domingo, 16 de dezembro de 2012



fé.

substantivo feminino
1 Rubrica: religião.
no catolicismo, a primeira das três virtudes teologais
2 sistema de crenças religiosas; religião
Ex.: fé cristã
3 confiança absoluta (em alguém ou em algo); crédito
Ex.: um homem digno de fé*
4 Rubrica: escatologia, calendário Maia, fim do mundo.
nome de um raio poderoso semelhante ao raio laser dos filmes de ficção científica, que sai do olho dos crédulos e destrói meteoros gigantescos em rota de colisão com a Terra.
Ex.: Tentaram, a todo custo, controlar o pavor que paralisava seus corpos e suas vontades; desejaram com força a destruição do meteoro; alguns defecaram nas vestimentas mas outros lograram produzir o raio. O meteoro explodiu em trilhões de diminutas estrelas que iluminaram o firmamento. Era o início de uma Nova Era para a Humanidade.

* extraído do dicionário Houaiss

Carlos Cruz - 16/12/2012

adágio torto


pau que nasce torto nunca se acanha ante um reto.

Carlos Cruz - 16/12/2012

sábado, 15 de dezembro de 2012

é big! é big! é hora! é hora!



nos distantes idos dos outroras juvenis, escritores melancólicos enxotavam seus corvos com asas de graúna e apetite for destruction para dentro do meu cérebro pulsantemente confuso, convencendo-o - e ao resto de mim - que a vida era um enorme monturo de merda de vários gatos preguiçosos embrulhado em um véu colorido com aroma de jasmim. intermitentemente e sem dó bicavam minha cachola, até acenderem os candelabros da razão-que-não-se-cala: os bons da literatura, do cinema, da música, de toda arte que vale à pena, morrem jovens. não demorou e a certeza veio, indefectível, incandescente, luminosa e sorridente: não quero passar dos 40. com toda a solenidade que o momento exigia - tinha 17 anos, porra! - comuniquei meu desejo à mamãe, que ficou me olhando com aquela expressão de "coitado do meu filho... maluquinho, maluquinho... também, passa o dia inteiro lendo..." bom, o tempo passa, o tempo voa e a poupança bamerindus? a meia-idade chega e muda a porra toda. morrer antes dos 40 o escambau! eu quero é rosetar, beber, fumar, comer, cagar! quero descobrir a pedra filosofal, se existiu mesmo esse tal de cabral, se quem vence a batalha, no final, é o bem ou o mal, se entre a branca de neve e os sete anões rolou um furimfumflau. trinta minutos me separam da virada fatal. rezem, orem, persignem-se, prostrem-se, façam preces por mim. se chegar aos 41, a cerveja e o amendoim japonês são por minha conta.

Carlos Cruz - 14/12/2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

Pedido de Demissão



"cansei dos olhares, dos sorrisos maldosos, dos balbucios vis. cansei dos holofotes ofuscantes, dos aplausos falsos. cansei de ser diferente. quero ser apenas mais um lugar-comum na multidão dos iguais. um puído clichê. quero vestido curto preto básico, sombra e rímel, sandálias de salto alto trançadas nos tornozelos. quero beber a vodka com energético que todos bebem, engolir o comprimido estimulante que todos engolem, dançar o bate-estaca que todos dançam, sortear meu sexo para quem o quiser. quero minha vontade fluida, volúvel, meu desejo banal, fútil, meus anseios palpáveis, inúteis. quero virar coisa, mais um objeto humano para ser consumido até a vida útil acabar, queimar como fogo de artifício, fugaz e multicor, em meio a centenas de outros, explodir, anônima e feliz pela escuridão que se avizinha. quero o glamour do não-existir, a paz do não-ser. o silêncio e o breu, é só o que quero. estou farta. desisto. peço demissão."

sofia, ex-mulher barbada

Carlos Cruz - 01/12/2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Absinto





queria tomar o tal absinto pra ver qual é que é a do tal absinto. mas não se toma uma bebida desse jaez, com toda sua densa aura verde, de uma maneira qualquer, nem se toma tampouco um absinto qualquer. não. depois de esbarrar com a fada nos livros e filmes da vida, não poderia interagir com uma ninfa alada made in brazil, mesmo porque - para enorme frustração da xuxa - não há fadas verdes no brasil; só a cuca, mas a jacaroa de franjinha tem mais a ver com poções à base de perna de sapo, cuspe de mosca e asa de morcego. ademais, o absinto tupiniquim tem só (só???) 54 % de álcool. assim não pode, assim não dá. como diz, acertadamente, Suzana Muniz (olha, rimou!), beber absinto demanda todo um intrincado -  e devotado - ritual, algo semelhante a uma sessão mediúnica, com direito a mesa ouija, incenso, livros recendendo a mofo, declamação dO Corvo do Poe, enfim, todo um aparato místico-romântico-gótico-literário para não ferir o brio nem ofuscar o brilho negro dos espíritos afins, a fim de bebericar conosco. bem, consciente de que nas prateleiras de nosso "shopping bramil" não se encontra a beberagem (só uma espécie de ice absinto, fraco e adocicado), iniciei a busca em nossa adorada internet. descobri que os melhores absintos são produzidos na tchecoslováquia, digo, na república tcheca, uma das marcas tem um nome bem sugestivo: King Of Spirits, e exibe o circunspecto rosto de Van Gogh no rótulo. o outro é um tal de Hill's. porém, lamentavelmente (ou não), essas marcas não se acham em terra brasilis, só importando, porém o imposto de importação e especialmente minha mensal remuneração me proíbem essas extravagâncias. contudo, sou brasileiro, quase alcoólatra, e não desisto jamais. achei uma artemisia absinthium engarrafada que atendia satisfatoriamente aos meus anseios: Absinto Hapsburg Premium Rerserve, 750 ml, graduação alcoólica: 89,99%, made in U.K. Não me contive e acabei mandando um "Deus salve a rainha!", em detrimento de minhas convicções anti-monarquistas. Conheceria, enfim, a sininho do peter pan. Todavia, uma vez mais, a euforia alcoólico-literária se escafedeu, meu sorriso cedeu lugar à cara de bebê cagado. o preço. engoli a saliva e li: R$126,00. nesse momento, sempre me vêm à mente os orçamentos no excel, a caixa do correio repleta de contas, os telefonemas de cobrança, a cara implacável de falso compadecimento do gerente do banco. não. não dá. Degas, Van Gogh, Picasso e Hemingway terão de esperar. Se a vontade apertar, tem álcool pring lá no armário da área de serviço. a gente mistura umas ervas, sei lá, carqueja, tomilho, alfavaca, manjerona, açafrão, hortelã amassadas no pilão, taca limão e vê no que dá. não vemos a fada verde mas ao menos matamos algumas lombrigas.

Carlos Cruz - 08/11/2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Nova Classe



em tempos de aquecimento econômico, nada melhor que algumas caixas de budweiser, heineken ou stella artois para refrescar o esôfago, tentar aplacar a sede de consumir o mundo. agora, agente podemos. a classe outrora sub-sub-sub agora tem um sub a menos e ruma, garbosa, perfumada e cheia de marra, ao lugar nenhum, mas não um lugar nenhum qualquer: lá é chique e tem muitos brinquedos eletrônicos. pode-se tirar uma miríade de fotos com o novo ai pede e - alegria! - publicar no instagram. um viva para fhc! um hip-hip-hurra para lulalá!! uma salva de palmas e duas de tiros de canhão para dilma-furacão-do-cabelo-armadão!!! o brasil deixou de ser o país do futuro, o brasil é o futuro. e o futuro somos nós, a nova classe emergente mais ou menos. temos fome de isca de filé, temos sede de cerveja cara, temos múltiplos desejos a comprar e dividir no cartão. te cuida, vip besta empolado do high society, porque estamos chegando!

Carlos Cruz - 31/10/2012

Raquel



raquel não é rapunzel
raquel não é gargamel
raquel vai para o céu?

raquel foi na china comer pastel
diz: melhor que ir para o beleléu
raquel vai para o céu?

raquel chorou o adefuntamento da silvia kristel
raquel galopa nua e dança o créu no lombo do corcel
raquel vai para o ceú?

raquel acha graça do sargento pincel
raquel acredita no papai noel
raquel vai para o céu?

raquel bebe litros de vinho moscatel
raquel beija o feio e o chama de pitéu
raquel vai para o céu?

raquel não é iracema
raquel não é a virgem dos lábios de mel
raquel vai para o céu?

raquel fugiu com o menestrel
raquel curte um sarapatel
raquel vai para o céu?

na ventania, raquel não cata papel
raquel tem qualidades pra dedéu
raquel vai para o céu.
Carlos Cruz - 24/10/2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O Pulha Previdente



Olhar vazio como a vida, divisou embaçado o volver trágico e lânguido da pistola, da bolsa à boca. Indiferente como todo citadino que não se preza, não moveu palha. Apenas e tão-só um leve tremor natural ante o estrépito causado pelo disparo. Tão natural quanto a queda e o decúbito dorsal da infeliz. Por alguns segundos parcos, aquela barriga proeminente sob o vestido estampado com flores amarelas, aqueles olhos celestes-suplicantes alvoroçaram com flashes pardacentos e tortos seus pensamentos. Um balouçar de tronco mais um alçar de mãos afastaram o demônio da confusão, destrutivo que ele só. Vade retro, Satanás! Afastou-se, rumo ao seu habitat, agradável e sujo, frio e familiar, para encontrar os irmãos de caras pétreas, miseráveis e iguais. Um desgraçado filho da puta a menos no mundo - refletiu - e viu que era bom.


Carlos Cruz - 06/06/2012

terça-feira, 1 de maio de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sílvia, a Cachorra




Sílvia fazia enorme sucesso entre os homens. Era o que se costuma chamar de uma mulher exuberante. Aos vinte anos, possuia um corpo de dar inveja a muita modelo. Não, não era magra. Pelo contrário. Tinha muitas curvas, 70 Kg muitíssimo bem distribuídos em seus 1,70 m de altura. Seios nem fartos nem pequenos, na medida. Um rosto difícil de definir: traços angelicais, lábios grossos, olhos verdes meio diabólicos, lindos e cacheados cabelos loiros. Agora, aqui no país do carnaval e da "loira do tchan", sem sombra de dúvida, o que chamava mais a atenção era sua bunda. Que bunda! Abundante bunda! Não havia cabeça masculina que não se virasse quando Sílvia passava, com seu rebolado de mulata do Sargentelli. Na praia, diante daquela bunda perfeita, nada encoberta por um sumaríssimo biquíni, o que se via era um festival de enrubescidos "homens-beringela". A verdade é que Sílvia adorava se exibir. E gostava muito, mas muito mesmo de sexo. Sexo, sexo, sexo. Depravada, libertina, concupiscente, promíscua, eram muitos os adjetivos de Sílvia. Um psicanalista, com quem tivera apenas três sessões de análise e uma de sexo selvagem, a diagnosticara como ninfomaníaca. Adepta do sexo grupal, do tal "gang bang", Sílvia não se satisfazia apenas com um pênis, tinham que ser vários ao mesmo tempo. Quanto mais, melhor. Apesar de gozar de uma situação financeira estável, Sílvia tinha o hábito de embarcar em ônibus lotados, só para ser alvo da "sarração" masculina, preferencialmente trajando minúsculos vestidos ou saias. Ah, a indumentária de Sílvia era um caso à parte: tops, blusas, saias, vestidos, shorts, calças, todo seu guarda-roupa era pelo menos dois números abaixo do ideal. E, de preferência, vermelho. Sílvia era uma devoradora de homens. Uma puta. Gostava de ser puta. No auge de sua exuberância e boa forma, ela não imaginava o que o destino lhe reservara...

Tudo começou na infância. Sílvia era uma menina, digamos, sexualmente precoce. Desde muito pequena, sentia uma espécie de calor entre as pernas, um "fogo no rabo", fazendo com que, volta e meia, suas mãos se dirigissem, instintivamente, à fonte daquele agradável ardor. Descobriu que uma leve pressão sobre o clitóris, seguida de movimentos sucessivos para cima e para baixo, causava uma sensação de intenso prazer. Isso com apenas sete anos.

Aos oito, passou a lançar mão de pequenos objetos, os quais introduzia no ânus: canetas, lápis, cabos de escovas de cabelos, utensílios domésticos, tudo o que tivesse formato cilíndrico era útil em suas experiências. Não demorou para enfiar os tais objetos cilíndricos em sua vagina. Em um dia de especial tesão, acabou por perder sua virgindade para um frasco de desodorante Axe.

Sílvia não gostava de brincar com meninas. Os meninos eram mais divertidos. Certa vez, seu primo Lucas, que passava férias na casa de Sílvia, convidou-a para brincarem de papai e mamãe. "Papai e mamãe? Como é isso?" - indagou ela. "Eu te ensino." - Lucas respondeu. Despiu-se completamente, depois retirou as roupas dela, pedindo-lhe que deitasse sobre a pequena cama, cujo lençol tinha o desenho da boneca Barbie. Deitou-se por cima dela e passou a movimentar os quadris, simulando o ato sexual. Sílvia sentiu sua vagina umedecer-se. Foi tomada novamente daquele agradável calor, só que dessa vez, era mais intenso. Percebeu algo duro forçando sua barriga: era o pênis de Lucas, que após alguns poucos minutos ejaculou sobre o corpo de Sílvia. Ela recolheu uma pequena porção do sêmen e provou. Gostou do sabor.

A molecada da rua onde morava Sílvia logo soube de seus atributos e de seu apetite. Mal colocava os pés na calçada, era rodeada por um batalhão de meninos, que a convidavam para ir com eles à "gruta". A "gruta" era uma caverna de pequenas dimensões, localizada no sopé de um morro, ao lado de um riacho, onde os casais de namorados fugiam aos olhares indiscretos e aos comentários maldosos das matronas fofoqueiras da cidade e as crianças iam nadar e brincar, longe do controle dos pais. As más línguas diziam que a "gruta" era o portal do inferno, ou o "inferninho".

O fato é que nossa menina, agora já com dez anos, tinha "quilômetros de pista" e uma fama que sobrepujava a de muitas meretrizes célebres. Os garotos faziam fila para saborear suas qualidades.

A mãe de Sílvia, Dona Maria das Dores, criara com muito sacrifício sua única filha. O pai desaparecera tão logo soube da gravidez. Ao ser questionada por Sílvia, Dona Maria dizia que ela não tinha pai. Como percebera que esta pergunta causava intenso sofrimento em sua adorada mãe, Sílvia parou de perguntar. Dona Maria das Dores, católica fervorosa, dando-se conta do que acontecia com sua amorosa pupila, tratou de mostrar-lhe o caminho da salvação. Passou a levá-la à pequena igreja do bairro, onde Sílvia, contrariada, ouvia longos sermões sobre fé, amor ao próximo, pecado, Céu e Inferno. Após umas três semanas de idas quase diárias à igreja, em um belo dia, no qual sua doce mãezinha acordara com uma terrível enxaqueca, Sílvia pediu sua permissão para ir à igreja confessar-se. "Aleluia. Acho que estou conseguindo endireitar essa menina" - pensou, aliviada, Dona Maria. "Claro, Sílvia, vá com Deus. E peça ao Padre Antônio que reze por mim." E lá foi a menina cumprir sua liturgia. Foi flagrada pelo clérigo dando para o coroinha, em uma sala atrás do púlpito. "Saiam daqui, seus degenerados! Esta é a Casa de Deus!" - esbravejou o pároco. Ao saber do episódio, a mãe de Sílvia, entre suspiros, sentenciou: "Pau que nasce torto, morre torto." Entregou sua filha nas mãos do Todo-Poderoso.

Sílvia cresceu. Agora estava com dezesseis. Adolescente com corpo de mulher. Dizem que o uso faz saltar as formas. Na escola (assim como no sexo, era aplicada nos estudos), nos intervalos entre uma aula e outra, ia para o banheiro masculino transar com os colegas. Já naquela época, apreciava vários paus ao mesmo tempo, preenchendo cada orifício (os possíveis de preencher, é claro). De três em três, os estudantes aprendiam a mais nobre das artes: a arte do sexo. Ela pedia que gozassem em sua boca. Desde aquela primeira experiência com seu primo Lucas, nunca deixara de apreciar o sabor do esperma. Engolia com gosto, lambia os lábios.

Aos dezoito, agora mulher feita, não tardou para acontecer o inevitável: Sílvia conheceu Paulo, um cafajeste, um rufião explorador de mulheres. Sujeito boa-pinta, rosto com traços um tanto rudes, olhos verdes penetrantes, longos cabelos pretos cuidadosamente penteados para trás, roupas de grife pretas combinando com os reluzentes sapatos, também pretos. Tão logo fitou Sílvia, vislumbrou nela um enorme potencial a ser explorado. Convidou-a para jantarem, levou-a ao melhor restaurante da cidade, depois ao melhor motel. Enviou flores no dia seguinte. Telefonou para dizer o quão inesquecível fôra a noite anterior. Conforme o esperado, Sílvia se apaixonou por aquele homem tão galante.

Uma semana após o memorável jantar, Paulo levou Sílvia até uma suntuosa mansão, localizada na área nobre da cidade. "De quem é esta casa?" - perguntou ela. "De um amigo." - retorquiu Paulo. Entraram, ele abriu uma garrafa de champanhe e logo estavam na cama. Paulo chupava Sílvia como se sua vulva fosse um maná no deserto e ele um legionário sedento. Súbito, eis que ela percebe um homem nu, ao lado deles, com o pênis ereto, observando. Assustada, dá um grito. Paulo a acalma, dizendo: "Este é meu amigo Pedro, o dono da casa. Chupa o pau dele." Ainda sob o efeito do susto, mas muito excitada, Sílvia obedeceu: Chupou o pênis daquele homem estranho como só ela sabia fazer. Depois fizeram muitas outras sacanagens durante o resto da noite, culminando com uma dupla penetração e com os homens ejaculando na boca carnuda de Sílvia, que engoliu tudo. Deitada na cama, viu quando o estranho, após vestir suas roupas, entregou algumas notas de cinqüenta reais para Paulo. Ela nunca havia cobrado por seus "serviços". Considerava o sexo uma troca, onde todos sentiam prazer. Mas amava Paulo. Por que não ajudá-lo, já que pelo visto, estava precisando?

Na noite seguinte, Paulo disse a Sílvia que tinham seis homens para visitar. Ela nada falou. Foi com ele, deu para os homens e ele, ao final, entregou-lhe quinhentos reais. Aceitou. Afinal, também estava necessitada de algum dinheiro. Embora não fosse de comprar roupas e objetos caros, era vaidosa, e manter a vaidade custa dinheiro.

Os meses que se seguiram foram os mais felizes na vida de Sílvia. Fazia muito sexo, com muitos homens diferentes e, após cumprir sua jornada de prazer (não considerava aquilo trabalho), fazia amor selvagemente com Paulo, o amor de sua vida. Se sexo era bom, sexo e amor era melhor, com certeza...

Não havia uma única nuvem no céu naquele 21 de dezembro. Dia perfeito para um bronzeado. Sílvia exibia sua formas perfeitas na praia, causando, como sempre, renhidas discussões entre os casais que também aproveitavam aquele belo dia de verão. Havia combinado encontrar-se com Paulo às 20:00 h. Ele dissera que aquela noite seria especial. Confiava nele. Afinal, não se submetiam às regras impostas pela sociedade moralista e hipócrita. Faziam o que bem quisessem, com quem bem entendessem. Ciúme era um sentimento inexistente entre eles. Amavam-se. Faziam muito sexo. Eram felizes.

Paulo chegou pontualmente às 20:00 h. Sílvia entrou no carro e ele arrancou, após trocarem um ardente beijo e ele passar a mão entre as pernas dela, verificando que estava sem calcinha. Não usava calcinha. Gostava de causar "frisson" nos clientes dos restaurantes que freqüentavam, com cinematográficas "cruzadas de perna", deixando à mostra, por instantes, sua boceta depilada.

Seguiram pela rodovia principal, até que Paulo realizou uma manobra, acessando uma via secundária, não pavimentada. "Para onde vamos?" - quis saber ela. "É surpresa." - Paulo retrucou. Após trafegarem por uns trinta minutos, o automóvel parou diante de um enorme portão de madeira, ladeado por muros de cimento muito altos. Paulo lançou mão de um controle remoto e acionou um botão. O portão se abriu e entraram na propriedade. Apesar da fraca luminosidade irradiada pelos postes de madeira ao longo do caminho, ela percebeu que tratava-se de uma fazenda. Viu estábulos, plantações, viveiros, a enorme casa antiga, essa sim toda iluminada por holofotes dispostos em frente, no jardim. Paulo não seguiu em direção à casa, tomou uma trilha lateral, embrenhando-se numa floresta. Mais alguns minutos, chegaram a um descampado. Paulo parou e desligou o carro. Sílvia, boquiaberta, viu cerca de trinta pessoas, todas trajando túnicas e máscaras pretas e segurando tochas. No centro do descampado, uma gigantesca fogueira, em torno da qual as pessoas andavam, balançando o corpo para um lado e para o outro, cantarolando uma música em um idioma desconhecido para Sílvia. Em um dos lados da crepitante fogueira, à esquerda, havia uma espécie de cadafalso, com um tronco ao centro, rodeado por gravetos e pedaços de madeira. Lembrava um filme que Sílvia assistira há tempos: O Nome da Rosa, se não estava enganada. À direita da fogueira, Sílvia divisou algo semelhante a um altar: um bloco de cimento, com aproximadamente dois metros de comprimento, um metro de largura e um metro de altura, todo adornado com flores e velas. Detalhes que chamavam a atenção eram quatro argolas de ferro existentes em seus quatro vértices e um ressalto curvilíneo na face superior. "Que porra é essa?" - questinou ela. "Calma. Confie em mim" - replicou Paulo. Segurou uma das mãos de Sílvia e a conduziu até o bloco ou altar, despiu-a, deitando-a de bruços sobre a superfície lisa, de forma que sua pélvis acomodou-se na saliência existente no bloco. Amarrou suas mãos e pernas nas argolas de ferro. As pessoas que havia visto quando de sua chegada, passaram a caminhar em torno dela, ainda cantarolando a mesma música murmurante e indecifrável. De repente, todos retiraram as túnicas e Sílvia percebeu que eram homens: Seus pênis eretos reluziam à luz do luar e das chamas da fogueira. Um a um, subiam no bloco e faziam sexo com Sílvia, alguns metiam em sua vagina, outros em seu ânus. Sílvia, a despeito de estar achando aquilo tudo muito insólito, gozou como nunca, como uma égua no cio. Passaram-se muitas horas, horas de muito sexo. Sílvia estava exausta, exausta e melada, completamente coberta de esperma. Em dado instante, quatro homens a libertaram e a levaram até o cadafalso, onde suas mãos foram novamente amarradas. Os homens, sempre com aquele andar balouçante, e portando as tochas, passaram a cantar uma música diferente, em um tom um pouco mais alto. Sílvia foi tomada pelo medo. Parecia que, após ser fodida, seria sacrificada por aqueles homens. Paulo estava a uns vinte metros de distância, ao lado do bloco de cimento, sobre o qual havia uma maleta aberta. Sílvia viu algo nas mãos dele que parecia um maço de dinheiro. Ele contava as notas, com uma expressão de satisfação estampada no rosto. "Calhorda! Filho da puta! Como pôde fazer isso? Eu o amava." - pensou. Tentou gritar, não tinha forças para isso. O volume da cantoria aumetava e com ele o ritmo da dança. Em dado momento, quando o som das vozes masculinas era quase ensurdecedor, todos lançaram, ao mesmo tempo, as tochas sobre os gravetos. Rapidamente, as chamas elevaram-se. Sílvia soltou um grito desesperado de dor. Antes de perder os sentidos, ainda pôde divisar, por entre as chamas, pela última vez, o rosto de Paulo, seu grande e único amor. Ele sorria... Àqueles que pensaram que nossa estória terminou, digo: Não. Não é uma tragédia. Nossa heroína merece um final melhor. Mal transpôs o limiar do Inferno, Sílvia causou enorme rebuliço. Demônios, condenados, todos vieram a seu encontro para usufruir de seus favores sexuais. Satã, também conhecido como "El Diablo", tratou logo de pôr ordem na casa: casou-se com Sílvia, que tornou-se a Rainha do Hades, passando a promover, por toda a eternidade, bacanais de deixar Calígula (que perdeu seu amante diabinho para Silvia) roxo de inveja.


CARLOS CRUZ - 24/04/2007

mamãezinha



à custa de esperneios ferozes, manhosas estridências e lágrimas à farta, em acre cascata, ganhei mamãezinha ou "calaboca, diabo!". irmã das outras bonecas das amigas-irmãs malvadas e ricas. ninava mamãezinha que ninava bebezinho, ninado por mim de tabela. se bem me recordo, fiquei feliz; sorri até. grata, beijei mamãe. rezei pra papai-do-céu, de joelhos no taco. impúbere, ignorava a malvadeza chamada alma. tonhão, o caseiro, mostrou-ma; disse se chamar murcia. mas isso foi antes da cirurgia. depois, enchi o novo saco enrugado: em mamãezinha tasquei um saco, duas bolinhas-de-gude vermelhas dentro de um saco de cebola, vermelho também. um salame pra arrematar. queria um parecido, mas o médico desaconselhou-me sob argumentos anti-estéticos. o salame secou e exalou mau cheiro. enchi o saco - agora não tão novo - de novo e joguei mamãezinha no saco do lixo. não gosto mais de bonecas. elas não sabem brincar.

Carlos Cruz - 10/05/2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

mundo perro - final





dolorido, desperto. deparo um mar de branco hospitalar. sinto-me um náufrago em minha solidão. a felicidade debandou ou viajou em férias ao camboja. quem sabe virou cinzas, causticada pelos pássaros de fogo. as lembranças vêm em pequenas doses, ao sabor do latejar do meu ombro. santiago aparece. segundo ele, surtei de alto a baixo, de frente e de costas, por dentro e por fora. em suma: endoideci geral e de vez naquela vez. serei avaliado e muitíssimo provavelmente - creio ainda não ter referido a simpatia de santiago pelos superlativos absolutos sintéticos - afastado pela psiquiatria; readaptado, talvez. felizmente - disse-me ele - não matou nem feriu ninguém. o computador do plantão, porém - coitado! - já era. virou uma peneira. trinta e um tiros é tiro pra caralho! você tava mesmo com raiva do pobre. volvi a cabeça e de soslaio, sorri esboçado e satisfeito como o jogador que vence a partida. missão cumprida. eu destruíra a caixa de pandora e salvara o mundo. glória a hesíodo! e a mim, claro. de preferência, acompanhada de uma medalha e uma promoção por bravura. afinal, a escassez de heróis demanda lauréis aos intimoratos necessitados de um cascalho a mais pra gastar com pornografias culturais e vícios legais. porque sou - convém jamais esquecer, sequer por um (seria ótimo?) átimo: um homem da Lei! VAGABUNDOS DE TODO O ESTADO, DO TIPO CORRIQUEIRO OU NEO-CONVERTIDOS CAOZEIROS, TREMEI! investigador arquimedes, o martelo da justiça, o flagelo dos párias, ainda está no páreo! a trovoada seguida do matraquear do granizo sobre o telhado galvanizado deu o tom maldito propício ao fechamento da diatribe. o céu desabava sobre as cacholas dos humanos, contribuintes e não. uma exaltação brotada na planta dos pés - pra não dizer frenesi, sempre achei um termo meio gay - escalou, deliciosamente implacável - nada adiantou, ficou gay do mesmo jeito - meu corpo e descambou e explodiu no cérebro. olhei a cidade enevoada e fluida e tive a certeza da inutilidade da minha existência. por isso e somente por isso, pela primeira vez, senti-me parte do todo social, mais idiota do que nunca. tive ímpetos de gargalhar.


e gargalhei.



Carlos Cruz - 18/12/2011

mundo perro - parte 6




giroflex vermelhos girando e girando e girando. sem parar. vermelho. sangue. vernelho-sangue. um sujeito negro chafurdando no seu próprio sangue no piso amarelo. pms com testas franzidas, fardas cinzas engomadas, olhos injetados. sangue. olhos de sangue. sangue nos olhos. ao balcão, uma mulata chora. olhos entalhados no fundo de olheiras negras chovem em conta-gotas. lágrimas ininterruptas, fartas. sangue. lágrimas de sangue. farto, de novo novamente mais uma vez. estou farto e trêmulo. insano, enfim, estremeço. atirar! quero muito. necessito atirar! e atiro. descarrego minha pistola. recarrego, atiro de novo e de novo e de novo. alvoroço. pandemônio. pessoas ao chão. pms e civis e santiago se entreolhando, atônitos. em meio ao caos, transtornadamente tresloucado, sinto o calor no ombro somente quando a munição acaba. fumaça, neblina e cheiro de pólvora. o fluido vermelho que jorra, a cântaros, torna-se uma mancha crescente no piso amarelo. concomitante, choro e rio. babo também, acho. ora penso estar louco e sou tomado por um sentimento que acredito ser a alardeada, almejada felicidade; ora sobrevêm a decepção a partir da constatação de que ainda concateno pensamentos. dizem que os loucos não pensam. penso, logo, raciocino, logo, ajo em conformidade com a razão. quem disse isso? há estudos científicos comprobatórios de tal assertiva? ou serão meras quimeras dos dementes? não tenho respostas nem as desejo, quero apenas prolongar essa sensação de purificação libertária, esse júbilo remissivo que me enche de paz e me dá ganas de morder os dedos do pé e cantar as músicas do Benito di Paula. justo nesse instante - por que tão fugaz? - vejo a luz. vá para a luz, caroline! feliz, sim!, imirjo na lagoa rubra iluminada por pássaros de fogo emissários do hades. apago a luz e acendo um sorriso sem dentes no canto da boca. desapegado e telúrico, etéreo e com pés plúmbeos, não ascendo. a vida, afinal, não é assim tão ruim.


mundo perro - parte 5




paradoxal a ponto de reluzir e ainda assim - por muito pouco - quase não existir, modorrenta, turva, frenética, trágica, bela (como deve ser, a despeito dos implantes e peitos de jabulanis e ferraris e perfumes importados que fazem espirrar), a deambulação emitiu seu derradeiro estertor, descambou onde deveria - quiçá - o inevitável dever desgraçado e a monocórdia ladainha incessante: só pode nunca poder nada. se foder-se! de verde, de amarelo, de azul, de branco. de preto & branco. a vascaína tá dobrando a esquina. vaza, vagabundo! desinfle até virar galho de goiabeira. vou e volto sem sair do lugar. será a tal metamorfose? ansiada, dentre outros malucos, por literatos?, musicistas?, vates?. ah! vá te danar! ou vai se! pra não eriçar tão-só um gramático braço. não dá pra ser metamorfose, tampouco ambulante. os GM zunem cassetetes na cacunda e ninguém tá aí de plantão louco pra sofrer. só os S&M de araque e os leitores do caderno B. se uso avanço, ninfas avançam; se axe, exalo axiomas. piadinhas infames. adoro. e tudo isso somente pra dizer que cheguei na DP. comichão nos dedos. vontade de atirar da porra! tem nome isso, certamente tem. síndrome do desejo irrefreável e irresistível de atirar com armas de fogo (há atiradeiras ou bodoques no Sítio do Pica Pau Amarelo, nunca é demais relembrar, mesmo que os garotos informáticos e x-bóxticos desconheçam). deve existir. outra psicossomose bacana que consta ou deveria constar do vade mecum da psiquiatria: dependência de dupla penetração na delegacia de polícia. a merda é que só mulher feia e viado iam sofrer dessa porcaria. bosta!

gravura: Butcher, Baker etc by Dominic Marco

sábado, 3 de dezembro de 2011

mundo perro - parte 4



a noite estava ainda mais fria. o asfalto úmido indicava chuva recente. se acreditasse que possuía alma, diria que ela estava tão fria como o clima noturno. minha cabeça acompanhava o fluxo de meus pensamentos que giravam alucinados por tempos, pensadores, bebedeiras e bucetas distantes ou nem tanto. como sempre acontecia quando bebia, tinha vontade de atirar, mas o homem-da-lei sofreava o desejo. súbito, surgiu um motorista apressado na via, bastante comum a essas horas avançadas, decerto movido e motivado pelo álcool e/ou outros entorpecentes lícitos e ilícitos. quando emparelhou comigo, reles transeunte ébrio, passou propositalmente sobre uma poça. tomei um banho de água suja e gélida. apesar da obscuridade, pude ver o sorriso do sem-mãe. FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! saquei a arma, mirei a traseira do auto, um Jaguar XKR conversível e atirei. para o alto. por pouco a razão não perde a peleja para o coquetel de raiva e vodka. por um triz. imaginei as manchetes no dia seguinte, primeira página do meia hora e do dia: POLICIAL BÊBADO ATIRA E MATA MOTORISTA. O investigador da Polícia Civil Arquimedes Sampaio, após sair da boate Savana's, conhecido inferninho de Copacabana, ponto de encontro de prostitutas, travestis e criminosos, assassinou covardemente o estudante Felipe Stonnenberger de Alvarenga na madrugada de ontem... não. definitivamente não. não vou dar mole pra esses putos. que crucifiquem outros pra vender seus tablóides de merda. parte do porre havia passado. encharcado, tiritava. novamente pensei na minha condição miserável. sim, era isso que eu era, um miserável, um merda. a melancolia sobreveio com força total, a boca medonha cheia de dentes afiados e alaranjados devorando-me pela cabeça. senti seu hálito nauseabundo, sua saliva gosmenta melando meus cabelos e meu ânimo de viver. um tiro na cabeça, morte rápida e indolor. indolor? será? ninguém tinha voltado da sepultura para lhe contar se realmente aquele átimo derradeiro e crucial doía ou não. acho que deve ser uma dor lancinante, a maior dor que existe no universo. depois, acabou.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

micropoeta




o poeta é um prostituto
finge quase sempre


mente


de quando em quando,
goza


sente,
sempre


o poeta é um puto.

Carlos Cruz - 20/10/2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

mundo perro - parte 3



Cheguei ao Savana's. À entrada, constatei que o segurança era novato. Boa noite. O Rubi não veio trabalhar hoje? Do alto de seus muitos centímetros, o brutamontes dardejou um olhar hostil. Rugiu: quem quer saber? saquei a carteira - bendita carteira - e quase a enfiei na cara do negão de paletó, gravata e calça negra de tergal; o distintivo, mesmo velho e opaco, refletiu tênue a luz vermelha que provinha do interior da boate. investigador Arquimedes. a primeira reação do corpulento foi nenhuma reação. a mesma expressão carrancuda, a mesma atitude animosa. sessenta segundos depois, uma frase seca: espera aqui, vou chamar. entrou no inferninho. Enquanto aguardava, saboreava os odores que o lugar emanava, uma mescla de fumaça de chiclete tutti fruti, perfume barato e nicotina. Os aromas combinados às luzes multicoloridas e ao blues em alto volume faziam daquele lugar o paraíso na terra. ao menos para mim e os outros sacripantas bêbados embevecidos podres com quem certamente esbarraria lá dentro. queria entrar logo e me inebriar, tornar-me fumaça cheirosa e fétida, carne líquida inflamável, mergulhar e dissolver no oceano de bucetas altruístas e dissolutas, metamorfosear-me no ser primordial, metafísica e antropofagicamente ideal. quando minha ansiedade beirava o ápice, Rubi apareceu, magro, baixo e feio. sempre que o via, pensava: como um sujeito desses pode ser leão-de-chácara? o pensamento invariavelmente vinha acompanhado da impressão de que ele estava mais magro, mais baixo e mais feio. grande arquimedes, o melhor investigador da polícia civil do estado do rio! grande rubykleysson, o maior puxa-saco da vagabundagem do estado do rio! ei, alto lá, doutor! posso ser tudo mas vagabundo não sou não! trabalho e ganho meu pão honestamente. parou de traficar? pô, doutor, isso são águas passadas... agora, sou um homem lavado e remido no sangue de jesus. ah, tá. então, também não come mais as putas. bom... ninguém é de ferro, né, doutor? e jesus perdoa o pecador arrependido. ele é misericordioso. o senhor vai entrar? tem carne nova na casa, uma loirinha de olhos azuis, peitão, uma bunda de deixar qualquer um doido. sei. e você, é claro, já pegou. não, ela diz que não mistura trabalho com prazer. aquele papo de onde se ganha o pão não se come a carne. é um saco... Arquimedes esboçou um meio-sorriso. entrou.

casa cheia, mas não lotada. dava para se esgueirar entre os fregueses sem esbarrões ou pisadas. "fregueses o caralho! cli-en-tes!", diria madame samanta, a santa. com seus quase setenta, ainda fazia milagres na alcova, "dá até bicicleta em cima do pau", diziam. aproximei-me do palco, onde uma menina - que dificilmente convenceria alguém de sua maioridade - requebrava-se sensual e desajeitadamente e fazia caras e bocas para os putos que fumavam, bebiam e conversavam em tom elevado. cambada de porcos! poucos assistiam ao espetáculo. somei-me a eles. muddy waters, em um tom pontual e flácido, cantava "mannish boy" especialmente para a menina, parecia saber que aquele era o momento dela, só dela. aquela era uma das razões porque frequentava o savana's. o blues. a maioria das casas do gênero tocava apenas música eletrônica, aquele bate-estaca infernal que fazia minha cabeça doer. se não bastasse, ainda usavam aquelas luzes estroboscópicas que me deixavam zonzo. no savana's era diferente. boa música em volume razoável, luzes parcimoniosas. mirei novamente a moça, podia jurar que sua performance havia melhorado. "performance", odeio esta palavra. de repente, ela olhou para mim e sorriu. não retribuí o sorriso. sentia-me triste aquela noite, acho que mais uma vez os problemas fétidos do mundo invadiam sorrateiramente meu cérebro e se espalhavam pelo corpo todo, qual um câncer, qual odor de gente morta quando começa a putrefação. não era a primeira vez que isso acontecia. por mais que me esforçasse para mantê-los à distância e na companhia de seus donos, eles teimavam em me assaltar, me barbarizar, me emporcalhar com a sua pestilência fedorenta e voraz. você está melancólico hoje, santiago dizia. melancólico o cacete! vai se foder!, eu retrucava. a menina continuava sua ofídica dança, evoluía, dançava melhor com certeza. senti um cheiro forte, de um perfume que eu conhecia bem, francês. impôs-se sobre os outros odores não menos densos. sílvia! virei-me, dois passos e foi-se o metro que nos separava. engalfinhamo-nos naquela volúpia sôfrega e tenaz típica dos amantes que amam apenas com o corpo. beijei aquela boca vermelha como se fosse a última boca feminina na face do globo, suguei sua língua com ardor, sem pensar nos paus que ela havia acariciado naquela jornada de trabalho e em outras, centenas, milhares talvez. sabia beijar, a sílvia. assim como sabia chupar um pau. e foder. fodia muito. acho que o sucesso de sílvia se devia a um princípio simples que a aproximava de outros profissionais bem-sucedidos: ela gostava do que fazia. gozava, com quase todos os clientes, segundo me confidenciou numa dessas noites, entre uma trepada fenomenal e outra nem tanto. mas beijo na boca não, me disse certa vez, beijo na boca é só com você, meu pm gostoso. não sou pm, porra! quantas vezes tenho que repetir isso? ôôô... ficou bravinho? adoro quando você fica bravo... vem meter seu cassetete em mim, vem, meu policial malvado... esse diálogo invariavelmente terminava em uma daquelas camas sujas lá nos fundos da boate. mas nessa noite foi diferente. sílvia estava reservada para um gringo endinheirado, um magnata da internet, ela disse. fiquei puto. quando vi o sujeito, fiquei mais puto ainda. branco pálido, cara cheia de espinhas, uns vinte e cinco anos de idade, tênis nike colorido cheio de molas, calça jeans e camisa do chicago bulls. então aquilo era o tal magnata? ah, vai se foder! arrastada pelo braço, antes de sumir atrás da cortina vermelha, a puta ainda me jogou um beijo. minha melancolia voltou com toda a força. segui até o bar e pedi um uísque duplo. virei. pedi mais um. virei. outro. saí da boate, completamente e estupidamente bêbado.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

mundo perro - parte 2




delegacia cheia. à porta, fila. burburinho que ocasionalmente virava falatório que virava gritaria. era hora de chamar o investigador santiago. mãe angolana e pai sueco, santiago era um misto de hércules com zumbi dos palmares, um mulato de dois metros e dez, forte como um estivador, de olhos claros e cara de bebezão. sim, aquele homenzarrão (ai, meu deus! que bofe é esse? remeti (ã?) ao amigo do salão. inevitável.) tinha traços delicados, bochechudo como um bebê de oito meses. daí a alcunha babyssauro, pronunciada entredentes, na delegacia. contudo, a impostura que faltava ao rosto sobejava no tamanho. santiago apareceu no andar de baixo. inopinado. nem precisava dizer nada, bastava chegar e ser visto. mas, a pseudotruculência era mais que uma ferramenta de trabalho, era uma necessidade pessoal, um recurso - eficaz, é verdade - para tentar rebater a brandura transmitida pela cara de neném. e ele disse, disse não, esbravejou (tá legal, sou besta, pronto): VAMOS PARAR COM A PORRA DESSA ALGAZARRA AQUI NA DELEGACIA! ONDE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO, CAMBADA DE FILHOS DA PUTA, NA MERDA DA CARALHA DA FODIDA DA CASA DE VOCÊS? PORRA! O PORRA! sempre arrematava o esculacho verbal, uma espécie de fechamento triunfal, "chave de ouro", diria professor diocleciano, do curso de oratória. O fato é que o esporro funcionou, mais uma vez. infalível, indefectível, batata. Atravessei a turba estática e com grandes olhos e quebrei o silêncio sepulcral: Santiago, segura aí. Vou comer alguma coisa. tá. mas vê se volta hoje. Vou tentar.

A noite estava fria, escura e malcheirosa. Uma brisazinha gelada e incômoda com odor de comida podre e urina esgueirava-se pelas frestas de meu paletó vagabundo comprado na loja do turco. Turco filho da puta! Vendia merda pelo preço de merda. Pensando bem, era justo. Pensando bem, o fodido era eu. Mamãe sempre dizia: estuda filho, estuda pra virar doutor e ganhar bem. Não. Não segui o conselho de mamãe. Virei polícia. Horas e horas perdidas com a cara enfiada em apostilas, livros, monitor do computador. A prova massacrante, a tonteira no final, o tombo-semi-desmaio. Um quase infarto no teste físico. Um quase surto no psicotécnico. Pra quê? Pra ganhar um salário de fome, ser taxado de corrupto e truculento pelos putos que jurei defender, sacrificar a própria vida se preciso for. Pensando bem, filho da puta era o sistema, o estado, o governo. Pensando melhor (e para encerrar a costumeira diatribe muda), o filho da puta era eu.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

mundo perro - parte 1





"PERDEU, PLAYBOY!" "SE FUDEU, OTÁRIO!" "VAI TOMAR NO OLHO DO SEU CU, FILHO DA PUTA BABACA!" "VOU ACABAR COM A SUA RAÇA, SEU MERDA!"
Caixa alta, entre aspas. Assim me ensinaram na Academia de Polícia. Após o verbo e os dois pontos. A maioria dos colegas escrevia: ...então, João das Couves (policês acadêmico) disse: ou falou: ou gritou: Eu não. Preferia alternar outros verbos. Vociferar, esbravejar, bradar. Para variar, diria. Mas era mais para me exibir mesmo.

férias... férias. FÉRIAS! EU PRECISO TIRAR FÉRIAS! NÃO AGUENTO MAIS, CARALHO!

homicídios. latrocínios. sequestros. extorsões. extorsões mediante sequestros. roubos. furtos. lesões corporais. brigas. conflitos. pugnas. equimoses violáceas. lacerações. porradas. porradas. mais porradas. pow! blam! como nos gibis do frank miller. estava no limite. no limite. lembro do programa de televisão. precursor do big brother. dois programas idiotas. o segundo bem mais. babacas ávidos pela fama-fácil-sem-fazer-força expunham o que tinham de melhor: rostinhos bonitos e corpinhos sarados. caras, bocas e argumentos vazios para ludibriar os milhões de telespectros brasileños. ficaria george orwell satisfeito se vislumbrasse em que descambaria sua totalitária sociedade, sua personagem mão-de-ferro invisível que tudo via, sabia, controlava e reprimia? difícil saber. talvez almejasse a materialização da personagem, para botar ordem na casa, reprimir a súcia acéfala cheia de dentes e poses. apesar de que, e não se deve desconsiderar, há autores que dizem preferir as saudações pomposas e afetadas da crítica ao consumo desenfreado da populaça. balela! toda bexiga quer virar balão. e ganhar uma prata, pois prata é sinônimo de diversão em excesso e excessos despertam inspiração.

"conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". assim escreveu zaratustra, o discípulo. não. foi outro. barbudo. outro barbudo. que seguia aquele que alguns místicos asseguram ser zoroastro reencarnado. depois assassinado e ressuscitado. é a verdade. porque está nas escrituras sagradas. sagradas? todo escrito é sagrado. menos o diário oficial e a bula papal. o quê você disse? sei que vão cair de pau. afinal, escreveu, não leu, pau comeu! mas voltemos à verdade. a verdade é que só existe uma única verdade, ao menos para mim naquela noite fria: eu estava de - sa - co - che - i - o! por que e pra que tamanha mediocridade? beber é bom. dançar também. bater papo furado idem. foder, ah! gozei! nem vou mencionar a leitura de bons livros ou a audição de algum blues - qualquer um - ou até mesmo música erudita, pois isso é prazer para bestas empoladas como eu. por que os filhos da puta tinham sempre, invariavelmente, que se engalfinhar, dar socos, morder, enfiar facas, dar tiros nos seus semelhantes? seria um insight? uma consciência súbita e avassaladora de sua torpe condição refletida no outro? cadê minha psicóloga predileta quando preciso dela?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

te julho





inóspito
te vi deserto
exilada
de si


cético
te vi axioma
salpicada
de sins


cáustico
te vi inverno
enevoada
de giz


lúbrico
te vi ninfa
lambuzada
de gim


esquálido
te vi árvore
desfolhada
de mim


se seca
se certa
se fria
se louca
se feia


se julho


te julho
te juro
te furo
te curo
te curro


te amo


Carlos Cruz - 26/04/11
*Gravura: Otra Mirada, de Modesto Trigo.

domingo, 24 de abril de 2011

As Bodas de Fígado




Casou-se moço, no auge de seu vigor produtivo: viçoso, trigueiro, reluzente, belo. Celebração natural de um amor brotado à primeira mirada, os folguedos vararam madrugadas e dias, de sol, fogo, chuva, mormaço. Malgrado protestos, sem cocas, crushs ou tubaínas afins, barraram-se os crentes à porta. Assevera a História Oral que o bagulho foi frenético, bombou. Pena o festivo começo não ter escapado à sanha tradicional dos matrimônios felizes. Amante fogosa, insaciável, ela reclamava elevadas e diuturnas performances e potências do fatigado cônjuge que, herculeamente, desdobrava tripas para satisfazer à amada. Debalde. Tamanha azáfama cotidiana fê-lo, paulatinamente, murcho, verde, opaco, feio de se ver. Apaixonado, chupado pelo amor que devora, consumiu-se até à morte; feliz. Doña Calibrina, a viúva, dizem, à boca pequena, logo anunciou núpcias novas, desta feita, múltiplas. Dada a profusão de pretendentes, decidiu-se por todos. Embevecidos, festejam os excessos da esposa volúvel. De quando em vez, tomba um. Outros poucos convertem-se à seita das vogais iguais. Porém, muitos outros vêm e juntam-se à bacanal. Sempre sorrindo, Doña Calibrina dança. E queima. E roda. Roda. Roda. Roda.


Carlos Cruz - 20/04/2011

* Pintura de Serhiy Reznichenko.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Da Volatilidade da Alma



Teria me espatifado. Elegante, escarlate e estrondosamente. Quem disse que não pode existir elegância e até mesmo sofisticação na morte? E solenidade, é claro. Porque a morte é sempre silenciosa e esse silêncio, até prova contrária, é solene. Como o roxo que forra os esquifes, solenes mas nada elegantes. Os gases, os odores pútridos vêm depois, junto com o esquecimento ou, quem sabe, alguns segundos de atenção virtual, imaginária ou até mesmo real, caso tenha aquela coisa que denominam talento. Sorte, não. A sorte não acompanha o talento, dispõe-se de um ou de outro, qual o amor e o jogo.
Teria me espatifado. Não fosse aquele confortável sofá. Décadas de letargia, apatia e imobilidade, naquele plúmbeo e belo dia de chuva, decidi voar, sem mais nem porquê; certos atos não se explicam, só se executam, durante e depois: sorria! Você não é a ruidosa máquina de colher laranjas! Flexionei as pernas e impulsionei o corpo, um salto libertário para a vida que fica no alto, no baixo, no interior do planeta e da cabeça. Alcei o voo do chega!, do basta!, do foda-se o mundo que eu quero viver! A adrenalina emotiva produzia calor, rebatia o frio da garoa fina e da atmosfera rarefeita. Farto de ser homem, usufruía minha condição de pássaro, procurando enxotar o pensamento que teimosamente me inculcava a fugacidade daquele arrebatamento. Tanto insistiu que conseguiu seu maléfico intento: o motor tossiu, tossiu, falhou; as asas rígidas e longas amoleceram e gotejaram, como sorvete de pistache. Reeditado Ícaro, despenquei qual um fragmento de estrela, incandescente corpo celeste oriundo de uma galáxia distante, desfrutando radiante meus segundos de brilho. Morri, porque toda mudança é uma forma diferente de morrer. Todavia, desta feita, morri feliz. Graças àquele sofá comprido e macio. E àquela senhora de tez muito branca e voz amena. Atônito, corri os olhos por aquela sala espaçosa e atravancada: um enorme televisor exibia um dos mundo animal da National Geographic, parecia pesado; não o programa, o televisor. Ao longo dos quatro cantos havia uma infinidade de imagens sacras, porta-retratos, estatuetas, souvenirs diversos, tudo sobre móveis antigos, de madeira de lei. Nas paredes, quadros, muitos quadros, paisagens, em sua maioria. O maior deles despertou minha atenção: exibia o rosto de um homem branco com sobrancelhas espessas, olhos pequenos e intensos, ligeiramente calvo, de sorriso tímido e expressão inteligente. Parecia me dizer: "seja bem-vindo à minha casa." Foi nesse exato momento que deixei de ser pássaro e voltei à condição de homem, e, o melhor é que me senti maravilhosamente bem, tomado por uma sensação inexprimível de bem-estar, de paz comigo e com o universo.
A voz da senhora de pele muito branca, ao invés de sacar-me de meu devaneio, fundiu-se a ele de maneira sutil: "Qual o seu nome, meu filho?" Não soube responder de imediato; a transmutação, o salto, a viagem atemporal, extra-dimensional através do firmamento fizeram-me esquecer de mim. Mas, paulatinamente, minhas memórias humanas retornaram. Falei meu nome, ela disse o dela: Eloíza. Ofereceu-me café. Conversamos, horas e horas, nas quais percebi estar diante de uma pessoa sábia, muito sábia. Falamos das maravilhas dos mundos antigo e moderno, da Renascença, de Ben-Hur, da administração do Faraó Akhenaton, das origens da terracota. Ela me propôs novas viagens, desta feita sem falhas, sem quedas. Aceitei de pronto. Ensinou-me a técnica para me manter suspenso, bastava pensar em coisas boas, permitir o afluxo de sentimentos bons, amar e sorrir, sempre e somente.
Segurou minha mão esquerda e me conduziu em torno do globo, voltas e voltas e voltas, trânsito em épocas distintas, mostrou-me grandes feitos de grandes homens. Mas não somente o belo, pois, "o espírito humano não se compõe só de beleza, é também grotesco, feio, sujo e bizarro". Vi o produto da intolerância e mesquinhez humana, vi guerras, muitas; sangue, litros e litros do líquido carmesim a manchar indelével almas e naturezas, mortas, quase sempre.
Fizemos muitas viagens interessantes. Contudo, eu era apenas um forasteiro que caíra do céu. O mesmo não se pode dizer acerca da sapiência de Dona Eloíza, cuja fama atraía uma multidão de sequiosos e necessitados. Filas. Romarias diárias, caravanas oriundas de todas as partes, próximas e longínquas. Ricos, pobres, doutores, analfabetos, brancos, negros, amarelos, miscigenados, todos em busca dos sábios aconselhamentos, da luz, da resolução de seus problemas. Entre panos de prato, livros, revistas, anotações e contas, pródiga, ela distribuía soluções e sorrisos. Promovia reconciliações, celebrava casamentos, arrebatava endividados da forca; não existia, para a Sábia Eloíza, túnel hermético ou logradouro sem saída.
Igualitária, justa, não mensurava pessoas. Certa feita, um político prepotente, acostumado a regalias e paparicos, pretendeu privilégios antecipatórios em detrimento dos demais pacientes que aguardavam, pacientes. Exasperada, ela explodiu: "Mas que merda! Se Vossa Excelência se considera mais importante que os outros que aqui estão, e, por isso requer prioridade, faça o seguinte: defeque num pote e traga aqui. Se vosso parlamentar excremento exalar um odor perfumado, atendo-o primeiro." Cabisbaixo, o homem público foi postar-se ao final da fila.
Os dias passavam, solenes e felizes. Vez ou outra, alçávamos voo, Dona Eloíza e eu, o único a receber as instruções. Não sei por que fui o escolhido. Talvez empatia entre espíritos curiosos, buliçosos. Voávamos e eu aprendia, novos acréscimos de conhecimento a cada viagem. Porém, dentre todas as lições ministradas por Dona Eloíza, a maior, indubitavelmente, dizia respeito ao valor da família. Jamais vou esquecer aquelas ruidosas e festivas noites de Natal, os enfeites, os pisca-piscas, os amigos-ocultos, os presentes sorteados, as orações de mãos dadas, os sorrisos profusos, o "ciscar pra dentro", as mesas fartas e ela no centro da sala, maestrina habilidosa a reger com amor sua bela, louca e perfeita orquestra familiar.
Entretanto, a luz emanada por Dona Eloíza não era suficiente para iluminar o mundo, que seguia girando, com sua superfície abarrotada de humanos, dia a dia mais estúpidos e embrutecidos. Melancólica, olhos mareados, cada nova notícia funesta suscitava um comentário que se tornara recorrente: "Acho que já vivi demais..."
Era um dia cinza, um dia triste. Uma bruma fria ocultava a cidade e seus habitantes. Reinava um silêncio opressivo, não se ouvia voz humana, nem ruídos de veículos, nem cantos de pássaros. As folhas condensavam a fina garoa, gotejavam, monotonamente. Qual a cidade, o silêncio dominava a casa, parecia que o ar se tornava sólido, pesado. Uma espécie de languidez se apoderava de meu corpo, sentia uma pressão estranha no peito, como se meu coração se transmutasse, gradativa e dolorosamente, em pedra. Dona Eloíza, com o rosto pálido, profundas olheiras, mas não menos bela, disse-me com aquela voz calma que transmitia calma: "Filho, preciso falar-lhe." Apurei os ouvidos, concentrei-me, ávido por novos saberes. Contudo, desta feita, não houve ensinamentos, ao menos, não o que eu esperava. "Farei minha última viagem, mas, dessa vez, tenho de ir só. Estou cansada, muito cansada... Parece que tudo o que fiz pelas pessoas foi em vão. Só o que vejo são desgraças, intolerância, discórdias, guerras, pessoas matando pessoas por qualquer motivo..." "Não!" - interrompi-a - "Nada foi em vão. O mundo não seria o mesmo sem a senhora, sem sua sabedoria, seus ensinamentos valiosos." "Talvez..." - retorquiu - "Mas o fato é que preciso descansar... Cuide-se, meu filho, e lembre-se do que lhe ensinei, não se deixe influenciar pela mesquinhez alheia, seja diferente, seja você." Abraçamo-nos e choramos. Ela reuniu a família, despediu-se de todos e partiu. A neblina, a garoa, o silêncio daquele dia estenderam-se por todo aquele mês. A Mãe Natureza pranteava a partida de Dona Eloíza. O Mundo ficara mais burro sem ela...
Meses depois, em uma noite de lua cheia, o anjo de asa quebrada teria se espatifado, não fosse aquele confortável sofá. Contou-me sobre a chegada de Dona Eloíza ao Céu. "Uma grande festa!" - disse-me ele - "Há milênios não se via tamanha celebração... Arrisco-me mesmo a dizer que a Festa de Dona Eloíza só perde para a do regresso do Filho de Deus. Também, pudera, o organizador tem excelente gosto, Doutor Muniz, você o conheceu?" "Infelizmente, não" "Sim, nunca vi tamanho luxo, tinha até candelabro... E os comes-e-bebes, então? Hum... Dá água na boca só de pensar... O encontro entre eles foi a coisa mais emocionante jamais vista nas plagas celestiais. Até o Todo-poderoso, que é duro na queda, chorou. Parecia que aquele abraço nunca teria fim. Foi lindo! Depois, dançaram agarradinhos ao som de "Unforgettable", magistralmente executada pela Glenn Miller celeste... Nossa! Fico arrepiado só de lembrar..." À medida que ele falava, as imagens se formavam em meu cérebro; tinha ímpetos de rir e chorar, concomitantemente. "Ah!" - prosseguiu - "ela me pediu que lhes dissesse para ficarem tranquilos, pois sempre velará por todos lá de cima... Dona Eloíza é um anjo, sabia?" "Sim." - retorqui - "Sempre soube disso..."


Carlos Cruz - 20/03/2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Gato Mau



Era uma vez um gato. Um gato mau. Além de mau, mal-humorado. Ficava fulo quando alguém dizia: "olha, que gatinho bonitinho!" "Gatinho bonitinho é o caralho!" - dizia, balouçando o pênis. Um belo dia, uma bela jovem o viu na via e se apaixonou enlouquecidamente pelo bichano. "Bichano é o puto do seu pai!" Ops, desculpe-me. ...e se apaixonou perdidamente pelo felino. Mas ele, bruto que só, nada quis com a pobre moça. "Moça o cacete! Vou mostrar a vocês do que é capaz uma mulher apaixonada. Esse gato há de ser meu!" Cabeleireiro, manicure, banho de loja, batom vermelho, perfume de feromônios e uma lata de sardinha como plano B. Funcionou. Os vizinhos não dormiram aquela madrugada, tamanho o alarido produzido pelos amantes. Pela manhã, cara amassada, remelenta, a mulher arrasta o corpo dolorido para casa. Após o banho, o inexorável espelho. Vê olhos fundos em órbitas fundas envoltas por fundas olheiras. Ao fitar as pernas, depara-se com sulcos esbranquiçados e sinuosos, lembranças de uma noite animal que jamais desapareceriam e seriam transmitidas aos seus descendentes que, por sua vez, repassariam aos seus. Muitos anos depois, um homem chamado especialista poria uns nomes feios e esquisitos naquela coisa feia e esquisita, cuja simples pronúncia do designativo mais simples faria estremecer até a dama mais recatada: hidrolipodistrofia ginóide, dermatopaniculopatia edemato-fibroesclerótica ou, simplesmente, celulite.

Carlos Cruz - 13/07/2010

domingo, 29 de agosto de 2010

Adágio Prestíssimo de Adalgisa Pitonisa




Zarabumbeia a zabumba em derredor do ataúde
A terra engole a prole
de Adalgisa
Esconjuros de ebós de mandingas de "viernes santo"
Um negro ancião estala a língua e os ossos
Socializando o fogo fluido engarrafado na fonte
O futuro é um gato preto com futum de pelo molhado
Jesus Fura-bucho masca mato e cospe cospe cospe
Mariposas em revoada (mariposas revoam?)
antecipam o eclipse vaticinado pelo velho
a barba cofia desconfiado nauseabundo e lúgubre
Se esvai o dia do augúrio mau

Adalgisa chora
Adalgisa grita
Adalgisa cai
A terra devoradora de "niños"
revolve
e rega

Desesperai, filhos do homem!

Adalgisa vê
a luz de Jesus
Adalgisa arrebata
o prateado revólver
cano boca cano boca
estrépito silêncio
sete palmos

dor pungente
finis
mezinha quente

Adalgisa sabia
os mortos não mentem.

Carlos Cruz - 28/07/2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

ensaio sobre a imbecilidade





só imbecis vão ao bar para brigar
só imbecis quebram garrafas cheias de cerveja
na cabeça de outros imbecis
só imbecis desperdiçam o líquido amarelo precioso
borbulhante
e o rubro
espumante
precioso a enfermos e vampiros

só imbecis escrevem imbecilidades
quando não têm nada a dizer aos demais imbecis
que lêem com olhos míopes, turvos e idiotas
palavras imbecis e tortas
pensam-nas imbecis (traidores do movimento)

preparam tortas de morango e leite moça
bebem red bull com uísque old eight e gelo
arrotam e peidam e riem e filosofam
a inesgotável filosofia obtusa e imbecil

transitam com lepidez e imbecil sensatez
entre o teatro e o morro
entre mozart e mc catra
entre a mão e a pata
a loura e a mulata
o estúpido e o douto
o cancro mole e o duro
a tísica e o câncer
o haxixe e a cachaça

assim falava zoroastro:
o homem é um ser imbecil
desde o berço (pequeno, logo, imbecilzinho)
preparem seus cerebelos
estendam o tapete de alfafa
babem, gargalhem, lambam a própria cauda
ele está ao umbral
a quintessência do homem
o super-imbecil

venha o cálice, bebamos todos
um brinde à imbecilidade humana

Carlos Cruz - 02/01/2010