domingo, 22 de outubro de 2017

Alérgico ma non troppo



Dia desses experienciei aquilo que talvez seja o que experiencia as pessoas que morrem de morte morrida.
Cumpria meu plantão semanal de quarenta e oito horas na Delegacia de Polícia de Vassouras, quando tive uma ideia genial para combater um raio de um torcicolo que estava me incomodando horrores: além dos analgésicos, decidi comprar e chapar um comprimido do anti-inflamatório diclofenaco potássico, mais conhecido como Cataflan. Useiro e vezeiro na sofisticada arte da automedicação, desde quando era criança pequena lá em Barbacena, pensei: se não fizer bem, decerto mal não fará. Pra ficar um coquetel bacana, tomei mais uma dipirona e um Dorflex, concomitantemente (a concomitância medicamentosa é a cereja do bolo da automedicação).
Minutos depois, enquanto ouvia uma senhora reclamar dos latidos noturnos do labrador do vizinho, a coceira começou: primeiro, um pruridozinho no alto do cocuruto; depois, o saco comichando mais do que o normal; depois os braços, o tórax, as pernas, o cu, a comichão foi se alastrando por todo o corpo. Já conhecia aqueles sintomas, pois não era a primeira vez que tinha... alergia! Sentindo o rosto em chamas, pedi desculpas à senhora insone e ao colega que segurasse o plantão. “Cara, você tá vermelho igual um tomate!” – o coleguinha, sempre gentil.
Corri ao hospital, coçando-me todo qual um cão sarnento. Esperei sem qualquer paciência o atendente preencher minha ficha – “é a primeira consulta do senhor? Qual seu nome, endereço, telefone? Tem alguma doença? Tomou algum medicamento recente? Qual o seu time? É biscoito ou bolacha, o certo?”
Eternos minutos depois, a consulta. Pressão: 15 x 7. É alérgico a algum outro medicamento? Sim: penicilina e seus derivados. Aguarde um pouco que vamos lhe aplicar uma medicação. Qual? Fenergan e hidrocortisona. Beleza. Ah, o senhor é policial civil? Sim. Perdi o documento do meu carro. Caramba, que chato; se eu sobreviver, vai na delegacia depois que faço o registro de extravio. Ok.
Sou instruído a aguardar em uma sala onde várias pessoas estão sentadas em um semicírculo. Um senhor com o pé inchado e uma ferida purulenta na sola. Diabetes; penso em papai, também diabético, também com recorrentes feridas nas solas dos pés. Outras pessoas recebem medicação intravenosa.
Espero. A eternidade. A comichão se espalhando, a cara pegando fogo. Quando já me preparava pra arrancar as roupas a fim de facilitar a coçação, os remédios chegam. Injeção no braço, injeção na bunda. Não tenho o mínimo pudor em arriar parte da calça e exibir parte do glúteo direito pra todos que estão na sala. O que é uma bunda peluda diante de um problema de saúde cabeludo e urgente? A enfermeira é hábil, quando percebo os medicamentos já estão circulando no meu corpo. Agora é só aguardar eles fazerem efeito. Obrigado, moça. Ah, o senhor é policial civil? Tô com um problema com a minha vizinha, ela é uma tremenda fofoqueira e fez uns comentários a meu respeito que estão me causando problemas com meu marido... A medicação começa a surtir efeito, sinto-me mal, um torpor, a boca seca, um zunido estranho no ouvido esquerdo. Moça, desculpe te interromper, mas estou me sentindo mal. Vamos medir sua pressão... 9 x 5. Espere lá na sala. Daqui a pouco você vai se sentir melhor. Obrigado.
Sento novamente no semicírculo. O velho da ferida no pé inchado aponta pra mim: ele tá passando mal. Tô, meu senhor que lembra meu pai, tô muito mal. A luz fria das lâmpadas aumenta de intensidade, mais forte, mais, mais... “Vá para a luz, Carolaine!” – lembro da médium anã de Poltergeist e sua voz irritante. As pessoas ao redor estão diferentes, seus traços, suas cores vão ficando mais acentuados: estão virando personagens de desenho animado. A qualquer momento vai aparecer uma caralha de um túnel iluminado cheio de vultos com os braços estendidos para me abraçar, me imobilizar e me conduzir coercitiva e docemente para a Terra-dos-Pés-Juntos. “Não vou pra porra de luz nenhuma, caralho!” – grito. Todos me olham com cara de “coitado... é maluco...” Sinto que vou desmaiar a qualquer momento, na dúvida se vou continuar sentado ou deslizar para o chão e acordar em uma cama com grades cinza baixinhas e duas lâmpadas fluorescentes fazendo meus olhos arderem. O pior da sensação de desmaio iminente é pensar na total perda de controle sobre a sua vida durante o período de inconsciência: sua existência estará – à revelia da sua vontade – nas mãos de pessoas estranhas. Lembro da cena de algum filme ou série em que o paciente estrebucha, os aparelhos apitando estridentemente aquele apito monocórdio da morte, enquanto a enfermeira e o médico fodem selvagemente no quarto contíguo, aquela foda rica em acordes dissonantes da vida.
Mas não foi dessa vez que bati as cachuletas. Aos poucos, a intensidade da luz foi arrefecendo, as pessoas voltando do mundo das HQs para a opaca vida real. Voltei do limbo. Agradeci aos profissionais de saúde e saí pra fumar e retomar minhas atividades e tentar calar os cachorros que latem e as vizinhas que tecem maledicências prejudiciais à harmonia conjugal.
Nota mental: fiz filho e plantei árvore. Lembrar de pedir urgente a devolução dos textos originais àquele editor. Não ouvir o disco 1001 dos 1001 discos pra ouvir antes de morrer.
Ah, e antes qu’eu me esqueça: sifudê, baixinha filha da puta do Poltergeist!

Nenhum comentário: