2007

Feliz Ano Novo, Seu Maluco!



Os segundos finais do ano que acabava pareceram-lhe intermináveis horas. As marteladas no seu cérebro acompanhavam o ritmo alucinante imposto pela bateria trash impiedosamente massacrada dentro de seu coração atormentado. Agonizavam. Ele e o ano velho. Tinha certeza que o alvorecer do novo ano trar-lhe-ia a morte. Tentara, sem êxito, alertar os familiares. Não deram-lhe ouvidos. Os psicólogos e os policiais tiveram a mesma atitude fleumática. "Maluco." - diziam, entredentes. O primeiro estampido dos fogos de artifício causou-lhe um sobressalto. Depois, a saraivada, as múltiplas cores pipocando no céu estrelado, saudando luminosamente o nascituro ano. O fascínio do espetáculo deu-lhe um certo estupor, quase esqueceu sua sina. Foi quando a pequena e estrepitosa língua de fogo, proveniente de um arbusto próximo, trouxe-o de volta à realidade. Sentiu o calor no abdômen, a dor lancinante, o sangue quente urdindo da ferida aberta, ensopando sua camisa branca. Antes do derradeiro estertor, fitou o céu iluminado por aquela profusão de estrelas cadentes artificiais. Contraindo os lábios num ricto, pensou, satisfeito: "Eu estava certo!"

Carlos Cruz - 31/12/2007

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A Vingança de Noel



Durante onze meses suportava, resignado, as pedras na vidraça, os xingamentos, as cruéis e pueris provocações dos filhos de seus vizinhos. Dava o troco no último mês do ano quando, travestido de velhinho bom, prometia presentes que - sabia - eles jamais ganhariam.

Carlos Cruz - 12/12/2007

Adrenalina, Porcos, Vacas, Tropa de Elite e Baixo Salário



"Quem diria... O André, mocorongo do jeito que é, virou polícia..." O comentário, feito por meu genitor quando soube de meu ingresso na gloriosa PCERJ, deixou-me um tanto frustrado. Afinal, sei que sempre fui um poço de paciência e insuportavelmente calmo, mas mocorongo? Não encontrei o termo no Aurélio. Procurei na Rede. Segundo a definição do dicionário informal, mocorongo significa idiota, tolo, burro, estranho, esquisito, diferente e está relacionado às palavras mané, bocó, trouxa, otário, besta, estranho, esquisito, diferente. Em suma, mocorongo é um adjetivo quase insultuoso. Mas sei que meu pai não teve a intenção de me insultar. Referia-se a meu jeito "devagar" de ser.
Todavia, meu objetivo, ao empreender essa tentativa de escrever uma crônica, nada tem de filológico, etimológico ou morfológico. Quero vencer minha resistência em falar sobre minha profissão. Sempre evitei falar no assunto. Escrever então, nem pensar. Talvez devido a um "recalque" arraigado em meu cérebro, proveniente das leituras acerca dos desmandos da ditadura militar, SNI, DOI-CODI, AI-5 e o escambau; talvez por excesso de punk rock; talvez por não aceitar haver sido vencido pelo sistema, a ponto de fazer parte dele em detrimento de minhas pretensões poético-musicais-artísticas da adolescência. Talvez. O fato é que decidi regurgitar minha opinião, por mais exdrúxula e estapafúrdia que ela seja, animado pela repercussão positiva do sangrento filme Tropa de Elite. Por mais violenta que seja, a saga do Capitão Nascimento e seus comandados desencadeou uma onda de simpatia dos cidadãos pela Polícia. De repente, o policial que antes era taxado de corrupto, truculento, perverso, tornou-se o paladino da Justiça, o defensor dos fracos e oprimidos, pronto para dar sua vida, mesmo recebendo um salário de fome no final do mês, na guerra contra os cruéis e impiedosos traficantes, os vagabundos sem alma. Tenho de confessar que fiquei arrepiado ao final do filme. Ouvi muitas histórias de colegas que foram barbaramente torturados e queimados vivos no tal "microondas".
Não me envergonho de dizer: estou na Polícia Civil por acaso. Trabalhei durante muitos anos na Rede Ferroviária Federal, feliz e satisfeito em minha função de artífice metalúrgico. É. Eu era um "peão", como costumam chamar aqueles que trabalham "na graxa". Só que sobreveio o governo Collor e com ele as privatizações das estatais. Alguns anos e centenas de funcionários demitidos depois, percebi que minha vez estava chegando. Tomei uma decisão: faria algum concurso público. Tinha família para sustentar, não podia ficar à deriva, à mercê das cotenções de despesas para agradar os acionistas. Comprei a Folha Dirigida e tava lá: concurso para inspetor de polícia. "Polícia?" - pensei. "Polícia não dá. Isso vai contra minhas convicções anarco-comunistas." Lembrei das leituras, das torturas, da repressão, da fase punk, do 'Fuck the Police'. Mas, daí, lembrei de meu filho que ia completar um ano de idade e precisava de leite e fraldas, precisava do papai para prover o sustento pois mamãe não trabalhava. Foi mais forte. Muito mais. Meus arroubos anarco-punk-ideológicos foram sobrepujados por aquele pequenino. Fiz o concurso, passei, entrei na instituição, acautelei arma e distintivo. Optei por trabalhar no interior. Não tinha pique para subir favela no Rio, sempre odiei exercícios físicos e fumo demais.
Na primeira semana no plantão da delegacia, lavrei meu primeiro flagrante. Furto de porco. Isso mesmo. Furto de porco. Os meliantes (no policês) entraram no chiqueiro que ficava no quintal da casa do cara e, munidos de uma afiada faca de açougueiro, assassinaram e destrincharam o pobre e indefeso animal que o proprietário estava engordando para o Natal, transportando-o para casa num carrinho-de-mão. Como diz o aforismo, não existe crime perfeito. O deles não foi diferente: em virtude da escuridão noturna, não perceberam que o sangue do suíno havia deixado um rastro no chão que terminava na porta da residência deles. O lesado só teve o trabalho de seguir e chamar a PM. Os três foram presos e o porco fatiado apreendido e entregue ao dono. Segundo o colega plantonista, bastava eles alegarem motivo famélico que o Juiz soltá-los-ia. Furtaram para comer.
Com o tempo, comecei a gostar do que fazia. A cada vinte ou trinta ocorrências maçantes, do tipo furto de celular, briga de vizinhos, atropelamento de vaca, ameaça, aparecia uma interessante. Como aquele estupro. O elemento (policês, de novo) agarrou a moça num local escuro, lutaram, ela feriu o rosto em uma cerca de arame farpado, disse que tinha AIDS, mas não houve argumento que demovesse o cara: o estupro aconteceu. Investigações iniciadas, recebemos um informe - denúncia anônima - de que o estuprador vivia com o pai-de-santo X.. Eu e um colega fomos até lá e qual não foi nossa surpresa quando o religioso, ao inteirar-se da denúncia, fez cara de espanto e disse:
- Olha, eu não sei de nada não. Mas meu santo de cabeça, Dona Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, sabe. Peço que esperem. Vou incorporá-la e aí vocês conversam com ela.
Entramos no jogo. O pai-de-santo fez lá a mandinga dele e, até prova em contrário, incorporou a tal entidade. Ela, com aquele linguajar característico, disse que estava muito triste com o que estava acontecendo em sua casa. Seu filho tinha enveredado por um caminho torto. Ia nos ajudar. Escreveria um bilhete que deveria ser entregue às mãos de um cabeleireiro, cujo salão situava-se em outra cidade. Fomos até lá. O cabeleireiro, após ler o bilhete, desmunhecadamente apontou o criminoso. Prendêmo-lo. No trajeto para a DP, ainda na viatura, ele confessou que tinha fugido de um município vizinho, onde havia assassinado a mulher e a sogra.
A profissão tem seus momentos bons. A satisfação do lesado quando recuperamos e restituímos um bem subtraído. O alívio dos familiares quando resgatamos um seqüestrado. Isso dá um certo orgulho e me faz lembrar de outra situação, digamos, insólita: uma senhora idosa, bastante nervosa, entra na DP e diz que está sendo ameaçada por um homem, que telefonava a cobrar para sua casa e sabia tudo sobre ela e sua família. Mostra a conta e o número do celular. Sabia que se fosse conduzir a investigação pelos trâmites convencionais - redigir informação para o delegado acerca da necessidade de representação ao Juiz pela quebra de sigilo de dados referente à tal linha de telefone; elaboração, pela Autoridade Policial da representação; encaminhar a representação para o fórum; aguardar deferimento do MM. Juiz; remeter decisão para a operadora de telefonia; aguardar resposta da operadora - levaria meses. Decidi agir. Telefonei para o número. O cara atendeu.
- Alô.
- Bom dia, caro amigo. Meu nome é Asdrúbal, sou operador do setor de atendimento ao cliente das Lojas Ponto Frio e tenho a grata satisfação de lhe informar que você foi sorteado dentre milhares de candidatos para participar de nossa promoção "Semp-Toshiba, Ponto Frio e Você, Tudo a Ver". Você estará tendo a oportunidade de concorrer a um televisor Semp-Toshiba, modelo C-290, de vinte e nove polegadas, que será entregue em sua residência, sem despesa alguma, bastando que para isso responda a uma simples pergunta. - falei, sem respirar e sem dar tempo de o cara pensar. - Qual a melhor loja de eletro-eletrônicos do Brasil?
- Ponto Frio! - o cara mandou, na lata.
- Parabéns, caro amigo! Você acaba de se tornar o feliz proprietário de um televisor de vinte e nove polegadas Semp-Toshiba. Agora, preciso de seus dados para a entrega do aparelho.
- Mas eu não vou pagar nada não?
- Absolutamente. Todas as despesas são por conta do Ponto Frio. Qual seu nome e endereço?
O cara passou tudo: nome, endereço, telefone, RG, CPF, nome do pai, da mãe, número do sapato, cor preferida, time do coração... Esperou uma televisão, recebeu uma intimação. A senhora idosa não foi mais importunada e, é claro, ficou muito satisfeita com a eficiência da polícia. Passou a reclamar menos na hora de pagar seus impostos.
Embora tenha passado a apreciar meu trabalho, não sei por quanto tempo permanecerei. O problema é o salário. Baixo demais para a atividade desempenhada e o risco que ela envolve. Ademais, a vagabundagem não vai parar de atirar. Tiros de fuzil. Fazem um tremendo estrago. O mundo vai continuar sendo um mundo-cão cheio de gente que tem medo e gente que mete medo. Já cantava Raul: "Durango Kid só existe no gibi, e quem quiser que fique aqui, entrar pra história é com vocês." Fico com ele.

Carlos Cruz - 12/12/2007