domingo, 18 de dezembro de 2011

mundo perro - final





dolorido, desperto. deparo um mar de branco hospitalar. sinto-me um náufrago em minha solidão. a felicidade debandou ou viajou em férias ao camboja. quem sabe virou cinzas, causticada pelos pássaros de fogo. as lembranças vêm em pequenas doses, ao sabor do latejar do meu ombro. santiago aparece. segundo ele, surtei de alto a baixo, de frente e de costas, por dentro e por fora. em suma: endoideci geral e de vez naquela vez. serei avaliado e muitíssimo provavelmente - creio ainda não ter referido a simpatia de santiago pelos superlativos absolutos sintéticos - afastado pela psiquiatria; readaptado, talvez. felizmente - disse-me ele - não matou nem feriu ninguém. o computador do plantão, porém - coitado! - já era. virou uma peneira. trinta e um tiros é tiro pra caralho! você tava mesmo com raiva do pobre. volvi a cabeça e de soslaio, sorri esboçado e satisfeito como o jogador que vence a partida. missão cumprida. eu destruíra a caixa de pandora e salvara o mundo. glória a hesíodo! e a mim, claro. de preferência, acompanhada de uma medalha e uma promoção por bravura. afinal, a escassez de heróis demanda lauréis aos intimoratos necessitados de um cascalho a mais pra gastar com pornografias culturais e vícios legais. porque sou - convém jamais esquecer, sequer por um (seria ótimo?) átimo: um homem da Lei! VAGABUNDOS DE TODO O ESTADO, DO TIPO CORRIQUEIRO OU NEO-CONVERTIDOS CAOZEIROS, TREMEI! investigador arquimedes, o martelo da justiça, o flagelo dos párias, ainda está no páreo! a trovoada seguida do matraquear do granizo sobre o telhado galvanizado deu o tom maldito propício ao fechamento da diatribe. o céu desabava sobre as cacholas dos humanos, contribuintes e não. uma exaltação brotada na planta dos pés - pra não dizer frenesi, sempre achei um termo meio gay - escalou, deliciosamente implacável - nada adiantou, ficou gay do mesmo jeito - meu corpo e descambou e explodiu no cérebro. olhei a cidade enevoada e fluida e tive a certeza da inutilidade da minha existência. por isso e somente por isso, pela primeira vez, senti-me parte do todo social, mais idiota do que nunca. tive ímpetos de gargalhar.


e gargalhei.



Carlos Cruz - 18/12/2011

mundo perro - parte 6




giroflex vermelhos girando e girando e girando. sem parar. vermelho. sangue. vernelho-sangue. um sujeito negro chafurdando no seu próprio sangue no piso amarelo. pms com testas franzidas, fardas cinzas engomadas, olhos injetados. sangue. olhos de sangue. sangue nos olhos. ao balcão, uma mulata chora. olhos entalhados no fundo de olheiras negras chovem em conta-gotas. lágrimas ininterruptas, fartas. sangue. lágrimas de sangue. farto, de novo novamente mais uma vez. estou farto e trêmulo. insano, enfim, estremeço. atirar! quero muito. necessito atirar! e atiro. descarrego minha pistola. recarrego, atiro de novo e de novo e de novo. alvoroço. pandemônio. pessoas ao chão. pms e civis e santiago se entreolhando, atônitos. em meio ao caos, transtornadamente tresloucado, sinto o calor no ombro somente quando a munição acaba. fumaça, neblina e cheiro de pólvora. o fluido vermelho que jorra, a cântaros, torna-se uma mancha crescente no piso amarelo. concomitante, choro e rio. babo também, acho. ora penso estar louco e sou tomado por um sentimento que acredito ser a alardeada, almejada felicidade; ora sobrevêm a decepção a partir da constatação de que ainda concateno pensamentos. dizem que os loucos não pensam. penso, logo, raciocino, logo, ajo em conformidade com a razão. quem disse isso? há estudos científicos comprobatórios de tal assertiva? ou serão meras quimeras dos dementes? não tenho respostas nem as desejo, quero apenas prolongar essa sensação de purificação libertária, esse júbilo remissivo que me enche de paz e me dá ganas de morder os dedos do pé e cantar as músicas do Benito di Paula. justo nesse instante - por que tão fugaz? - vejo a luz. vá para a luz, caroline! feliz, sim!, imirjo na lagoa rubra iluminada por pássaros de fogo emissários do hades. apago a luz e acendo um sorriso sem dentes no canto da boca. desapegado e telúrico, etéreo e com pés plúmbeos, não ascendo. a vida, afinal, não é assim tão ruim.


mundo perro - parte 5




paradoxal a ponto de reluzir e ainda assim - por muito pouco - quase não existir, modorrenta, turva, frenética, trágica, bela (como deve ser, a despeito dos implantes e peitos de jabulanis e ferraris e perfumes importados que fazem espirrar), a deambulação emitiu seu derradeiro estertor, descambou onde deveria - quiçá - o inevitável dever desgraçado e a monocórdia ladainha incessante: só pode nunca poder nada. se foder-se! de verde, de amarelo, de azul, de branco. de preto & branco. a vascaína tá dobrando a esquina. vaza, vagabundo! desinfle até virar galho de goiabeira. vou e volto sem sair do lugar. será a tal metamorfose? ansiada, dentre outros malucos, por literatos?, musicistas?, vates?. ah! vá te danar! ou vai se! pra não eriçar tão-só um gramático braço. não dá pra ser metamorfose, tampouco ambulante. os GM zunem cassetetes na cacunda e ninguém tá aí de plantão louco pra sofrer. só os S&M de araque e os leitores do caderno B. se uso avanço, ninfas avançam; se axe, exalo axiomas. piadinhas infames. adoro. e tudo isso somente pra dizer que cheguei na DP. comichão nos dedos. vontade de atirar da porra! tem nome isso, certamente tem. síndrome do desejo irrefreável e irresistível de atirar com armas de fogo (há atiradeiras ou bodoques no Sítio do Pica Pau Amarelo, nunca é demais relembrar, mesmo que os garotos informáticos e x-bóxticos desconheçam). deve existir. outra psicossomose bacana que consta ou deveria constar do vade mecum da psiquiatria: dependência de dupla penetração na delegacia de polícia. a merda é que só mulher feia e viado iam sofrer dessa porcaria. bosta!

gravura: Butcher, Baker etc by Dominic Marco

sábado, 3 de dezembro de 2011

mundo perro - parte 4



a noite estava ainda mais fria. o asfalto úmido indicava chuva recente. se acreditasse que possuía alma, diria que ela estava tão fria como o clima noturno. minha cabeça acompanhava o fluxo de meus pensamentos que giravam alucinados por tempos, pensadores, bebedeiras e bucetas distantes ou nem tanto. como sempre acontecia quando bebia, tinha vontade de atirar, mas o homem-da-lei sofreava o desejo. súbito, surgiu um motorista apressado na via, bastante comum a essas horas avançadas, decerto movido e motivado pelo álcool e/ou outros entorpecentes lícitos e ilícitos. quando emparelhou comigo, reles transeunte ébrio, passou propositalmente sobre uma poça. tomei um banho de água suja e gélida. apesar da obscuridade, pude ver o sorriso do sem-mãe. FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! saquei a arma, mirei a traseira do auto, um Jaguar XKR conversível e atirei. para o alto. por pouco a razão não perde a peleja para o coquetel de raiva e vodka. por um triz. imaginei as manchetes no dia seguinte, primeira página do meia hora e do dia: POLICIAL BÊBADO ATIRA E MATA MOTORISTA. O investigador da Polícia Civil Arquimedes Sampaio, após sair da boate Savana's, conhecido inferninho de Copacabana, ponto de encontro de prostitutas, travestis e criminosos, assassinou covardemente o estudante Felipe Stonnenberger de Alvarenga na madrugada de ontem... não. definitivamente não. não vou dar mole pra esses putos. que crucifiquem outros pra vender seus tablóides de merda. parte do porre havia passado. encharcado, tiritava. novamente pensei na minha condição miserável. sim, era isso que eu era, um miserável, um merda. a melancolia sobreveio com força total, a boca medonha cheia de dentes afiados e alaranjados devorando-me pela cabeça. senti seu hálito nauseabundo, sua saliva gosmenta melando meus cabelos e meu ânimo de viver. um tiro na cabeça, morte rápida e indolor. indolor? será? ninguém tinha voltado da sepultura para lhe contar se realmente aquele átimo derradeiro e crucial doía ou não. acho que deve ser uma dor lancinante, a maior dor que existe no universo. depois, acabou.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

micropoeta




o poeta é um prostituto
finge quase sempre


mente


de quando em quando,
goza


sente,
sempre


o poeta é um puto.

Carlos Cruz - 20/10/2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

mundo perro - parte 3



Cheguei ao Savana's. À entrada, constatei que o segurança era novato. Boa noite. O Rubi não veio trabalhar hoje? Do alto de seus muitos centímetros, o brutamontes dardejou um olhar hostil. Rugiu: quem quer saber? saquei a carteira - bendita carteira - e quase a enfiei na cara do negão de paletó, gravata e calça negra de tergal; o distintivo, mesmo velho e opaco, refletiu tênue a luz vermelha que provinha do interior da boate. investigador Arquimedes. a primeira reação do corpulento foi nenhuma reação. a mesma expressão carrancuda, a mesma atitude animosa. sessenta segundos depois, uma frase seca: espera aqui, vou chamar. entrou no inferninho. Enquanto aguardava, saboreava os odores que o lugar emanava, uma mescla de fumaça de chiclete tutti fruti, perfume barato e nicotina. Os aromas combinados às luzes multicoloridas e ao blues em alto volume faziam daquele lugar o paraíso na terra. ao menos para mim e os outros sacripantas bêbados embevecidos podres com quem certamente esbarraria lá dentro. queria entrar logo e me inebriar, tornar-me fumaça cheirosa e fétida, carne líquida inflamável, mergulhar e dissolver no oceano de bucetas altruístas e dissolutas, metamorfosear-me no ser primordial, metafísica e antropofagicamente ideal. quando minha ansiedade beirava o ápice, Rubi apareceu, magro, baixo e feio. sempre que o via, pensava: como um sujeito desses pode ser leão-de-chácara? o pensamento invariavelmente vinha acompanhado da impressão de que ele estava mais magro, mais baixo e mais feio. grande arquimedes, o melhor investigador da polícia civil do estado do rio! grande rubykleysson, o maior puxa-saco da vagabundagem do estado do rio! ei, alto lá, doutor! posso ser tudo mas vagabundo não sou não! trabalho e ganho meu pão honestamente. parou de traficar? pô, doutor, isso são águas passadas... agora, sou um homem lavado e remido no sangue de jesus. ah, tá. então, também não come mais as putas. bom... ninguém é de ferro, né, doutor? e jesus perdoa o pecador arrependido. ele é misericordioso. o senhor vai entrar? tem carne nova na casa, uma loirinha de olhos azuis, peitão, uma bunda de deixar qualquer um doido. sei. e você, é claro, já pegou. não, ela diz que não mistura trabalho com prazer. aquele papo de onde se ganha o pão não se come a carne. é um saco... Arquimedes esboçou um meio-sorriso. entrou.

casa cheia, mas não lotada. dava para se esgueirar entre os fregueses sem esbarrões ou pisadas. "fregueses o caralho! cli-en-tes!", diria madame samanta, a santa. com seus quase setenta, ainda fazia milagres na alcova, "dá até bicicleta em cima do pau", diziam. aproximei-me do palco, onde uma menina - que dificilmente convenceria alguém de sua maioridade - requebrava-se sensual e desajeitadamente e fazia caras e bocas para os putos que fumavam, bebiam e conversavam em tom elevado. cambada de porcos! poucos assistiam ao espetáculo. somei-me a eles. muddy waters, em um tom pontual e flácido, cantava "mannish boy" especialmente para a menina, parecia saber que aquele era o momento dela, só dela. aquela era uma das razões porque frequentava o savana's. o blues. a maioria das casas do gênero tocava apenas música eletrônica, aquele bate-estaca infernal que fazia minha cabeça doer. se não bastasse, ainda usavam aquelas luzes estroboscópicas que me deixavam zonzo. no savana's era diferente. boa música em volume razoável, luzes parcimoniosas. mirei novamente a moça, podia jurar que sua performance havia melhorado. "performance", odeio esta palavra. de repente, ela olhou para mim e sorriu. não retribuí o sorriso. sentia-me triste aquela noite, acho que mais uma vez os problemas fétidos do mundo invadiam sorrateiramente meu cérebro e se espalhavam pelo corpo todo, qual um câncer, qual odor de gente morta quando começa a putrefação. não era a primeira vez que isso acontecia. por mais que me esforçasse para mantê-los à distância e na companhia de seus donos, eles teimavam em me assaltar, me barbarizar, me emporcalhar com a sua pestilência fedorenta e voraz. você está melancólico hoje, santiago dizia. melancólico o cacete! vai se foder!, eu retrucava. a menina continuava sua ofídica dança, evoluía, dançava melhor com certeza. senti um cheiro forte, de um perfume que eu conhecia bem, francês. impôs-se sobre os outros odores não menos densos. sílvia! virei-me, dois passos e foi-se o metro que nos separava. engalfinhamo-nos naquela volúpia sôfrega e tenaz típica dos amantes que amam apenas com o corpo. beijei aquela boca vermelha como se fosse a última boca feminina na face do globo, suguei sua língua com ardor, sem pensar nos paus que ela havia acariciado naquela jornada de trabalho e em outras, centenas, milhares talvez. sabia beijar, a sílvia. assim como sabia chupar um pau. e foder. fodia muito. acho que o sucesso de sílvia se devia a um princípio simples que a aproximava de outros profissionais bem-sucedidos: ela gostava do que fazia. gozava, com quase todos os clientes, segundo me confidenciou numa dessas noites, entre uma trepada fenomenal e outra nem tanto. mas beijo na boca não, me disse certa vez, beijo na boca é só com você, meu pm gostoso. não sou pm, porra! quantas vezes tenho que repetir isso? ôôô... ficou bravinho? adoro quando você fica bravo... vem meter seu cassetete em mim, vem, meu policial malvado... esse diálogo invariavelmente terminava em uma daquelas camas sujas lá nos fundos da boate. mas nessa noite foi diferente. sílvia estava reservada para um gringo endinheirado, um magnata da internet, ela disse. fiquei puto. quando vi o sujeito, fiquei mais puto ainda. branco pálido, cara cheia de espinhas, uns vinte e cinco anos de idade, tênis nike colorido cheio de molas, calça jeans e camisa do chicago bulls. então aquilo era o tal magnata? ah, vai se foder! arrastada pelo braço, antes de sumir atrás da cortina vermelha, a puta ainda me jogou um beijo. minha melancolia voltou com toda a força. segui até o bar e pedi um uísque duplo. virei. pedi mais um. virei. outro. saí da boate, completamente e estupidamente bêbado.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

mundo perro - parte 2




delegacia cheia. à porta, fila. burburinho que ocasionalmente virava falatório que virava gritaria. era hora de chamar o investigador santiago. mãe angolana e pai sueco, santiago era um misto de hércules com zumbi dos palmares, um mulato de dois metros e dez, forte como um estivador, de olhos claros e cara de bebezão. sim, aquele homenzarrão (ai, meu deus! que bofe é esse? remeti (ã?) ao amigo do salão. inevitável.) tinha traços delicados, bochechudo como um bebê de oito meses. daí a alcunha babyssauro, pronunciada entredentes, na delegacia. contudo, a impostura que faltava ao rosto sobejava no tamanho. santiago apareceu no andar de baixo. inopinado. nem precisava dizer nada, bastava chegar e ser visto. mas, a pseudotruculência era mais que uma ferramenta de trabalho, era uma necessidade pessoal, um recurso - eficaz, é verdade - para tentar rebater a brandura transmitida pela cara de neném. e ele disse, disse não, esbravejou (tá legal, sou besta, pronto): VAMOS PARAR COM A PORRA DESSA ALGAZARRA AQUI NA DELEGACIA! ONDE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO, CAMBADA DE FILHOS DA PUTA, NA MERDA DA CARALHA DA FODIDA DA CASA DE VOCÊS? PORRA! O PORRA! sempre arrematava o esculacho verbal, uma espécie de fechamento triunfal, "chave de ouro", diria professor diocleciano, do curso de oratória. O fato é que o esporro funcionou, mais uma vez. infalível, indefectível, batata. Atravessei a turba estática e com grandes olhos e quebrei o silêncio sepulcral: Santiago, segura aí. Vou comer alguma coisa. tá. mas vê se volta hoje. Vou tentar.

A noite estava fria, escura e malcheirosa. Uma brisazinha gelada e incômoda com odor de comida podre e urina esgueirava-se pelas frestas de meu paletó vagabundo comprado na loja do turco. Turco filho da puta! Vendia merda pelo preço de merda. Pensando bem, era justo. Pensando bem, o fodido era eu. Mamãe sempre dizia: estuda filho, estuda pra virar doutor e ganhar bem. Não. Não segui o conselho de mamãe. Virei polícia. Horas e horas perdidas com a cara enfiada em apostilas, livros, monitor do computador. A prova massacrante, a tonteira no final, o tombo-semi-desmaio. Um quase infarto no teste físico. Um quase surto no psicotécnico. Pra quê? Pra ganhar um salário de fome, ser taxado de corrupto e truculento pelos putos que jurei defender, sacrificar a própria vida se preciso for. Pensando bem, filho da puta era o sistema, o estado, o governo. Pensando melhor (e para encerrar a costumeira diatribe muda), o filho da puta era eu.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

mundo perro - parte 1





"PERDEU, PLAYBOY!" "SE FUDEU, OTÁRIO!" "VAI TOMAR NO OLHO DO SEU CU, FILHO DA PUTA BABACA!" "VOU ACABAR COM A SUA RAÇA, SEU MERDA!"
Caixa alta, entre aspas. Assim me ensinaram na Academia de Polícia. Após o verbo e os dois pontos. A maioria dos colegas escrevia: ...então, João das Couves (policês acadêmico) disse: ou falou: ou gritou: Eu não. Preferia alternar outros verbos. Vociferar, esbravejar, bradar. Para variar, diria. Mas era mais para me exibir mesmo.

férias... férias. FÉRIAS! EU PRECISO TIRAR FÉRIAS! NÃO AGUENTO MAIS, CARALHO!

homicídios. latrocínios. sequestros. extorsões. extorsões mediante sequestros. roubos. furtos. lesões corporais. brigas. conflitos. pugnas. equimoses violáceas. lacerações. porradas. porradas. mais porradas. pow! blam! como nos gibis do frank miller. estava no limite. no limite. lembro do programa de televisão. precursor do big brother. dois programas idiotas. o segundo bem mais. babacas ávidos pela fama-fácil-sem-fazer-força expunham o que tinham de melhor: rostinhos bonitos e corpinhos sarados. caras, bocas e argumentos vazios para ludibriar os milhões de telespectros brasileños. ficaria george orwell satisfeito se vislumbrasse em que descambaria sua totalitária sociedade, sua personagem mão-de-ferro invisível que tudo via, sabia, controlava e reprimia? difícil saber. talvez almejasse a materialização da personagem, para botar ordem na casa, reprimir a súcia acéfala cheia de dentes e poses. apesar de que, e não se deve desconsiderar, há autores que dizem preferir as saudações pomposas e afetadas da crítica ao consumo desenfreado da populaça. balela! toda bexiga quer virar balão. e ganhar uma prata, pois prata é sinônimo de diversão em excesso e excessos despertam inspiração.

"conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". assim escreveu zaratustra, o discípulo. não. foi outro. barbudo. outro barbudo. que seguia aquele que alguns místicos asseguram ser zoroastro reencarnado. depois assassinado e ressuscitado. é a verdade. porque está nas escrituras sagradas. sagradas? todo escrito é sagrado. menos o diário oficial e a bula papal. o quê você disse? sei que vão cair de pau. afinal, escreveu, não leu, pau comeu! mas voltemos à verdade. a verdade é que só existe uma única verdade, ao menos para mim naquela noite fria: eu estava de - sa - co - che - i - o! por que e pra que tamanha mediocridade? beber é bom. dançar também. bater papo furado idem. foder, ah! gozei! nem vou mencionar a leitura de bons livros ou a audição de algum blues - qualquer um - ou até mesmo música erudita, pois isso é prazer para bestas empoladas como eu. por que os filhos da puta tinham sempre, invariavelmente, que se engalfinhar, dar socos, morder, enfiar facas, dar tiros nos seus semelhantes? seria um insight? uma consciência súbita e avassaladora de sua torpe condição refletida no outro? cadê minha psicóloga predileta quando preciso dela?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

te julho





inóspito
te vi deserto
exilada
de si


cético
te vi axioma
salpicada
de sins


cáustico
te vi inverno
enevoada
de giz


lúbrico
te vi ninfa
lambuzada
de gim


esquálido
te vi árvore
desfolhada
de mim


se seca
se certa
se fria
se louca
se feia


se julho


te julho
te juro
te furo
te curo
te curro


te amo


Carlos Cruz - 26/04/11
*Gravura: Otra Mirada, de Modesto Trigo.

domingo, 24 de abril de 2011

As Bodas de Fígado




Casou-se moço, no auge de seu vigor produtivo: viçoso, trigueiro, reluzente, belo. Celebração natural de um amor brotado à primeira mirada, os folguedos vararam madrugadas e dias, de sol, fogo, chuva, mormaço. Malgrado protestos, sem cocas, crushs ou tubaínas afins, barraram-se os crentes à porta. Assevera a História Oral que o bagulho foi frenético, bombou. Pena o festivo começo não ter escapado à sanha tradicional dos matrimônios felizes. Amante fogosa, insaciável, ela reclamava elevadas e diuturnas performances e potências do fatigado cônjuge que, herculeamente, desdobrava tripas para satisfazer à amada. Debalde. Tamanha azáfama cotidiana fê-lo, paulatinamente, murcho, verde, opaco, feio de se ver. Apaixonado, chupado pelo amor que devora, consumiu-se até à morte; feliz. Doña Calibrina, a viúva, dizem, à boca pequena, logo anunciou núpcias novas, desta feita, múltiplas. Dada a profusão de pretendentes, decidiu-se por todos. Embevecidos, festejam os excessos da esposa volúvel. De quando em vez, tomba um. Outros poucos convertem-se à seita das vogais iguais. Porém, muitos outros vêm e juntam-se à bacanal. Sempre sorrindo, Doña Calibrina dança. E queima. E roda. Roda. Roda. Roda.


Carlos Cruz - 20/04/2011

* Pintura de Serhiy Reznichenko.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Da Volatilidade da Alma



Teria me espatifado. Elegante, escarlate e estrondosamente. Quem disse que não pode existir elegância e até mesmo sofisticação na morte? E solenidade, é claro. Porque a morte é sempre silenciosa e esse silêncio, até prova contrária, é solene. Como o roxo que forra os esquifes, solenes mas nada elegantes. Os gases, os odores pútridos vêm depois, junto com o esquecimento ou, quem sabe, alguns segundos de atenção virtual, imaginária ou até mesmo real, caso tenha aquela coisa que denominam talento. Sorte, não. A sorte não acompanha o talento, dispõe-se de um ou de outro, qual o amor e o jogo.
Teria me espatifado. Não fosse aquele confortável sofá. Décadas de letargia, apatia e imobilidade, naquele plúmbeo e belo dia de chuva, decidi voar, sem mais nem porquê; certos atos não se explicam, só se executam, durante e depois: sorria! Você não é a ruidosa máquina de colher laranjas! Flexionei as pernas e impulsionei o corpo, um salto libertário para a vida que fica no alto, no baixo, no interior do planeta e da cabeça. Alcei o voo do chega!, do basta!, do foda-se o mundo que eu quero viver! A adrenalina emotiva produzia calor, rebatia o frio da garoa fina e da atmosfera rarefeita. Farto de ser homem, usufruía minha condição de pássaro, procurando enxotar o pensamento que teimosamente me inculcava a fugacidade daquele arrebatamento. Tanto insistiu que conseguiu seu maléfico intento: o motor tossiu, tossiu, falhou; as asas rígidas e longas amoleceram e gotejaram, como sorvete de pistache. Reeditado Ícaro, despenquei qual um fragmento de estrela, incandescente corpo celeste oriundo de uma galáxia distante, desfrutando radiante meus segundos de brilho. Morri, porque toda mudança é uma forma diferente de morrer. Todavia, desta feita, morri feliz. Graças àquele sofá comprido e macio. E àquela senhora de tez muito branca e voz amena. Atônito, corri os olhos por aquela sala espaçosa e atravancada: um enorme televisor exibia um dos mundo animal da National Geographic, parecia pesado; não o programa, o televisor. Ao longo dos quatro cantos havia uma infinidade de imagens sacras, porta-retratos, estatuetas, souvenirs diversos, tudo sobre móveis antigos, de madeira de lei. Nas paredes, quadros, muitos quadros, paisagens, em sua maioria. O maior deles despertou minha atenção: exibia o rosto de um homem branco com sobrancelhas espessas, olhos pequenos e intensos, ligeiramente calvo, de sorriso tímido e expressão inteligente. Parecia me dizer: "seja bem-vindo à minha casa." Foi nesse exato momento que deixei de ser pássaro e voltei à condição de homem, e, o melhor é que me senti maravilhosamente bem, tomado por uma sensação inexprimível de bem-estar, de paz comigo e com o universo.
A voz da senhora de pele muito branca, ao invés de sacar-me de meu devaneio, fundiu-se a ele de maneira sutil: "Qual o seu nome, meu filho?" Não soube responder de imediato; a transmutação, o salto, a viagem atemporal, extra-dimensional através do firmamento fizeram-me esquecer de mim. Mas, paulatinamente, minhas memórias humanas retornaram. Falei meu nome, ela disse o dela: Eloíza. Ofereceu-me café. Conversamos, horas e horas, nas quais percebi estar diante de uma pessoa sábia, muito sábia. Falamos das maravilhas dos mundos antigo e moderno, da Renascença, de Ben-Hur, da administração do Faraó Akhenaton, das origens da terracota. Ela me propôs novas viagens, desta feita sem falhas, sem quedas. Aceitei de pronto. Ensinou-me a técnica para me manter suspenso, bastava pensar em coisas boas, permitir o afluxo de sentimentos bons, amar e sorrir, sempre e somente.
Segurou minha mão esquerda e me conduziu em torno do globo, voltas e voltas e voltas, trânsito em épocas distintas, mostrou-me grandes feitos de grandes homens. Mas não somente o belo, pois, "o espírito humano não se compõe só de beleza, é também grotesco, feio, sujo e bizarro". Vi o produto da intolerância e mesquinhez humana, vi guerras, muitas; sangue, litros e litros do líquido carmesim a manchar indelével almas e naturezas, mortas, quase sempre.
Fizemos muitas viagens interessantes. Contudo, eu era apenas um forasteiro que caíra do céu. O mesmo não se pode dizer acerca da sapiência de Dona Eloíza, cuja fama atraía uma multidão de sequiosos e necessitados. Filas. Romarias diárias, caravanas oriundas de todas as partes, próximas e longínquas. Ricos, pobres, doutores, analfabetos, brancos, negros, amarelos, miscigenados, todos em busca dos sábios aconselhamentos, da luz, da resolução de seus problemas. Entre panos de prato, livros, revistas, anotações e contas, pródiga, ela distribuía soluções e sorrisos. Promovia reconciliações, celebrava casamentos, arrebatava endividados da forca; não existia, para a Sábia Eloíza, túnel hermético ou logradouro sem saída.
Igualitária, justa, não mensurava pessoas. Certa feita, um político prepotente, acostumado a regalias e paparicos, pretendeu privilégios antecipatórios em detrimento dos demais pacientes que aguardavam, pacientes. Exasperada, ela explodiu: "Mas que merda! Se Vossa Excelência se considera mais importante que os outros que aqui estão, e, por isso requer prioridade, faça o seguinte: defeque num pote e traga aqui. Se vosso parlamentar excremento exalar um odor perfumado, atendo-o primeiro." Cabisbaixo, o homem público foi postar-se ao final da fila.
Os dias passavam, solenes e felizes. Vez ou outra, alçávamos voo, Dona Eloíza e eu, o único a receber as instruções. Não sei por que fui o escolhido. Talvez empatia entre espíritos curiosos, buliçosos. Voávamos e eu aprendia, novos acréscimos de conhecimento a cada viagem. Porém, dentre todas as lições ministradas por Dona Eloíza, a maior, indubitavelmente, dizia respeito ao valor da família. Jamais vou esquecer aquelas ruidosas e festivas noites de Natal, os enfeites, os pisca-piscas, os amigos-ocultos, os presentes sorteados, as orações de mãos dadas, os sorrisos profusos, o "ciscar pra dentro", as mesas fartas e ela no centro da sala, maestrina habilidosa a reger com amor sua bela, louca e perfeita orquestra familiar.
Entretanto, a luz emanada por Dona Eloíza não era suficiente para iluminar o mundo, que seguia girando, com sua superfície abarrotada de humanos, dia a dia mais estúpidos e embrutecidos. Melancólica, olhos mareados, cada nova notícia funesta suscitava um comentário que se tornara recorrente: "Acho que já vivi demais..."
Era um dia cinza, um dia triste. Uma bruma fria ocultava a cidade e seus habitantes. Reinava um silêncio opressivo, não se ouvia voz humana, nem ruídos de veículos, nem cantos de pássaros. As folhas condensavam a fina garoa, gotejavam, monotonamente. Qual a cidade, o silêncio dominava a casa, parecia que o ar se tornava sólido, pesado. Uma espécie de languidez se apoderava de meu corpo, sentia uma pressão estranha no peito, como se meu coração se transmutasse, gradativa e dolorosamente, em pedra. Dona Eloíza, com o rosto pálido, profundas olheiras, mas não menos bela, disse-me com aquela voz calma que transmitia calma: "Filho, preciso falar-lhe." Apurei os ouvidos, concentrei-me, ávido por novos saberes. Contudo, desta feita, não houve ensinamentos, ao menos, não o que eu esperava. "Farei minha última viagem, mas, dessa vez, tenho de ir só. Estou cansada, muito cansada... Parece que tudo o que fiz pelas pessoas foi em vão. Só o que vejo são desgraças, intolerância, discórdias, guerras, pessoas matando pessoas por qualquer motivo..." "Não!" - interrompi-a - "Nada foi em vão. O mundo não seria o mesmo sem a senhora, sem sua sabedoria, seus ensinamentos valiosos." "Talvez..." - retorquiu - "Mas o fato é que preciso descansar... Cuide-se, meu filho, e lembre-se do que lhe ensinei, não se deixe influenciar pela mesquinhez alheia, seja diferente, seja você." Abraçamo-nos e choramos. Ela reuniu a família, despediu-se de todos e partiu. A neblina, a garoa, o silêncio daquele dia estenderam-se por todo aquele mês. A Mãe Natureza pranteava a partida de Dona Eloíza. O Mundo ficara mais burro sem ela...
Meses depois, em uma noite de lua cheia, o anjo de asa quebrada teria se espatifado, não fosse aquele confortável sofá. Contou-me sobre a chegada de Dona Eloíza ao Céu. "Uma grande festa!" - disse-me ele - "Há milênios não se via tamanha celebração... Arrisco-me mesmo a dizer que a Festa de Dona Eloíza só perde para a do regresso do Filho de Deus. Também, pudera, o organizador tem excelente gosto, Doutor Muniz, você o conheceu?" "Infelizmente, não" "Sim, nunca vi tamanho luxo, tinha até candelabro... E os comes-e-bebes, então? Hum... Dá água na boca só de pensar... O encontro entre eles foi a coisa mais emocionante jamais vista nas plagas celestiais. Até o Todo-poderoso, que é duro na queda, chorou. Parecia que aquele abraço nunca teria fim. Foi lindo! Depois, dançaram agarradinhos ao som de "Unforgettable", magistralmente executada pela Glenn Miller celeste... Nossa! Fico arrepiado só de lembrar..." À medida que ele falava, as imagens se formavam em meu cérebro; tinha ímpetos de rir e chorar, concomitantemente. "Ah!" - prosseguiu - "ela me pediu que lhes dissesse para ficarem tranquilos, pois sempre velará por todos lá de cima... Dona Eloíza é um anjo, sabia?" "Sim." - retorqui - "Sempre soube disso..."


Carlos Cruz - 20/03/2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Gato Mau



Era uma vez um gato. Um gato mau. Além de mau, mal-humorado. Ficava fulo quando alguém dizia: "olha, que gatinho bonitinho!" "Gatinho bonitinho é o caralho!" - dizia, balouçando o pênis. Um belo dia, uma bela jovem o viu na via e se apaixonou enlouquecidamente pelo bichano. "Bichano é o puto do seu pai!" Ops, desculpe-me. ...e se apaixonou perdidamente pelo felino. Mas ele, bruto que só, nada quis com a pobre moça. "Moça o cacete! Vou mostrar a vocês do que é capaz uma mulher apaixonada. Esse gato há de ser meu!" Cabeleireiro, manicure, banho de loja, batom vermelho, perfume de feromônios e uma lata de sardinha como plano B. Funcionou. Os vizinhos não dormiram aquela madrugada, tamanho o alarido produzido pelos amantes. Pela manhã, cara amassada, remelenta, a mulher arrasta o corpo dolorido para casa. Após o banho, o inexorável espelho. Vê olhos fundos em órbitas fundas envoltas por fundas olheiras. Ao fitar as pernas, depara-se com sulcos esbranquiçados e sinuosos, lembranças de uma noite animal que jamais desapareceriam e seriam transmitidas aos seus descendentes que, por sua vez, repassariam aos seus. Muitos anos depois, um homem chamado especialista poria uns nomes feios e esquisitos naquela coisa feia e esquisita, cuja simples pronúncia do designativo mais simples faria estremecer até a dama mais recatada: hidrolipodistrofia ginóide, dermatopaniculopatia edemato-fibroesclerótica ou, simplesmente, celulite.

Carlos Cruz - 13/07/2010

domingo, 29 de agosto de 2010

Adágio Prestíssimo de Adalgisa Pitonisa




Zarabumbeia a zabumba em derredor do ataúde
A terra engole a prole
de Adalgisa
Esconjuros de ebós de mandingas de "viernes santo"
Um negro ancião estala a língua e os ossos
Socializando o fogo fluido engarrafado na fonte
O futuro é um gato preto com futum de pelo molhado
Jesus Fura-bucho masca mato e cospe cospe cospe
Mariposas em revoada (mariposas revoam?)
antecipam o eclipse vaticinado pelo velho
a barba cofia desconfiado nauseabundo e lúgubre
Se esvai o dia do augúrio mau

Adalgisa chora
Adalgisa grita
Adalgisa cai
A terra devoradora de "niños"
revolve
e rega

Desesperai, filhos do homem!

Adalgisa vê
a luz de Jesus
Adalgisa arrebata
o prateado revólver
cano boca cano boca
estrépito silêncio
sete palmos

dor pungente
finis
mezinha quente

Adalgisa sabia
os mortos não mentem.

Carlos Cruz - 28/07/2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

ensaio sobre a imbecilidade





só imbecis vão ao bar para brigar
só imbecis quebram garrafas cheias de cerveja
na cabeça de outros imbecis
só imbecis desperdiçam o líquido amarelo precioso
borbulhante
e o rubro
espumante
precioso a enfermos e vampiros

só imbecis escrevem imbecilidades
quando não têm nada a dizer aos demais imbecis
que lêem com olhos míopes, turvos e idiotas
palavras imbecis e tortas
pensam-nas imbecis (traidores do movimento)

preparam tortas de morango e leite moça
bebem red bull com uísque old eight e gelo
arrotam e peidam e riem e filosofam
a inesgotável filosofia obtusa e imbecil

transitam com lepidez e imbecil sensatez
entre o teatro e o morro
entre mozart e mc catra
entre a mão e a pata
a loura e a mulata
o estúpido e o douto
o cancro mole e o duro
a tísica e o câncer
o haxixe e a cachaça

assim falava zoroastro:
o homem é um ser imbecil
desde o berço (pequeno, logo, imbecilzinho)
preparem seus cerebelos
estendam o tapete de alfafa
babem, gargalhem, lambam a própria cauda
ele está ao umbral
a quintessência do homem
o super-imbecil

venha o cálice, bebamos todos
um brinde à imbecilidade humana

Carlos Cruz - 02/01/2010

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Coloquiais Ponderações Catártico-Genitais ou A Dialética da Vulva





Subitamente, de repente e sem aviso prévio, minha vagina desembestou a falar. O fato, por mais curioso, inusitado e estapafúrdio, deu-se. Ainda que inacreditem, questionem ou recalcitrem, deu-se. Deus, se incendiário não fosse, materializar-se-ia, cheio de pompa e circunstância, em rubra lâmpada incandescente e, prosopopeicamente, corroboraria minha história. Mas fatos são fatos e jamais deixarão de sê-los, não obstante controvérsias e contradições. Numa noite fria de sábado, no interior de um motel tradicional, sobre um leito redondo tradicional, um colchão redondo tradicional, forrado com alvo e tradicional lençol, debaixo de um espelho um tanto baço mas não por isso menos tradicional, tendo como testemunhas oculares, vaginais, anais, orais, notada e dotadamente penianas, Mandingo, Rocco Sifredi, Katja Kassin e a mulher-tigre de pele morena, imóvel e emparedada, cujo olhar felino e selvagem penetrava perscrutadoramente até a mais gélida alma dos copos baratos de vidro vagabundo e transparência perdida, ocasionando calafrios nas garrafas de cerveja transpirantes, minha semi-depilada vulva tagarelou sem pudor e sem papas, mesmo porque papas e bocetas, desde que o clero é clero, não combinam. O efeito foi devastador, uma excitação invertida. Deu-se que, falante, minha vagina não se deu nem se comeu. Explico. Artur, há dias e dias e outros tantos dias, papeava-me - no meio moderno - ou cortejava-me - no todo arcaico - arremessando, ora plácido, ora impetuoso, todo seu auto e árduo charme cafajeresco. Cavaleiro real, cavaleiro medieval, cavaleiro templário, jamais cavaleiro com agá a mais, muitas ocasiões cavaleiro sem eiro nem beiro, só ó sem acento e provido de ferraduras, duras ferraduras que machucavam, deliciosamente. Ora alazão, ora pangaré, chucro, sempre. Eu, cá em minha sagacidade feminina - pois todas as fêmeas, mesmo as auto-renegadas, possuem essa qualidade - adocicadamente recusava-lho sem recusar-lho, permitindo furtivas olhadelas, alvissareiros vislumbres de paraísos terrenos e gozos celestiais. Ele, por sua vez, qual lobo cuja voracidade não se aplaca com qualquer torresmo de porquinho-da-índia estragado, investia, arremetia e de novo investia, acrescendo ímpeto. Por fim, considerei oportuno o momento e, sem resistência - estava louca pra dar pra ele - deixei-me conduzir ao quadrado espelhado dos prazeres da carne. Estirei-me, escancaradamente nua, com as pernas descaradamente abertas, desabrochei-me perfumada e lúbrica, convite róseo e úmido, inescusável. Artur, todo suor e saliva, mal dissimulando seu atabalhoado ardor, chegou-se. Cerrou os olhos visando melhores aspirações, como o sommelier prestes a provar o vinho nobre e raro ou - cinzas, saco, silício, autofustigamento! - o devoto apostólico antes de bebericar "la sangre de Jesucristo". Lá do alto, meu cérebro pedia: "Lambe!", os mamilos túmidos de meus seios bombados imploravam: "Lambe!", meus lábios rubros e retorcidos suplicavam: "Lambe!". Artur expeliu um, dois, três palmos de uma língua muito vermelha, convulsa, frenética - soube depois, explico já - cuja afilada ponta aproximava-se vibrante de meu clitóris latejante. Foi quando minha encharcada vagina gritou: "Lambe, porra!!!" Uma voz rouca, quase gutural, que reverberou pelos seis lados do cubo, fazendo Artur dar um salto, uma pirueta desengonçada, um ornamental tosco, um mortal - gracias, Madre de Dios! - sem morte. Ele mirou de frente, de lados, detrás, olhares oblíquos, retos, diagonais, parabólicos, hiperbólicos, vasculhou cômodos com minúcias, sempre a interrogar aquele que julgava ser o emissor da ordem desobedecida: "Quem está aí? Apareça!" Eu, sem nada entender, sem nada atinar quanto à origem da voz de trovão, sentia os calores de minha recém-olvidada boceta esvaírem-se, pouco a pouco, de quente úmida, passando por tépida menos úmida, atingindo o nível fria quase seca. Quando as descargas elétricas provocadas pela nervosa tensão já se podiam divisar, eis que irrompe, mais uma vez, a tonitruante, desconcertante, brochante voz: "Tá procurando o quê, gostosão? Para com isso e vem cá continuar o que você não começou! Viemos aqui pra foder ou pra brincar de pique-esconde? Vem esconder essa pica aqui dentro de mim, vem!" Surpresa, estupefação, aturdimento, eu percebi, ele percebeu, não havia dúvidas, minha vulva falava, tagarelava com despudor, e, o que é pior, completamente desbocada e com farto uso de palavrões. Nervosa, fechei as pernas, ouvi grunhidos abafados, reabrí. Artur, olhos esgazeados e fixos em minha cona, aproximou-se, lentamente. Estacou ante nova abordagem. Era o início do colóquio.
- Tá, já sei, estraguei tudo, a foda já era... Bonitão, diz uma coisa, se eu ficar quieta, não soltar nem mais um pio, virar uma boceta-túmulo, você me fode? Ou pelo menos me lambe? Se você soubesse quantas vezes fiquei molhada por sua causa... Essa aí em cima tava louca pra dar pra você faz tempo... E aí, o que diz?
- Ma-mais... Como pode? I-isso é algum truque? - olhos na vulva, olhos nos olhos - Você é ventríloqua?
- Estou tão surpresa quanto você. - retruquei.
- Já ouviram falar em animismo, panteísmo, orfismo, pitagorismo, empedoclismo, platonismo, reencarnação, transmigração das almas, metempsicose? Outra coisa, podem, por favor, desligar a tevê? Esse papo e esse "fuck me" renitente não combinam.
Desligamos a televisão mas nada dissemos. Diante de nosso mutismo, ela assumiu um tom grave e didático. Prosseguiu:
- Segundo as teorias citadas, existe a possibilidade de a alma humana encarnar em outros animais e vegetais. É mais ou menos meu caso. Mais ou menos porque, apesar de não haver encarnado em animal irracional ou em vegetal, voltar à existência numa boceta, definitivamente, não se adequa ao conceito clássico de reencarnação, ainda que vaginas sejam feitas de carne. Concordam comigo?
Continuamos mudos. O reflexo da minha boceta no espelho, o movimento de seus grandes lábios - acho que nunca esse nome foi tão apropriado - enquanto argumentava, causavam-me uma espécie de deslumbramento. Não era uma boceta falante qualquer, era a minha boceta! E, além do mais, lúcida, razoável, inteligente, loquaz, malgrado o emprego constante de palavras obscenas. Mas, o que se poderia esperar de uma boceta falante? Polidez?
- Vocês não têm língua? Bom... pensando bem, eu não tenho e estou falando pelos cotovelos, digo, pelos grandes lábios. Ah! Deixa pra lá... Respondam-me, ao menos: querem ouvir as historias de minhas vidas?
Entreolhamos-nos, Artur e eu, mais uma vez. Meneei a cabeça, em sinal de aquiescência.
- Ótimo. Antes de começar, permitam-me que me apresente... Fui batizado Tomás de Torquemada e nasci no ano...
- O quê? - interrompi - Tomás de Torquemada, o cruel inquisidor espanhol? Não! Não pode ser!
- Não sou cruel! Não sou e não fui! Apenas cumpri meu dever, imbuído do poder que me foi conferido pelo Sumo Pontífice, o representante de Deus na Terra, que me nomeou inquisidor-geral e me dotou de autoridade para perseguir, capturar, julgar e condenar à Santa Fogueira, judeus levianos e muçulmanos dissimulados, todos hereges, feiticeiros, bígamos, sodomitas, apóstatas. À frente da Inquisitio Haereticæ Pravitatis Sanctum Officium, zelei por expurgar o mundo dessa raça maldita, extirpar os pecadores marranos da face da Terra, promover a purificação por meio do fogo, de modo que prevalecesse "la sangre limpia", os verdadeiros cristãos. Sou Tomás de Torquemada, o martelo dos hereges, a luz de Espanha, o salvador do meu país!
- Assassino! - gritei. Não podia ser verdade, era surreal demais, uma tremenda sacanagem, uma putaria do destino. Estava simplesmente apavorada, afinal, saber que minha linda, cheirosa, levemente testuda, apetitosa - palavra de quem provou - bocetinha era a reencarnação do mais atroz inquisidor que já passara pelo Santo Ofício não é uma informação fácil de assimilar. Bom, ao menos isso explicava o que anos de terapia não revelaram: meu incontrolável tesão diante de cenas de tortura com uso de fogo. Nunca vou esquecer o filme "O Nome da Rosa", não pelo elenco, roteiro, fotografia e tudo mais, que são ótimos, mas porque este filme me proporcionou um dos melhores, talvez o melhor orgasmo de minha vida, e, também, porque quase enlouqueci de vez... Mas e as outras coisas estranhas que me excit...
- Ah, você acha isso? Espere até saber quem foi minha encarnação seguinte...
- Meu Deus, ainda tem mais?... Não tenho estrutura pra novas surpresas estranhas... Nem pra revelações bombásticas... Vamos fazer o seguinte: amanhã você me conta, ok?
- Seria tarde demais. Ainda que talvez não compartilhem de minha opinião, lamento dizer que amanhã nada mais direi. Tive de usar todo meu poder de argumentação, tendo em vista a inutilidade de meu irresistível carisma, quando no Limbo estava, para convencer Aquele-Que-Tudo-Sabe-Tudo-Pode-E-Está-Em-Todo-Lugar-Ao-Mesmo-Tempo no sentido de fazer essa pequena e fugaz concessão, uma vez que meus anteriores pedidos se chocaram contra os tímpanos divinais, transmutados, naquele momento, em muralha de granito. Mas nem tudo estava perdido. Todos os céus, de alto a baixo, estremeceram com a gargalhada de Sua Excelência Toda-Poderosíssima quando ouviu minha derradeira súplica. Lembro como se fosse hoje de Suas santíssimas e rechonchudas bochechas vermelho-fogo e das palavras que disse: "Isso vai ser engraçado pra caralho!" Deus é um puta sacana, vocês sabiam?... Bom, mas voltemos ao que interessa, minha encarnação seguinte. Vocês arriscam um palpite?
- Nada é tão ruim que não possa piorar... Quem poderia ser? Ivan, O Terrível?
- Compreendo que não estou em condições de exigir nada, mas não me ofenda, por favor. Ivan foi um louco, um doido-varrido cujo único feito digno de louvor foi ter matado alguns muçulmanos quando conquistou Kazan. O homem no qual reencarnei foi, numa escala de importância, o segundo maior líder que já pisou a terra, só perde para Jesus Cristo e somente porque Ele era filho de Deus. Cá entre nós, considero as idéias desse segundo líder muito mais edificantes e interessantes que as do Filho de Maria.
- Jesus... Estou ficando preocupada... Não vá me dizer que minha boceta, além de Torquemada, também é a reencarnação de Stalin...
- Você tirou mesmo o dia pra me ofender! Não! Não fui aquele porco chauvinista!
- Tá. Então, fala. Quem você foi?
- Um homem inteligente, sensível, um artista que desde muito jovem demonstrava enorme talento com as tintas...
- Monet? Renoir? Pissarro? Degas? Van Gogh?
- Tá frio. Na juventude, para se sustentar, pintava paisagens e as vendia para mercadores...
- Sei lá quem é. Biografia de pintores não é meu forte. Seria Dalí, Picasso, Rembrandt?
- Bateu na trave de novo... Bom, vou fazer o seguinte, reproduzirei "in verbis" dois trechos de minha obra escrita que só não foi um best seller graças à interveniência de meus detratores, que eram gentinha, raça ruim... Escutem com atenção, depois me digam se descobriram quem fui... "As causas exclusivas da decadência de antigas civilizações são: a mistura de sangue e o rebaixamento do nível da raça, que aquele fenômeno acarreta. Está provado que não são guerras perdidas que exterminam os homens e sim a perda daquela resistência, que só o sangue puro oferece. Todo o que, no Mundo, não é raça boa é joio."
Suspendi a respiração, transpirei, estremeci. Ela, ele continuou. "Se os judeus fossem os habitantes exclusivos do Mundo não só morreriam sufocados em sujeira e porcaria como tentariam vencer-se e exterminar-se mutuamente, contanto que a indiscutível falta de espírito de sacrifício, expresso na sua covardia, fizesse, aqui também, da luta uma comédia. É pois uma idéia fundamentalmente errônea, querer enxergar um certo espírito idealista de sacrifício na solidariedade do judeu na luta ou, mais claramente, na exploração de seus semelhantes. Aqui igualmente o judeu não é movido por outra coisa senão pelo egoísmo individual nu e cru. Por isso mesmo, o Estado judaico - que deve ser o organismo vivo para a conservação e multiplicação da raça - não possui nenhum limite territorial. Uma formação estatal compreendida dentro de um determinado espaço, pressupõe sempre uma disposição idealista na raça, que ocupa esse Estado, antes de tudo, porém, uma compreensão exata da noção de 'trabalho'. A falta de tal convicção acarreta o desânimo, não só para construir, como até para conservar um Estado com limites marcados. Com isso desaparece o fundamento único da origem de uma civilização." - pausa. E aí, nada? Nem um palpite?
- Estou com medo de dizer o nome... Não me diga que você, além de Torquemada, foi...
- Adolf Hitler! O maior estadis...
- Não!!! Não! Não e não! - instintivamente, fechei as pernas. - Tudo menos isso! Saber que minha boceta é a reencarnação de Torquemada, mesmo a contragosto, dá pra engolir. Agora, Adolf Hitler! O maior genocida de todos os tempos memoriais e imemoriais! Aí já é demais!
Artur permanecia do mesmo jeito, calado e com cara de idiota.
- Artur! Você vai ficar aí com essa cara de imbecil? Diga alguma coisa!
- Abra as pernas.
- Puta que pariu! Porra! Caralho! Minha boceta, sem mais nem menos, resolve falar, diz que foi não um, mas os dois piores animais que já pisaram a face da Terra, eu com uma puta vontade de me atirar pela janela e você pensando em sexo!
- Você não entendeu. Abra as pernas. Deixe ela... ele falar.
Não queria reabrir as pernas, nunca mais, aqueles grunhidos roucos e abafados me oprimiam, eram uma tremenda tortura. Todavia, havia uma pontinha de curiosidade mórbida e meio masoquista somada ao desejo de que aquele pesadelo terminasse logo, além de uma vaga esperança de que minha vagina, após dizer tudo o que tinha de dizer, tornasse ao seu abençoado estado de quietude, nada de palavras, frases, períodos, orações. Sons, só aqueles desagradáveis e cacofônicos ruídos muito semelhantes a flatos que me deixavam constrangida. Cedi. Escancarei as pernas de novo. Fala, boceta!
- Cof! Cof! Porra! Não faça mais isso, por favor. Foi um custo conseguir essa concessão. Como falei antes, é só por hoje. Amanhã, volto a ser apenas uma vulva como outra qualquer. Urinarei, umedecerei, acolherei, abnegadamente, os pênis que desejem me penetrar, com vossa permissão, minha senhora, é claro.
- Tá. Deixarei você falar, ainda que isso seja um enorme suplício para mim. Mas, diga-me uma coisa: por que eu? Por que a minha vagina, dentre tantas, foi a escolhida?
- Sua preferência por negros, indígenas, ciganos, amarelos, sarracenos, judeus, mulatos, cafuzos, mamelucos, bissexuais, deficientes, et cetera e et cetera e tal. Foi o modo que o Todo-Todo-Poderoso escolheu para me punir por haver tentado, mais uma vez, limpar o sangue da decadente humanidade.
- Ei! Alto lá! Mas eu sou branco, não sou cigano, judeu, bissexual nem deficiente! - protestou Artur.
- Sim. Você é caucasiano. Não chega a ser um ariano, mas dá para o gasto. E é por sua causa que vocês estão tendo o prazer de ouvir minhas palavras... Vou explicar. Deus, conforme eu disse, é um pândego, um piadista contumaz, morre de rir com as trapalhadas humanas que ele mesmo promove. Antes de ensejar essa tremenda sacanagem que fez comigo, disse Ele, às gargalhadas: "Permito que fales, mas só por um dia. E antes que me perguntes, em verdade te digo que falarás no dia em que a mulher portadora de teu pérfido espírito se deixar conduzir à alcova por um homem de pele alva, de espírito impuro e de poucas palavras."
- Espírito impuro! Era só o que me faltava! Vou à missa todo domingo, me confesso, cumpro à risca a liturgia católica.
- E aqueles encontros com o coroinha, na sacristia, depois da missa? O que me diz? - indagou Hitler-Torquemada-Genitália-Vulva-Cona-Vagina-Boceta.
- Vou embora!
- Ah, vai não, fofo! - ele, ela de novo.
Artur bateu forte a porta do pequeno quarto. Ouvi o ronco do motor do carro, acelerou, arrancou, se foi.
- Viu o que você fez? - disse eu - Além de quase me deixar maluca com essa história de Torquemada, Hitler e o caralho a quatro, ainda me faz perder um dos homens mais gostosos que já se interessaram por mim. Além de tudo, fiquei a pé. - esqueci, por instantes, de que dialogava com minha própria boceta que era a reencarnação de Torquemada e Hitler.
- Liga não, "fräulein". A vida não é justa. Ademais, o bonitão é bissexual.
- E daí? Não deixa de ser gostoso por isso...
- Ah, esqueci que você aprecia...
- E agora, o que fazemos? - esqueci de novo que minha interlocutora não era minha amiga de faculdade. A loucura da situação estava me afetando.
- Continuemos o papo. Tô gostando de conversar com você.
- Mas... Vão rolar novas e terríveis revelações reencarnatórias?
- Não! Você, digo, sua boceta fecha o ciclo reencarnacionista, a tríade mística.
- Diga-me uma coisa... Por que nunca consigo depilar você completamente?
- Porque adoro meu bigode.
- Por que fico mais excitada quando estou menstruada?
- Porque me agrada o encarnado do sangue.
- Por que fico úmida com cenas de campos de concentração?
- Preciso responder isso?
- Você é um monstro!
- Não! Não sou e não fui! Fui uma vítima da História, assim como Judas Iscariotes, Vlad, Pol Pot, Jack O Estripador! Fizemos o trabalho sujo, que tinha de ser feito mas ninguém tinha coragem de fazer!
- Chega! Não quero ouvir mais nada! - fechei abruptamente as pernas, ergui-me da cama, vesti minhas roupas, pedi um táxi - Artur, no final das contas mostrou ser um "gentleman", tinha pago a conta.
Embarquei. O motorista me olhava pelo espelho retrovisor de uma maneira interrogativa. A julgar pela expressão de sofrimento estampada no meu rosto, indubitavelmente concluíra que eu fora abandonada. Devia estar se perguntando se meu parceiro se fora antes, durante ou depois do sexo. Imersa em meus pensamentos, distraí-me por um breve instante. Abri as pernas.
- Cof! Sua "schlamp"!
Cerrei as pernas rapidamente. O condutor olhou espantado pelo retrovisor.
- Celular... - disfarcei, dando um meio sorriso apagado.
Enfim, o táxi parou em frente ao prédio, meu prédio! Lar, doce lar! Certamente, sentir-me-ia mais segura, mais forte, no interior de meu apartamento, meu cantinho, meu refúgio do mundo. Paguei a corrida, o táxi se afastou. Acessei o "hall" e respirei fundo. Teria de subir pela escada até o quarto andar, o elevador, pra variar, estava quebrado. Pus minhas mãos entre as pernas e comprimi com força. Iniciei a subida e não parei, degrau a degrau, alheia aos aflitivos e roucos grunhidos de minha vagina. Abri a porta de meu apartamento com veemência, o impacto da maçaneta contra a parede provocou um tremendo estrondo e um grande buraco. Segui às pressas até o quarto, posicionei um pequeno espelho na cabeceira da cama - precisava acabar com o suplício - escancarei as pernas.
- Cof! Cof! Você está sendo má comigo, merecia um castigo, uma boa foda. Mas não vou te foder porque evidentemente não posso foder a mim mesmo. Além do mais, estou com uma vontade incontrolável de discursar... "Consegui meus êxitos simplesmente porque, em primeiro lugar, me esforcei por ver as coisas tais quais elas são e não como desejaríamos que fossem; segundo, porque, formada a minha opinião, nunca permiti fraquezas que me convencessem do contrário ou me levassem a abandoná-la; terceiro, porque, em todas as circunstâncias, sempre cedi à necessidade, quando como tal a tinha reconhecido. Hoje que o destino me permitiu tamanhos sucessos não serei desleal a esses meus princípios fundamentais..."
- Para! Esse sotaque, essa entonação me dão calafrios! Não quero mais ouvir sua voz!
- Você pode me calar fechando as pernas, Deus vai me calar à zero hora, mas não ficarei em silêncio para sempre! Um dia tornarei a ser homem e poderei terminar meu trabalho de purificação! A raça ariana prevalecerá sobre as inferiores e terá restabelecida sua gló... hum... hu...
Senti um aperto no coração, uma pressão no crânio, uma secura nos lábios, minhas mãos tremiam, todo meu corpo tremia. Sentia-me uma frágil boneca nas mãos de uma menina má chamada Deus, sentia-me um nada. Sentia-me mal, muito mal. A menina má arrancava minha cabeça, meus braços e pernas. Ruí. Desmoronei. Desabei. Rompi em prantos, chorei como nunca havia chorado. Entre minhas pernas, gemidos. "Cala a boca!" - gritei. Ele não se calou. Daí, veio o surto, o colapso total. Segui até a cozinha, saquei uma faca da gaveta do armário, cortei a mangueira amarela bem rente ao fogão, enfiei na boceta e abri o gás.
- Não!!! Gás não! Gás não!!!
Minha mente estava vazia. Em meu acesso de loucura, uma única, premente, desesperada necessidade: calar a voz! Peguei a caixa de fósforos, abri, retirei um - de minha boceta vinham sílabas desconexas - friccionei a extremidade contra o abrasivo... Clarão, explosão, dor, negrume...
Ouvi vozes, distantes. Abri lentamente os olhos, minha visão estava embaçada, meu corpo doía. Um vulto branco aproximou-se, voz de mulher.
- Ah, acordou finalmente.
- Onde estou?
- Hospital Central.
- O que aconteceu?
- Vazamento de gás, segundo o perito. Por sorte uma viatura do Corpo de Bombeiros passava em frente ao seu prédio no momento da explosão... Deus deve gostar muito de você.
- É. Ele me adora. Como estou?
- Você teve queimaduras de terceiro grau em sessenta por cento do corpo. Mas não se desespere, hoje em dia existem ótimos cirurgiões plásticos especializados nessa área. Agora, descanse...
- Doutora, uma última pergunta... A senhora ou alguém de sua equipe ouviu algum som estranho... proveniente... do meu corpo?
- Não, não ouvimos nada... Descanse.
Fechei os olhos. Apesar da dor, sorri. Eu vencera.
Muitos meses e muitas cirurgias depois, voltei às minhas atividades. Revigorada, refeita, quase perfeita. Dispensei o terapeuta, não precisava mais dele. Precavida, comprei um vibrador "Long Dong Extra G". Tudo ia bem, até o dia em que almocei uma apetitosa salada de repolho seguida de um saboroso doce de batata-doce, de sobremesa. Tenho certeza que meu ânus não só expeliu o flato como ainda proferiu um sonoro e efusivo "Oi!". Não foi nada fácil passar o dia com "Long Dong" enterrado no rabo, mas, como disse Bruce Lee, o filósofo: "Quem quiser vencer deve aprender a lutar, perseverar e sofrer." Sábio Bruce.

Carlos Cruz - 24/07/2009

(*) Os trechos de "Mein Kampf", o fragmento do discurso de Adolf Hitler e a frase de Bruce Lee foram extraídos da Internet.

A Estática Estatística da Estética ou O Filme da Sessão da Tarde



"Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade." Eclesiastes 1:2

"El Comienzo". Maria Imaculada da Silva era uma menina bonita, muito bonita, bonita ao ponto de permitir folgadas superadjetivações, linda, a mais costumeira. Desde muito pequena, chamava a atenção de parentes e vizinhos, suscitava elogios de todos aqueles cujo raio de visão alvejasse, ainda que de raspão ou fortuitamente, seu rosto angelical. "Que menina linda!" - era a frase recorrente. Embora integrante da comumente e injustamente desclassificada classe dos não favorecidos, embora seu vestido estampado, florido e andrajoso aparentemente não combinasse com sua estampa, embora suas mãos calejadas de pueril lavradora causassem espanto nos agraciados por seu toque, a menina alheava circunstâncias desfavoráveis e seguia esbanjando beleza e encanto. Seu João e Dona Efigênia, os jubilosos genitores de tão preciosa criança, conquanto analfabetos, modos rústicos e ideais modestos, vislumbraram possibilidades de maiores regozijos, inscreveram a filha no "Miss Guaranapiacaba Mirim", badalado concurso de beleza promovido pela Rádio Guaranapiacabana, a emissora local. Não teve para ninguém, Maria faturou o primeiro lugar, sem esforço, sem agastamento, sem sufoco, sem alvoroço. Era o sopé da montanha, o início da escalada.

"Carpe Diem". Maria adorava ser admirada, elogiada, amada, mormente em virtude do poder magnético e venturoso que parecia advir de sua formosura. Sempre rodeada de pessoas, de sorrisos, pródiga, distribuía felicidade à mancheia e isso a fazia feliz. Prazer maior, somente quando cuidava de seu jardim, que, dado o fato de compor-se tão-só de uma solitária roseira, não correspondia fidedignamente à definição do termo. Todavia, Maria nada via ou sabia ou queria saber quando defrontava sua viçosa roseira de rosas vermelhas. Quedava-se horas a regar, adubar, podar, afofar a terra do canteiro e, sobretudo, a maravilhar-se com o frescor perfumado e escarlate emanado das flores, os belos rebentos de sua protegida e confidente. Sim, confidente. A menina tinha o hábito de falar com a roseira. Certa vez, após sofrer uma reprimenda materna por haver-se empanturrado de rapadura, ela, aos prantos, desabafou: "Você é que é feliz, linda, cheirosa, bem-cuidada, vive apenas para ser admirada, para ser mimada, para ser amada... Ah, como eu queria ser você!"

"Déjà Vu". O tempo passou, Maria ingressou na adolescência, cada ano, cada mês, cada dia mais linda. Aos quinze anos, poder-se-ia referi-la, sem receio de recair em super-estimas, como uma mulher deslumbrante, ainda que, à luz dos dogmas sociais, das leis e seus códigos, mulher não fosse. Estava na plenitude de sua beleza. Não tardou para que um olheiro de uma famosa agência de modelos deitasse seus oportunistas e bem-treinados olhos sobre a bela recém-debutada. Depois vieram, numa célere sucessão, tratamentos de beleza, roupas de marca, capas de revistas, passarelas, holofotes, "flashs" e mais "flashs", carros importados, jóias, fama, fortuna, festas. Mudou-se, junto com os pais, o cachorro e a roseira para uma casa suntuosa localizada num bairro nobre da capital. Cobriu-se e aos seus de todo luxo e conforto que o muito dinheiro podia proporcionar. Instalou-se no melhor quarto, instalou seus genitores no quase melhor quarto, mandou construir uma réplica de sua mansão para abrigar Pelanca, o cão da família. Quanto à roseira de belas rosas vermelhas, ganhou um pomposo jardim com sistema de rega automático, terra rica em húmus, bem drenada e enriquecida com adubo de excelente qualidade, à base de esterco animal, composto orgânico, farinha de ossos e torta de mamona. Ganhou também um jardineiro, mas perdeu a confidente. Imersa até o finamente adornado pescoço em desfiles, ensaios fotográficos, campanhas publicitárias, comerciais televisivos, viagens, "flashs" e outros "flashs", Maria, a "top top model", não tinha mais tempo para colóquios monologuistas vegetativos sem resposta. O tempo passou, a maioridade chegou, a fama aumentou, a conta bancária engordou. A nau Maria, ou melhor, a nau Letícia Müllersen - Maria Imaculada da Silva até era um nome bonito, mas não auspicioso à carreira, segundo seu agente, que apreciava expressões da moda - ia de vento em popa, a todo vapor, rumo à total dominação mundial. As mulheres, novas, velhas, feias, bonitas, magras, gordas, todas todas, queriam vestir as roupas de Maria, maquiar-se como Maria, falar como Maria, andar como Maria, jogar os cabelos como Maria, ser lindas, ricas, famosas, felizes como Maria. Desejavam ser Maria.

"Las Rosas No Hablan". À medida que sua dona ascendia na profissão e obtinha o que impossível parecia, a saber, novos acréscimos de beleza, concomitantemente, e a despeito das reiteradas negligências, esquecimentos por indisponibilidade presencial e outras razões em geral, a roseira florescia a olhos vistos, copiosas e faustuosas rosas vermelho-escarlate, vermelho-afogueado, vermelho-carmesim, vermelho-sangue, vermelho-paixão. Jardineiros, mordomos, cozinheiras, arrumadeiras, visitantes e vendedores de enciclopédias, escorredores, panelas, desentupidores e badulaques afins, detinham-se boquiabertos ante tamanha manifestação de beleza natural. Alguns prosternavam-se, braços aos céus, rendendo louvores ao Criador. Outros choravam, outros riam, outros choravam e riam. A magnificência aliada ao inebriante aroma fazia assomar nos espectadores ao redor e derredor uma espécie de transe místico, um deslumbramento letárgico, agradável, que aflorava sentimentos divinamente humanos. Impassível, alheia a tudo e a todos, majestosa, sagrada e lúbrica, a roseira balançava seus ramos ao sabor dos ventos, refletindo, cobrindo o mundo e os corações com seu edredom de luz, rubro e sereno.

"Mutatis mutandis". Maria não estava feliz. Não era feliz. Não mais. Tamanha incidência diuturna de elogios lha tornaram uma mulher volúvel, um poço de caprichos. Ademais, a diária e inflexível disciplina imposta por seu trabalho a oprimiam. Muito exercício físico, pouco e insosso alimento. Ah, que saudade da rapadura de sua mãe! Afastava, com hercúleo e penoso esforço, tais pensamentos, quando sobrevinham. Atribulada, foi a mais uma festa, onde uma amiga atenciosa apresentou-lhe outra amiga que se tornaria, doravante, sua inseparável melhor amiga. Alva como a neve, detinha as chaves da felicidade, bastava aspirá-la por um canudo e a vida de Maria se enchia novamente de alegrias e bem-estares. É bem verdade que passadas poucas horas de ausência da amiga, Maria quedava-se saudosa e macambúzia, todavia, bastava telefonar que ela voltava, fresca e pura. O ciclo repetiu-se, amiúde, até a noite do excesso excessivo, combinação explosiva de múltiplos mililitros de álcool e altas dosagens de branca amiga pulverizada. Semi-implosão, deus-nos-acuda, corre-corre, ambulância, hospital, coma - sequência imediata. Polícia judiciária, investigação, oitivas, chororô, mentiras-por-uma-boa-causa-própria, retorno do coma, meio-alívio-meio-preocupação-ela-vai-caguetar-a-gente?, sequência-meio. Capas de revista, capas de jornais, noticiários televisivos, programas policiais, tablóides, perdas de contratos, descensão, execração pública, "persona non grata", esparramo na pista, choro, engorda, sequência-bem-próxima-do-fim.

"Sed fiat voluntas tua". Maria estava à beira da falência, moral, financeira e pessoal. Tornara-se o alvo predileto da mídia fanfarrona e das pseudo-amigas farofeiras. Virara motivo de galhofa, uma velha piada sem graça. Alguém que tinha sido mas não mais era. Uma quase-ninguém. Os desfiles acabaram, as festas findaram, os amigos se foram, o telefone emudeceu, o "flash" da câmera queimou, a conta bancária definhou, a cortina se fechou, a fonte secou. Seus pais tentavam, em vão, levantar-lhe o astral, incutir-lhe ânimo, mostrar a ela que a vida prosseguia e, enquanto vida havia, existia também a esperança de dias melhores. Alheia a tudo, ela alheava-se cada vez mais, agonizava em sítio privado. Só pranto e quase nenhuma comida, debilitava-se, murchava, pouco a pouco, como uma bela flor num copo d'água. Lembrou-se de sua velha amiga, a roseira de belas rosas vermelhas que, a despeito dos dissabores de Maria, continuava tão linda e viçosa como sempre fora. Voltaram as conversas monopolares, agora em forma de desabafos, queixumes, lamúrias, predominantemente. Meses depois, o telefone tocou. Sobressaltada, a esquálida Maria arrastou-se até o aparelho. Atendeu. "Alô." "Maria, é você?" A voz inconfundível do agente, o primeiro, o descubridor, o incentivador, fez seu coração disparar. Convidá-la-ia a assinar um novo contrato, recomeçaria de onde parou, teria sua vida de volta? "Sim, sou eu." "Maria, sei que não é um bom momento, mas, sabe como é, os acionistas me cobram e eu não posso arcar com tudo sozinho... Seu problema afetou diretamente as empresas que faziam uso da sua imagem, as vendas despencaram. O mercado da moda é volúvel, qualquer abalo, por menor que seja, e as pessoas deixam de comprar essa ou aquela marca... Bom... Vamos ao que interessa. As empresas se uniram para nos processar, pedem algo em torno de cem milhões de dólares de indenização... Tenho de dividir esse prejuízo com você, afinal, foi você quem causou o estrago. Te dei tantos conselhos, menina... Bem, sua situação financeira está caótica, você e seus amigos festivos cheiraram quase todo o seu patrimônio. Maria... teremos que vender a casa... Maria... você está ouvindo?" Desligou o telefone. Seguiu para o jardim, tirou as sandálias, atravessou a pequena cerca de madeira, postou-se ao lado da roseira. Rosto banhado em lágrimas, fechou as mãos com firmeza ao redor do caule espinhoso, sangue e lágrimas a regar o solo, mirou fixamente a rosa mais bela e desejou, ardentemente, abandonar o mundo dos homens, transmutar-se em vegetal, deixar de ser amiga para se tornar irmã, ser uma roseira. Sentiu um formigamento, primeiro nas plantas dos pés, depois por todo o corpo. Baixou os olhos, fitou os pés. Raízes! Brotavam raízes de seus pés! Por instantes, teve medo. A seguir, contentamento e paz, um sentimento que, de tão intenso, deu-lhe a certeza de haver finalmente encontrado a ansiada felicidade. Suas esqueléticas pernas uniram-se, seus ossudos braços afinaram-se ainda mais, sua pele escureceu, surgiram protuberâncias espinhosas. Sua face, cuja beleza, a despeito das agruras da vida, não se havia perdido, foi-se tornando rubra, surgiram pétalas carnosas e de um vermelho muito vivo. Por fim, transmutação finda, um final e um começo. Sai de cena a bela Maria Imaculada da Silva. Dá lugar à mais linda roseira de uma rosa só que já existira na superfície da Terra. Seu João e Dona Efigênia rocuraram a filha por alguns meses. Com o passar do tempo, arrefeceram, mas ainda mantém a esperança de que ela apareça, inopinada e linda. A mansão foi vendida e vendida e de novo vendida. Muitos vieram, se foram e, invariavelmente, contemplaram as entrelaçadas roseiras irmãs e sentiram seu perfume. Ainda que por instantes, sentiram-se feios, sujos, efêmeros, tristes, almas em decomposição. Húmus humanos.

Carlos Cruz - 30/07/2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Luces de Lunes





Oigo el melancólico canto del pájaro
negro, compañero leal de las mañanas
Lo oigo, aunque el sonido de las bocinas
estridentes, de los coches que pasan
como rayos fugaces y perversos
se esfuerce por sofocarlo...

Oigo un lejano pitido de un tren
sobrecargado con los vicios
de los hombres adinerados y sus obreros muertos
Oigo los gritos felices del lechero moreno:
"La leche! La leche blanca y buena!"
La ciudad se despierta...


El sol, implacable, dispara sus dardos
de luz, por las rendijas y calienta...
¡Calienta, sol! ¡Calienta!

Me despierto, a disgusto
La cabeza, todo el cuerpo me duele
Me acuerdo de la noche
las charlas animadas, las tonterías
la borrachera, las sonrisas fáciles
los espíritus bailantes en el humo del tabaco y maría

Me acuerdo de la mujer reluciente y flotante
Su sonrisa rubra, sus ojos ardientes
su bailado frenético y suave, su olor de jazmín
Me acuerdo del descompaso de mi corazón
del ardimiento de la sangre, de la parálisis del cuerpo
Del magnetismo irresistible, mi cuerpo, mi alma clamaban: La quiero!

Extasiado, precipitado, me acerqué a ella
Pero nada dije, ni fue necesario
Mis ojos lo contaban todo, desnudaban mi corazón sin pudor
El beso hizo bajar el cielo, oí la sinfonía de los ángeles
Mientras el fuego del infierno incendiaba mis órganos
Me hice lava, hielo, huracán, tormenta, rocío, todo y nada


Me acuerdo de la noche, ¡esta noche!
el encuentro desenfrenado, húmedo, estruendoso
de nuestros cuerpos en llamas
llamas de deseo, pasión, necesidad apremiante de tenernos
mutuamente, aspirar nuestros olores, nuestra transpiración,
aspirarnos, consumirnos, ahogarnos en un océano de amor

Pero, la noche dio lugar al día, la noche se ha ido
La mujer resplandeciente se ha ido, se ha disipado
como la niebla del invierno por la mañana
como un sueño bueno al cual intentamos, inútilmente
apegarnos, pero se nos escapa, huye para lejos
Dejándonos solos, medio tristes, medio felices

Otra noche vendrá... Y yo allá estaré, sumergido,
enamorado, loco soñador, a buscarla...

Carlos Cruz - 02/09/2009

Imagem: "The Dangerous Liaison", de René Magritte