quinta-feira, 31 de março de 2011

Da Volatilidade da Alma



Teria me espatifado. Elegante, escarlate e estrondosamente. Quem disse que não pode existir elegância e até mesmo sofisticação na morte? E solenidade, é claro. Porque a morte é sempre silenciosa e esse silêncio, até prova contrária, é solene. Como o roxo que forra os esquifes, solenes mas nada elegantes. Os gases, os odores pútridos vêm depois, junto com o esquecimento ou, quem sabe, alguns segundos de atenção virtual, imaginária ou até mesmo real, caso tenha aquela coisa que denominam talento. Sorte, não. A sorte não acompanha o talento, dispõe-se de um ou de outro, qual o amor e o jogo.
Teria me espatifado. Não fosse aquele confortável sofá. Décadas de letargia, apatia e imobilidade, naquele plúmbeo e belo dia de chuva, decidi voar, sem mais nem porquê; certos atos não se explicam, só se executam, durante e depois: sorria! Você não é a ruidosa máquina de colher laranjas! Flexionei as pernas e impulsionei o corpo, um salto libertário para a vida que fica no alto, no baixo, no interior do planeta e da cabeça. Alcei o voo do chega!, do basta!, do foda-se o mundo que eu quero viver! A adrenalina emotiva produzia calor, rebatia o frio da garoa fina e da atmosfera rarefeita. Farto de ser homem, usufruía minha condição de pássaro, procurando enxotar o pensamento que teimosamente me inculcava a fugacidade daquele arrebatamento. Tanto insistiu que conseguiu seu maléfico intento: o motor tossiu, tossiu, falhou; as asas rígidas e longas amoleceram e gotejaram, como sorvete de pistache. Reeditado Ícaro, despenquei qual um fragmento de estrela, incandescente corpo celeste oriundo de uma galáxia distante, desfrutando radiante meus segundos de brilho. Morri, porque toda mudança é uma forma diferente de morrer. Todavia, desta feita, morri feliz. Graças àquele sofá comprido e macio. E àquela senhora de tez muito branca e voz amena. Atônito, corri os olhos por aquela sala espaçosa e atravancada: um enorme televisor exibia um dos mundo animal da National Geographic, parecia pesado; não o programa, o televisor. Ao longo dos quatro cantos havia uma infinidade de imagens sacras, porta-retratos, estatuetas, souvenirs diversos, tudo sobre móveis antigos, de madeira de lei. Nas paredes, quadros, muitos quadros, paisagens, em sua maioria. O maior deles despertou minha atenção: exibia o rosto de um homem branco com sobrancelhas espessas, olhos pequenos e intensos, ligeiramente calvo, de sorriso tímido e expressão inteligente. Parecia me dizer: "seja bem-vindo à minha casa." Foi nesse exato momento que deixei de ser pássaro e voltei à condição de homem, e, o melhor é que me senti maravilhosamente bem, tomado por uma sensação inexprimível de bem-estar, de paz comigo e com o universo.
A voz da senhora de pele muito branca, ao invés de sacar-me de meu devaneio, fundiu-se a ele de maneira sutil: "Qual o seu nome, meu filho?" Não soube responder de imediato; a transmutação, o salto, a viagem atemporal, extra-dimensional através do firmamento fizeram-me esquecer de mim. Mas, paulatinamente, minhas memórias humanas retornaram. Falei meu nome, ela disse o dela: Eloíza. Ofereceu-me café. Conversamos, horas e horas, nas quais percebi estar diante de uma pessoa sábia, muito sábia. Falamos das maravilhas dos mundos antigo e moderno, da Renascença, de Ben-Hur, da administração do Faraó Akhenaton, das origens da terracota. Ela me propôs novas viagens, desta feita sem falhas, sem quedas. Aceitei de pronto. Ensinou-me a técnica para me manter suspenso, bastava pensar em coisas boas, permitir o afluxo de sentimentos bons, amar e sorrir, sempre e somente.
Segurou minha mão esquerda e me conduziu em torno do globo, voltas e voltas e voltas, trânsito em épocas distintas, mostrou-me grandes feitos de grandes homens. Mas não somente o belo, pois, "o espírito humano não se compõe só de beleza, é também grotesco, feio, sujo e bizarro". Vi o produto da intolerância e mesquinhez humana, vi guerras, muitas; sangue, litros e litros do líquido carmesim a manchar indelével almas e naturezas, mortas, quase sempre.
Fizemos muitas viagens interessantes. Contudo, eu era apenas um forasteiro que caíra do céu. O mesmo não se pode dizer acerca da sapiência de Dona Eloíza, cuja fama atraía uma multidão de sequiosos e necessitados. Filas. Romarias diárias, caravanas oriundas de todas as partes, próximas e longínquas. Ricos, pobres, doutores, analfabetos, brancos, negros, amarelos, miscigenados, todos em busca dos sábios aconselhamentos, da luz, da resolução de seus problemas. Entre panos de prato, livros, revistas, anotações e contas, pródiga, ela distribuía soluções e sorrisos. Promovia reconciliações, celebrava casamentos, arrebatava endividados da forca; não existia, para a Sábia Eloíza, túnel hermético ou logradouro sem saída.
Igualitária, justa, não mensurava pessoas. Certa feita, um político prepotente, acostumado a regalias e paparicos, pretendeu privilégios antecipatórios em detrimento dos demais pacientes que aguardavam, pacientes. Exasperada, ela explodiu: "Mas que merda! Se Vossa Excelência se considera mais importante que os outros que aqui estão, e, por isso requer prioridade, faça o seguinte: defeque num pote e traga aqui. Se vosso parlamentar excremento exalar um odor perfumado, atendo-o primeiro." Cabisbaixo, o homem público foi postar-se ao final da fila.
Os dias passavam, solenes e felizes. Vez ou outra, alçávamos voo, Dona Eloíza e eu, o único a receber as instruções. Não sei por que fui o escolhido. Talvez empatia entre espíritos curiosos, buliçosos. Voávamos e eu aprendia, novos acréscimos de conhecimento a cada viagem. Porém, dentre todas as lições ministradas por Dona Eloíza, a maior, indubitavelmente, dizia respeito ao valor da família. Jamais vou esquecer aquelas ruidosas e festivas noites de Natal, os enfeites, os pisca-piscas, os amigos-ocultos, os presentes sorteados, as orações de mãos dadas, os sorrisos profusos, o "ciscar pra dentro", as mesas fartas e ela no centro da sala, maestrina habilidosa a reger com amor sua bela, louca e perfeita orquestra familiar.
Entretanto, a luz emanada por Dona Eloíza não era suficiente para iluminar o mundo, que seguia girando, com sua superfície abarrotada de humanos, dia a dia mais estúpidos e embrutecidos. Melancólica, olhos mareados, cada nova notícia funesta suscitava um comentário que se tornara recorrente: "Acho que já vivi demais..."
Era um dia cinza, um dia triste. Uma bruma fria ocultava a cidade e seus habitantes. Reinava um silêncio opressivo, não se ouvia voz humana, nem ruídos de veículos, nem cantos de pássaros. As folhas condensavam a fina garoa, gotejavam, monotonamente. Qual a cidade, o silêncio dominava a casa, parecia que o ar se tornava sólido, pesado. Uma espécie de languidez se apoderava de meu corpo, sentia uma pressão estranha no peito, como se meu coração se transmutasse, gradativa e dolorosamente, em pedra. Dona Eloíza, com o rosto pálido, profundas olheiras, mas não menos bela, disse-me com aquela voz calma que transmitia calma: "Filho, preciso falar-lhe." Apurei os ouvidos, concentrei-me, ávido por novos saberes. Contudo, desta feita, não houve ensinamentos, ao menos, não o que eu esperava. "Farei minha última viagem, mas, dessa vez, tenho de ir só. Estou cansada, muito cansada... Parece que tudo o que fiz pelas pessoas foi em vão. Só o que vejo são desgraças, intolerância, discórdias, guerras, pessoas matando pessoas por qualquer motivo..." "Não!" - interrompi-a - "Nada foi em vão. O mundo não seria o mesmo sem a senhora, sem sua sabedoria, seus ensinamentos valiosos." "Talvez..." - retorquiu - "Mas o fato é que preciso descansar... Cuide-se, meu filho, e lembre-se do que lhe ensinei, não se deixe influenciar pela mesquinhez alheia, seja diferente, seja você." Abraçamo-nos e choramos. Ela reuniu a família, despediu-se de todos e partiu. A neblina, a garoa, o silêncio daquele dia estenderam-se por todo aquele mês. A Mãe Natureza pranteava a partida de Dona Eloíza. O Mundo ficara mais burro sem ela...
Meses depois, em uma noite de lua cheia, o anjo de asa quebrada teria se espatifado, não fosse aquele confortável sofá. Contou-me sobre a chegada de Dona Eloíza ao Céu. "Uma grande festa!" - disse-me ele - "Há milênios não se via tamanha celebração... Arrisco-me mesmo a dizer que a Festa de Dona Eloíza só perde para a do regresso do Filho de Deus. Também, pudera, o organizador tem excelente gosto, Doutor Muniz, você o conheceu?" "Infelizmente, não" "Sim, nunca vi tamanho luxo, tinha até candelabro... E os comes-e-bebes, então? Hum... Dá água na boca só de pensar... O encontro entre eles foi a coisa mais emocionante jamais vista nas plagas celestiais. Até o Todo-poderoso, que é duro na queda, chorou. Parecia que aquele abraço nunca teria fim. Foi lindo! Depois, dançaram agarradinhos ao som de "Unforgettable", magistralmente executada pela Glenn Miller celeste... Nossa! Fico arrepiado só de lembrar..." À medida que ele falava, as imagens se formavam em meu cérebro; tinha ímpetos de rir e chorar, concomitantemente. "Ah!" - prosseguiu - "ela me pediu que lhes dissesse para ficarem tranquilos, pois sempre velará por todos lá de cima... Dona Eloíza é um anjo, sabia?" "Sim." - retorqui - "Sempre soube disso..."


Carlos Cruz - 20/03/2011

Um comentário:

tia Fê disse...

Fala sério professor Carlos , quer nos afogar em meio a lagrimas ? Adorei, você é carinhoso e feliz até mesmo ao falar da morte ,entendi tudo e dou graças a DEUS em te-lo como MEU meu irmão !!!Parabens!!!
sua irmã Fernanda