domingo, 5 de outubro de 2014

Eleições 2014 sob a ótica de um eleitor-leitor que leu o pequeno texto do Bertoldo ou o naufrágio do sufrágio




01) Dilma Roussef - candidata da situação à reeleição cujo partido, antes de se tornar situação, era a melhor opção pra quem desejava uma aurora menos cinza. sempre com cara amarrada, parece pronta a cravar as unhas no pescoço de algum desavisado. passaram-se os anos e ninguém que tenha vivido o antes e o depois pode negar que a coisa melhorou um gole. hoje o povo brasileiro menos favorecido pode ser entregar a luxos dantes impensáveis, como comprar um fardo de cerveja importada. mas o partido, no afã desesperado de se perpetuar no poder, se perdeu e descambou na mesmice pantanosa daqueles mesmos partidos que tanto criticaram no passado. o fim justifica os meios, por mais pestilentos e nauseabundos. lamentável, especialmente para mim que, sendo um eterno lago de paciência, naqueles idos de 1989, por pouco não me engalfinhei com um boçal na defesa do meu ideal representado por aquele ogro barbudo de fala cavernosa e língua presa.

02) Aécio Neves - primo siamês do ex-presidente fernando collor. cara de playboy criado a leite semidesnatado com pera, mamão papaia e sucrilhos kellogs. o fofucho cresceu e, na adolescência, passou a frequentar o iate clube aos domingos, para relaxar e se curar dos excessos das baladas de sábado à noite, regadas à jack daniels com red bull, drogas diversas, muito sertanejo universitário e a mulherada doida pra passear na carroceria da camioneta presenteada pelo papai, aquele mesmo que, de quando em quando, vinha resgatar o filhinho na delegacia. puto, chegava dando esporro: "porra! vocês estão de sacanagem? prender meu filho só porque ele bebeu algumas garrafas de uísque, capotou com o carro e morreram 3 pessoas? foi só um acidente, caralho! eu pago a porra toda! vamos embora, filho, esse pessoal parece que nunca foi jovem. papai dá outro carro, novinho e mais possante, tá?"

03) Marina Silva - chata pra caralho. cara de anfíbio, voz esganiçada, discurso confuso. estivéssemos nos 70 e ela fosse candidata a integrante dos novos baianos, votava nela sem titubear, desde que não cantasse, só compusesse. vejo uma trilha errática em meio à selva difusa nebulosa que vai descambar na sociedade alternativa sonhática. ou não. caso perca a eleição, fecha fácil uma parceria com o rapper criolo.

04) Luciana Genro - sem marina, ganharia o troféu 'mais chata da eleição' sem maior esforço. estuda ciência política na UFRS desde os 05 anos de idade; em casa, papai toma as lições. fez pós-graduação em retórica, mestrado em oratória, doutorado em dialética. poderia ganhar a eleição mas um grave deslize do passado, mancha indelével na sua bela história de vida, torna-a persona non elegível: ela tirou uma foto em cuba, de boina vermelha, com a estátua de che guevara ao fundo. perdeu, maluca.

05) Levy Fidelix - mineiro de Mutum, baixinho, gordinho, bigodudo e macho até a raiz do cabelo que sobrou atrás do cocuruto. se eleito, promete dar um gás, com o apoio do candidato Eymael, na combalida TFP e restabelecer o poder da tradicional família brasileira. seu lema: “a moral acima de tudo”. criará centros de pesquisa e reabilitação hermeticamente fechados para casais LGBT, onde especialistas altamente gabaritados tentarão provar por meio de experiências científicas que aparelho excretor não faz filho e que todo homossexual é útil na forma de adubo.

06) Pastor Everaldo - promete instituir o bolsa-danoninho e o vale-grapete. não sabe o que é previdência social mas sabe tudo de dízimo e gosta muito de púlpito. se pressionado, peida.

07) Eduardo Jorge - sempre que o vejo, penso em Trindade, Paraty. penso em praia, ondas, ondas quebrando na praia, onda, muita onda, viagem à lua, lua cheia, luau, estrelas brilhantes, hippies, dreadlocks, fogueira, alguém toca um violão, dança, roda, tudo roda. areia fofa. fogo colorido no céu. o mundo é lindo. A natureza é nossa amiga. a vida é boa demais.

08) Eymael – não convocado ao debate. menos de 1% das intenções de voto segundo os principais institutos de pesquisa. sabe-se tão só da parceria com o candidato Levy Fidelix no projeto Câmara do Amor Livre, destinado à reabilitação de homossexuais com vistas à reinserção na tradicional família cristã brasileira.

09) Zé Maria – não convocado ao debate midiático. menos de 1% das intenções de voto. inexpressivo. peru de festa. sem nenhuma chance. acha que ficou bem na foto do site do TSE. só isso. mais nada. acabou.

10) Mauro Iasi – vide Zé Maria.

11) Rui Costa Pimenta – vide Mauro Iasi.  

Face às facetas, provavelmente, uma vez mais irei no bom e velho voto-cacareco: zé maria presidente.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

conspiracy theory, invente uma pra chamar de sua




plantão do JN, com exclusividade, é claro: os candidatos à presidência da república aécio neves e dilma roussef foram os responsáveis pela queda do avião que matou o candidato do PSB eduardo campos. o jornal nacional teve acesso, com exclusividade, às gravações telefônicas gentilmente cedidas pela NSA, a agência norte-americana responsável pela interceptação telefônica e internética de milhões de pessoas ao redor do mundo, nas quais aécio e dilma conversam com políticos, militantes e outras pessoas ligadas ao PT e ao PSDB, acertando a vinda de rebeldes ucranianos especialistas no abate de aviões ao Brasil, em um avião da FAB. Segue a transcrição de uma das conversas entre a atual presidente e o presidenciável; através de códigos, em tom descontraído, falam com extrema frieza sobre a eliminação do político rival:


-E aí, brow, tudo certo?
-Nos conformes.
-Os butijucos vêm à selva?
-Tão no vento.
-Vão trazer os pirulitos?
-Só.
-E o passarinho que quer cantar, vai o rabicho balançar?
-Catabloom e cataploft.
-É nós na fita. Quem tasca?
-Ninguém.
-Responde rápido: duas cores bacanas para a auto-foda?
-Verde e amarelo.
-Jacaré no seco anda?
-Esturrica.
-O palhaço, o que é?
-Trelelé.
-Tem culpa eu?
-Todo mundo é inocente porque ninguém sabe de nada.
-Recomendações antes do show das poderosas?
-Prepara.
-Já é?
-Formô.
-Tamo junto e lula lá.
-O escambau, capiau. Beijunda.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Bibliomaniófilo Mocó



gastava todo exíguo dinheirinho que lhe caía nas mãos em livros. devorador de calhamaços, definhava a olhos vistos; o vício relegava a alimentação a patamares secundários na sua escala de prioridades. o corpo, implacável, cobrou-lhe a dívida: esquálido, nos braços da genetriz em prantos, corre os olhos baços pelas abarrotadas estantes do quarto e balbucia: "mãe... no céu tem livro?...". e morreu.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

a ave que cagava diamantes fedegosos, a tipoia e a azáfama



há alguns anos, durante um bate-papo antes do início das aulas com o professor Marcelo Leite na Universidade Severino Sombra, presenciamos uma cena lamentavelmente cada vez mais comum: um funcionário da universidade, seguramente dos mais graduados (e abastados), havia estacionado seu enorme e reluzente carro do ano numa tal posição que "matava" três outras vagas, um claro recado aos demais funcionários reles do campus: "cambada de insignificantes, vão estacionar seus carros populares financiados em quatrocentas prestações em outro lugar. eu sou rico, lindo, inteligente e muito importante, eu sou a pessoa mais importante da universidade, quiçá do mundo todo. logo, ocupo todo o espaço que eu quiser, faço o que quiser, inclusive cagar em suas piolhentas cabeças sem valor." aquele remoto - e esquecível - episódio foi a pedra angular da Teoria da Expansão Espacial do Ego dos Seres Pseudo VIPs na Sociedade de Consumo Contemporânea. Grosso modo, a teoria parte do pressuposto de que quanto mais arrogante, cheia-de-si e besta a pessoa for, mais espaçosa ela é.

ontem, tive nova comprovação da teoria. estávamos eu e minha amiga Suzana Muniz fumando em frente ao Hospital Samaritano em Botafogo, quando um gigantesco Jeep Cherokee assomou à toda e parou com direito à guinada de pneus à porta do nosocômio, precisamente no meio da passagem onde cabem dois veículos grandes, atravancando a porra toda. As quatro portas se abrem simultaneamente e desembarcam quatro orangotangos esbaforidos, tendo o menos corpulento pouco mais de dois metros. Um deles oferece a mão à uma mulher que reconheci no ato pois já a havia visto na TV. a pobrezinha aparentemente tinha torcido o tornozelo e estava acompanhada de outra mulher muito parecida com ela, ou seja, tão esquálida, feia e desprovida de atrativos quanto. a tal acompanhante já entrou reclamando pois cinco segundos haviam se passado e ninguém trouxera uma cadeira-de-rodas à muito-sobremodo-demasiado-pessoa-célebre-rica-famosa-mais-importante-de-todas. o porteiro corre desabalado (azafamado é o termo mais apropriado, certo, Suzana?) para atender à ordem da integrante do séquito.

até aí, tudo mais ou menos dentro do script. contudo, eis que surge um "Corsinha". o motorista aciona a buzina e gesticula, pedindo a liberação do acesso à entrada do hospital. simples: bastava um dos brutamontes entrar no monstro e locomovê-lo poucos metros à frente; ao invés disso, ele limitou-se a olhar de esguelha e com cara de poucos amigos o pobre veículo de pobre, como se dissesse: "você faz ideia da importância da minha patroa? foda-se! trate de esperar!" vendo que a buzina não surtira efeito, desembarca do carro uma senhora muito idosa, deslocando-se custosamente com seu andador. o detalhe que me fez pensar: a idosa sorria. refleti: será que essa moça rica e famosa, cheia de pompa, circunstância e empáfia, viverá tanto quanto essa senhora do carro popular que sorri diante de uma adversidade boba? se viver, com toda a descomunal importância que dá a si mesma, com todo o seu dinheiro e mordomias, impotente ante a ação implacável do tempo, será feliz?

ao final de tudo, fiquei matutando sobre como assim caminha a humanidade e onde descambaremos. uma interjeição seguida de uma expressão não me saía da cabeça, mas sem exclamação, posto que branda. sem nenhuma potência ou importância, qual um programa da rede globo: ai. que loucura.

manoel



cada pessoa é única. cada pessoa é louca. cada pessoa é única e louca, e essa loucura, na maioria das vezes, não só é inofensiva como faz bem para aquele louco e, não raro, para os demais loucos com loucuras diferentes. e o artista, o que é? ladrão de mulher? não, esse é o artista que faz as crianças rirem sob a lona. o artista é um louco especial porquanto dotado da faculdade de materializar sua loucura e submetê-la ao crivo sensorial dos outro loucos, uma tremenda insensatez, diga-se. a arte verdadeira tem convulsões, se contorce, baba, bate a cabeça na pedra, vira massa, se liquefaz e flui, sinuosa, suja, colorida ou negra como o piche, completamente desprovida de convicções e certezas. a arte, para ser arte, deve ser um erro e necessariamente passar ao largo do edifício da razão. por fim, não faço a mínima ideia da razão de estar escrevendo isso. estarei louco?

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Revelação



O Samba morreu.

brigadeiro xavier toma licor de cacau sabor brigadeiro



ninguém é obrigado a brigar nem a obrigar ninguém a brigar nem a brigar com quem não briga nem consigo brigar se não quer nem vê virtude na obrigação de brigar contra quem não se vê obrigado a não ser ou deixar de ser lombriga.

conjunção carnal-advérbio-infernal




entre tantos entretantos
perambulando por aí
trôpegos todavias
contudos cheios de si
emboras que não visitam a tia
no entantos que olham de soslaio
adredes de cara pra parede
algures pretensamente alhures
ceando em casa de sampaio
sita porventura lá pras bandas
do longínquo nenhures
porém, sempre vem o porém
acabar com a festança
à proporção que fode assaz
a cachola rubro-cornuda de satanás
zonzo, cara escarlate, vaza
zás-trás!
embora pr'os outroras
zamora, beleléu, conchinchina
fedentina casa das prima
sempiternos quintos dos infernos
porquanto o tacho está fervente
urge preparar gramáticos crentes
picantemente
alegremente
al dente.

Carlos Cruz - 05/02/2014

valium



a vida

ávida


comeu


vícios


bebeu


vodka


vomitou

virtudes vis

varreu

verdades vãs


viajou de avião

volitou na aluvião

tamborilou o violão

e teve um avc


Carlos Cruz - 03/02/2014

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

manual para fazer Martin Luther King dançar break na cova




vire político;
dê seus pulos e seja eleito;
cole com colegas que estão há mais tempo na sacanagem, observe e aprenda;
participe de toda sorte de maracutaias, sempre, jamais recuse participar;
ganhe muito dinheiro e esconda-o bem escondido, de preferência em países que ninguém conhece;
ludibrie o fisco;
ascenda na carreira;
repita cem vezes ao dia, todo santo dia: "eu sou honesto", até sentir que você se auto-convenceu disso (sua convicção será fundamental quando necessitar persuadir outros do seu caráter ilibado e da sua conduta irrepreensível);
jamais faça troça dos otários que pagam seus luxos, lembre-se que qualquer pé-inchado tem um celular com câmera hoje em dia;
se a casa cair, faça cara de bebê cagado, chore, chore muito, chore a cântaros, olhe para os céus e brade: isso é uma injustiça! isso é perseguição política! eu sou inocente!;
escreva um manifesto que contenha as seguintes expressões: preso político, perseguição, vítima, ditadura, censura, 1964, doi-codi, tortura, História, povo, liberdade; se puder, acrescente mártir, Araguaia, Vladimir Herzog e Gramsci;
contrate advogados safos que conheçam os tais meandros da lei, especialmente as chamadas 'brechas';
por fim, ao ser preso, diante dos holofotes, das câmeras e dos flashes, faça o famoso gesto dos Panteras Negras.



p.s. prepare seu retorno triunfal.


Carlos Cruz - 18/11/2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

pesadilla


sonhei que Mark Chapman, o assassino de John Lennon, descarregava uma pistola desert eagle .50 no cangote do cantor naldo durante uma apresentação no programa da regina casé. corta para o segundo ato: caixão forrado com a bandeira do flamengo, cortejo de djs e mcs da moda, trajando bermudas pretas largas exibindo 4 dedos de vala, ao som do réquiem em ré menor de mozart em ritmo de funk carioca. lembrete: evitar ingerir sopa de inhame e ler Schopenhauer antes de dormir.


domingo, 1 de setembro de 2013

escrever & servir


o escritor quer escrever em paz, sem censura, sem frescura, sem papas, sem tesoura e sem lei; mas o polícia chato de cara amarrada e olhar fuzilante fica o tempo todo apontando e reprovando: "isso não pode! isso não deve! você tá cansado de saber que os leitores misturam alhos com bugalhos, leite com manga, putaria com sacanagem, obra com obreiro... lembre-se que os tempos não estão para liberdades criativas; foi-se a ditadura mas ficaram os patrulheiros ideológicos e suas bandeiras politicamente corretas; os censores brandirão seus archotes da razão irreprochável, torcerão o nariz e esbravejarão: 'ele é policial! como pôde escrever uma coisa dessas, criar um personagem desses?' vão pregá-lo numa cruz, senhor carlos cruz." polícia mala. vai prender vagabundo e me deixa escrever, porra!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

polícia para quem não precisa de polícia



a função precípua da polícia civil, ou polícia judiciária, é apurar as infrações penais, aqueles fatos - por 'fatos' entenda-se algo que já aconteceu - definidos por lei como crimes ou contravenções penais. logo, tal atribuição NÃO inclui:


01) apurar crimes que ainda não aconteceram. o crime ou contravenção tem quatro fases sequenciais: cogitação, preparação, execução e consumação. o candidato a meliante tem a ideia do crime, decide pô-la em prática, traça seu plano diabólico, inicia os preparos e parte para executá-lo. se bem-sucedido, o crime se consuma. caso contrário, responde pela tentativa. a lei brasileira pune o criminoso somente a partir dos atos de execução. portanto, não, a polícia não é obrigada a agir porque você acha que seu vizinho pode lhe ferir ou matar ou fazer qualquer mal a você porque ele, cujas feições lembram muito as do monstro do doutor frankenstein, olha para você de cara feia.



02) apurar crimes impossíveis. embora muitos - dentre os quais habitués da Serra da Beleza, Chapada dos Veadeiros e Chapada dos Guimarães, bem como assinantes da revista UFO e leitores de erich von daniken - possam discordar, não, a polícia não tem o dever de lhe proteger porque os alienígenas espalharam câmeras invisíveis por toda a sua casa e podem a qualquer momento lhe abduzir e fazer altos e excitantes experimentos sexuais com você enquanto deslizam pela via láctea.



03) dar susto. uma das não-atribuições mais requisitadas pela clientela, especialmente por vítimas de violência doméstica: "sabe, doutor, meu marido não é uma pessoa ruim. ele só fica violento quando bebe. e ele bebe todo dia. daí ele me bate. mas eu não quero prejudicar ele não. eu amo ele. só queria que a polícia desse um susto nele pra ver se ele para de me bater." não, minha senhora, lamentamos informar que a polícia não dá susto. embora seja certo que eles seriam de enorme valia à instituição, não, o conde drácula, o lobisomem, a múmia, darth vader, satan goss, gasparzinho e o fantasminha pluft não integram nossas fileiras. é até verdade que temos alguns colegas na casa que antes de descerem à terra entraram na fila da feiúra várias vezes, contudo, malgrado involuntariamente sirvam para provocar choro em bebês de colo e dispensem dedetização nos locais onde trabalham, assustar maridos agressores não faz parte do seu rol de atribuições.

04) apurar crime ou contravenção penal que não é crime nem contravenção penal. se a lei define isso ou aquilo ou aquiloutro como crime ou contravenção, então, sem a menor sombra de dúvida, isso, aquilo ou aquiloutro É crime ou contravenção. se não, não. a polícia judiciária não tem que intervir:



a) se você acreditou no garoto-propaganda da casas bahia quando ele, com aquele sorriso idiota, afirmou que você poderia pagar quanto quisesse naquela linda cozinha bartira;

b) se o farmacêutico estava caindo de bêbado mas ainda assim lhe vendeu o medicamento correto;

c) se a professora disse que seu filho - cuja maior nota foi um 2 em educação artística - tinha déficit de aprendizagem mas (embora até pudesse estar pensando) em nenhum momento o chamou de jumento;

d) se seu marido comeu aquela secretária loira que tem um litro de silicone em cada peito, usa sumários tubinhos, tem piercing do tipo penduricalho no umbigo e uma tatoo tribal logo acima do cofre;

e) se você contratou o canal sex gay mas a sky só disponibilizou o canal de putaria hétero;

f) se sua filha de 16 anos topou alegremente um gangbang com todo o time de futebol do colégio no vestiário do clube;

g) se você chegou em casa e flagrou sua mulher e três afrodescendentes que poderiam facilmente ser confundidos com seu guarda-roupas e cujas envergaduras somadas ultrapassavam fácil 70 centímetros, praticando sexo animal no seu leito de amor conjugal;

h) se sua vaidade masculina foi massageada pela possibilidade de aumentar seu bilau com a super-ultra-mega-sensacional bombinha big pênis, expectativa frustrada pela constatação de que aquela coisinha minúscula e ridícula, por mais que sua mão esteja dormente de tanto bombear, continua e continuará ridícula e minúscula;

i) se o morador do 701 soltou uma bufa fétida no elevador que quase levou você à lona quando houve aquele blecaute de 20 minutos;

j) se você ficou atônito e amedrontado quando soube na curimba que frequenta às sextas, por meio do relato fidedigno da dona maria padilha das sete encruzilhadas do rodoanel, que uma das amantes do seu marido fez um trabalho 'indesfazível' para costurar espiritualmente e para todo o sempre a sua linda e rechonchuda vulva;

k) se você, ao chegar da vernissagem ou do shopping, deparou-se, horrorizada, com o vira-latas pulguento do vizinho engatado e babando em cima de adriane, sua cadelinha poodle que para você é muito mais que uma simples cachorrinha, é sua filhinha querida super bem-tratada à base de ração inglesa e shampoo francês;

l) se o ogro sujo, cabeludo e tatuado que mora perto da sua casa não separa as latas vazias de cerveja das garrafas de pinga das guimbas de cigarro dos restos de comida quando joga fora o lixo;

m) se você todos os dias se vê forçado a escalar o morro mais alto de sua cidade para falar ao celular com sua mãe que mora em santo antão do horizonte infinito;

n) se você, bêbado como um gambá, foi implacavelmente sodomizado naquela bacanal em que topou participar;



não. definitivamente não. seu problema é enorme, gigantesco, um problemão, mas não é previsto nem definido como crime ou contravenção na lei penal brasileira, logo, não é caso para a polícia. o policial pode se compadecer e até mesmo sentir ganas de fazer algo para tentar resolver sua questão, mas ele sabe que não pode fazer isso. tomar para si o encargo de outro funcionário público é usurpação de função pública e isso é crime. mas não fique aí parado, reclamando que ninguém faz nada para ajudá-lo. o chapolim colorado não vai aparecer e chamar os bons para seguí-lo. informe-se e procure o órgão nas esferas administrativa, civil, órgãos de classe, o judiciário, o batman, o justiceiro, etc., busque quem tem a atribuição, o dever de ouvir sua reclamação e tomar providências no afã de reparar a tremenda injustiça que você sofreu. pense também sobre a possibilidade de aceitar jesus, apagar a luz, usar brinco de cruz ou comer cuscuz, senhor(a) avestruz.



Carlos Cruz - 29/08/2013

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Woody Woodpecker



não me julgue
mal
o poeta é
sem sal
picareta
cara-de-pau

não almeja
o pedestal
não deseja ser
o tal
não aspira
ao capital

não quer saber
de bacanal
não o leve
ao sarau
apenas mude
de canal

tudo bamba
tudo samba
tudo bomba
tudo tomba

igual

no país do carnaval

Carlos Cruz - 16/08/2013

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

onde estão as caleças, os tílburis?



de repentemente, a ficha caiu e ele sacou que sua mania de enaltecer o passado a torto e a direito, sua reputação de mancebo useiro e vezeiro em usar expressões em desuso e sua franjinha pega-rapaz nada tinham de supimpa e o tornavam um chato de galochas; jamais desposaria uma mademoiselle mimosa e prendada; embora se arvorasse à conta de gentil-homem, não passava de um janota, daria sempre com os burros n'água; forçosamente, teria de se ater, quando muito, a furtivas chumbregações com as cabrochas da cidade baixa.

Carlos Cruz - 13/08/2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

lugar comum







por quê
toda dor tem que ser dilacerante
toda lágrima tem que ser copiosa
toda regra tem que ser clara
todo erro tem que ser crasso
todo sol tem que ser escaldante
toda estupidez tem que ser gritante
toda burrice tem que ser porta
toda estrovenga tem que ser torta
todo nu tem que ser castigado
todo leite tem que ser derramado
todo moribundo tem que ser desenganado
todo cristo tem que ser crucificado
todo lar tem que ser casa
toda cova tem que ser rasa?

Carlos Cruz - 02/08/2013


quinta-feira, 18 de julho de 2013

amor próprio



amo-te
de um jeito
só meu

sem parada
sem charada
sem trovoada

amo-te
de um ímpeto
só meu

sem bordoada
sem almofada
sem saraivada

amo-te
de um tempo
só meu

sem jangada
sem pincelada
sem alvorada

amo-te
de um barulho
só meu

com batucada
com gargalhada
com patuscada

amo-te
de um amor
só nosso

Carlos Cruz - 18/07/2013

onã anão



onã
toca tantã
pela manhã

no sexo
a febre malsã

na cabeça
o sutiã

onã
toma leite nan

onã
admira o kleber bambam

onã
pensa que tupã é marido de iansã

onã
não come maçã

Carlos Cruz - 17/07/2013

domingo, 7 de julho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

joão grandão




o banco
foi feito pra você
senta
senta
senta

o gigante
fumou
o bagulho
punk
de alcatrão
lá na prisão

o gigante
tá grandão
tá doidão
tá gigantão


joão, não
tá vendo
a copa
do pé
de feijão
sensaborão

o gigante
é grandão
e tá putão

joão, não
joão só vê
televisão

e agora, joão?

Carlos Cruz - 18/06/2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

sexta-feira, 26 de abril de 2013

El Ingenioso Hidalgo Don José de la Portela



Num vilarejo perdido no cume das distantes montanhas do Reino Esquecido de Miguel Pereira, vivia um fidalgo que diuturnamente se dedicava à laboriosa tarefa de medicar notebooks enfermos e ressuscitar computadores mortos. Conquanto seu mister não o desgostasse, o jovem, dado a leituras de livros de cavalaria revolucionária e farto dos desmandos e tiranias de Sua Majestade, o Rei Rói, e dos seus sectários, que se autodenominavam Os Cavaleiros da Távola Quadrada e cujo lema não deixava dúvidas quanto ao modelo -dito democrático - governametal adotado: "farinha pouca, meu pirão primeiro.", decidiu agir. Imbuído do espírito guerreiro dos seus antepassados, limpou, com escova de aço e kaol, a ferrugem da velha armadura do seu finado avô, lançou mão da faca de churrasco à guisa de espada, a tampa da lixeira lhe serviu de escudo, da velha piaçava fez sua lança e assim, devidamente paramentado, montou seu Rocinante VW Fusca 1973 que reunía a força de 1300 cavalos em apenas um, e partiu para a guerra, em nome de sua musa, a combalida, rota mas inda bela Democracia del Toboso. Alguns diziam-no louco, outros faziam troça, chamavam-no O Cavaleiro da Triste Figura, ninguém acreditava nele. Mas Don José de la Portela era brasileiro, miguelense, portelense, intrépido, sagaz, indômito, amava sua cidade e sua família (o adesivo no vidro traseiro de Rocinante clamava em caixa alta esse apreço) e não desistia jamais. Poucas luas após o início de sua aventura, a Providência, que assiste os homens de coração bom e caráter retilíneo, ofereceu ao desacreditado cavaleiro a oportunidade de mostrar a todos - nobres e plebeus - seu enorme valor. Pairavam sobre a reluzente coroa de Sua Majestade graves suspeitas de mau uso do erário real na contratação de carroças destinadas a recolher o lixo feudal, falava-se em favorecimento ilegal ao suserano de um reino vizinho. O Povo clamava por esclarecimentos. Foi marcada, então, uma assembleia na qual decidir-se-ia quanto à instauração de procedimento investigatório em desfavor do monarca. O Povo acorreu em massa e lotou a audiência, gritando palavras de ordem. A vassalagem não destoou nem surpreendeu, vassalo é vassalo. A grande surpresa ficou a cargo de nosso intimorato fidalgo que, malgrado as severas ameaças - que incluiam degredo, bastilha e guilhotina - proferidas pela Ordem dos Cavaleiros Encarnados, à qual era filiado, votou, em meio a lágrimas profusas e reminiscências das façanhas do avô, o Duque del Futurista, e para desgosto do Monarca e seus asseclas, a favor do investigatório. A turba foi ao delírio. O outrora chacoteado Cavaleiro da Triste Figura foi carregado nos ombros pelos populares, heroi merecidamente aclamado cujo novo cognome condiz melhor ao seu brio, à sua coragem e caráter: O Cavaleiro da Esperança. O final da novela ainda está por contar, todavia, uma coisa é certa: não há mais bobo de bobeira no Reino de Miguel Pereira.
Carlos Cruz - 19/04/2013

sábado, 30 de março de 2013

outdoor lugar-comum-de-dois


sou mais ou menos branco (vovó materna era caiapó), heterossexual, ateu não-praticante, flamenguista meia-cuié, tenho o peito cabeludo mas raspo o saco - por amor - pra agradar à patroa (coça pra carái), fumo cigarro de filtro amarelo, bebo fermentados, acredito na esquerda vesga, como a gordurinha do bife e a pele da sobrecoxa de frango, sei tocar os hinos da harpa cristã no saxofone, coço o cu e cheiro como todo mundo, ouço bach e flutuo, pago impostos - puto - mas sem reclamar, devolvo o a mais do troco com dor de corno por ser honesto, acho a bíblia um puta romance histórico, solto sonoros peidos matinais quando estou só, vejo filmes cabeça pra me achar culto e descolado mas prefiro os blockbusters de todomundo, nunca mando ninguém se foder, trabalho pra manter minha vidinha chinfrim e custear meus pequenos luxos - livros, livros, livros, vejo pornografia na internet como todo macho e macho nem tanto, arranco o filete de carne agarrado no vão dos dentes com os dedos, gosto do sexo esquisito que agrada a todos mas poucos admitem (nada contra mas, a coisa é subjetiva pacas, sem viadagem), leio calhamaços pelo desafio, as sacolinhas azuis na igreja sempre me envergonharam e marcos feliciano não me representa.

Carlos Cruz - 30/03/2013

Pintura: Shawn Barber

domingo, 24 de março de 2013

dorgas



tremores, alucinações, boca seca, palpitações, delirium tremens, coração na calvaria pulsante, olhos nos olhos boquiabertos. o sol gélido empretecido. a lua carcará sanguinolenta coruscante. antes que sobrevenha o esquizoide catatônico que tudo sabe,a iluminação regozijantemente nauseabunda, a bunda retrátil que retrata e sorri e o rigor mortis, vos digo a vós que escutai a voz: dorgas. largai. enquanto Seu Lobo não vem.

Carlos Cruz - 24/03/2013