terça-feira, 9 de outubro de 2007

Memórias do Cárcere



Alberto era um exemplo perfeito de que a punição pela privação da liberdade, mesmo no decadente sistema prisional brasileiro, podia dar bons resultados. Livre, após cumprir quatro anos de reclusão por roubo, era um novo homem, reabilitado, pronto para reintegrar-se à sociedade. Estudou Direito, curso dinâmico, especializando-se na esfera penal. Defendeu, aguerridamente, o verdadeiro responsável por sua transformação: Tonhão Tripé, seu antigo companheiro de cela. Bastaram poucos meses para ter seu esforço recompensado: Tonhão foi beneficiado com o regime de progressão de pena. Radiante, Alberto aguardou, à porta do presídio, a saída de Tonhão. Tão logo o viu, correu em seu encontro, abraçando-o carinhosamente. Tentou beijá-lo.
- Conseguimos, meu amor.
- Ih, sai pra lá, sua bichona escrota! Tô livre e louco pra comer uma xereca. - replicou Tonhão, afastando Alberto com um safanão.
- Seu filho da puta ingrato! Depois de tudo que fiz por você, é assim que me paga?
- Assim que descolar uma prata, pago seus honorários, Dr. Alberto. Agora, vai pra puta que o pariu!
Alberto ficou ali, estático, vendo seu grande amor afastar-se. À noite, na boate gay, afogou seus dissabores com muitas doses de uísque. Terminou na cama suja do motel de quinta, com o negro bem-dotado com cara de mal. Pela manhã, à ardência no esfíncter somou-se a constatação da ausência do negão, da carteira, do telefone celular e do carro. "Porra! Quem foi o filho da puta que disse que o crime não compensa? Desde que abandonei aquela vida, só tomei no cu..." - refletiu. Saiu do motel e seguiu direto para a loja de armas.
Rodou no primeiro assalto, dois dias depois. Na cadeia, conheceu Tião Pé-de-mesa, o terror dos estupradores. Mas essa é uma outra história...

Carlos Cruz - 08/10/2007

2 comentários:

Me Morte disse...

Esse eu li no bar e gostei. Mas adorei teu blog e o vlad empalador, meu herói preferido, eu assisti o fime dele umas quinhentas vezes e me emocionei, muito romantico.
Teu blog ta lindo!
beijos

Sirlei Passolongo disse...

Muito Bom Carlos, vc tem uma criatividade invejável em seus contos, e esse ficou hilário!

Beijão!